Autoconhecimento Consciência Aplicada Educação dos filhos

A consciência cósmica nas crianças

Criança dentro de uma caixa de papelão com binóculo na mão e corda em volta dos brações com desenhos de nuvens e aviãozinho de papel
Daniel Rezinovsky
Escrito por Daniel Rezinovsky


A realização da nossa verdadeira voz é o passo fundamental no desenvolvimento dos indivíduos. E encontrá-la na nossa época de massificação espiritual é realmente difícil. Para fazê-lo, há dois bálsamos místicos que podem nos auxiliar: a nuvem do não saber e o memento mori. A nuvem do não saber é o estado interior de autoesquecimento, uma dissolução profunda de tudo que é alheio ao eu fundamental, à imagem mística do Absoluto em nós. Quando entramos nesse lugar de silêncio intenso, é possível aquietar todas as vozes que impedem que nossa autoexpressão seja plena e autêntica. O segundo apoio central é a lembrança de que nosso tempo aqui é curto. De que iremos morrer. Por isso não há tempo a perder. O que pode ser dito hoje deve ser dito. Aquilo no que eu acredito deve ser expressado integralmente. Se o fizermos seremos capazes de encontrar uma voz que de outro modo vive soterrada pelo intenso ruído do mundo.

Criança vista de cima deitada em cima das mãos em cima de folhas de outono

Tenho uma crença em relação a isso que gostaria de compartilhar

Não acredito que a verdade última esteja longe da nossa consciência imediata. Na verdade, penso que ela é precisamente essa consciência, que quando é vista com olhos puros, desobstruídos, como os das crianças, é reconhecida diretamente e integralmente como a consciência cósmica, ou a participação direta na consciência do Absoluto. A consciência transcendental, a consciência original, tanto buscada, está muito próxima de todos nós. Os véus parecem espessos, mas não o são.

Digo isso, pois já tive inúmeros encontros com pessoas que de nenhuma maneira consideraria místicas ou de natureza filosófica, mas que na intimidade do diálogo sincero foram capazes de proferir compreensões sutis e incomuns sobre a natureza da realidade, apenas pelo contato direto com suas intuições, esse canal de conhecimento misterioso ao qual todos nós temos acesso.

Menino e menina fazendo guerra de travesseiros em cima da cama

Nesse âmbito íntimo, de diálogo aberto, talvez nossas pesadas e espessas barreiras espirituais se dissolvam, e por isso o que estava agudamente abafado dentro delas podia emergir. Deve haver uma verdade muito profunda na nossa condição que não somos capazes de ver por ser tão óbvia e clara. Sei que é um enorme paradoxo. Mas podemos tatear esse pensamento nos vislumbres místicos. Num breve instante todo o redemoinho de preocupações e sofrimentos desaparece, as portas da percepção se abrem, e o Universo se revela transfigurado.

E não é assim que as crianças veem? Não é evidente que vivenciam isso? Mas nós, adultos, imersos no “conhecimento profundo”, evitamos e nos recusamos a percebê-lo? Como pode ter ocorrido que essa consciência que naturalmente está imersa no mistério tenha perdido tudo? Como pode ter se desviado tanto das suas faculdades naturais? Esses não são pensamentos difíceis ou complexos. São percepções que qualquer pessoa pode ter. Que todos temos. Mas que por serem tão simples são raramente contempladas.

Casal de mãos dadas na baira do mãe de costas com céu ao fundo

Quando iniciamos o processo de libertação, rompemos a máscara das ilusões culturais, transmitidas de geração para geração

Deliberadamente ou inconscientemente, a iniciação no estado de sofrimento ocorre a partir da transmissão de consciência feita pelos pais, pela família e pela sociedade como um todo. A cultura, inconsciente do estado desperto, é incapaz de perceber que as crianças estão naturalmente, e sem perceberem, inseridas no estado de consciência cósmica, e que seriam capazes de se desenvolverem por essas linhas se estivessem em contato com pessoas despertas. A cultura simplesmente não é capaz de perceber o que não é capaz de perceber. Os pais são os elos de transmissão, e a partir da sua modulação emocional primária organizam a estrutura fundamental do indivíduo. É claro que essa é uma elaboração técnica; o que ocorre na prática é uma sequência de violências psíquicas sutis e não tão sutis que são transmitidas imemorialmente de geração para geração.

É desse modo que o paraíso da consciência primordial é perdido. As crianças não teriam que permanecer num estado infantil por toda a vida, não é isso que quero dizer. Elas se desenvolveriam, se tornariam adultas, ainda que o termo adulto não seja capaz de designar nem de longe o que elas poderiam alcançar existencialmente se fossem instruídas desde cedo a respeito da sua natureza básica e da realidade da vida.

Essa constatação nos mostra a base intrínseca para a transformação do mundo.
 Nós não somos capazes de perceber que as crianças já encarnam num modo preliminar o estado de consciência cósmica que universalmente buscamos. No melhor dos casos utilizamos metáforas, mas não de nenhum modo o que quero dizer. Não é uma metáfora; as crianças estão de fato num estado de iluminação primordial que é perdido pela nuvem de esquecimento transmitida por todos nós, seres não despertos. É esse processo que mantém a ilusão viva.

Criança com as mãos coloridas de tinta na frente do rosto

A pergunta então surge:

De que modo poderíamos educar as crianças para que elas não perdessem suas faculdades naturais? De que modo poderíamos educá-las para que desenvolvessem naturalmente a consciência cósmica? Porque a gigantesca crise que se revela a nós é: como pode ser que tenhamos perdido praticamente tudo que nas crianças é natural e que deveria ser espontâneo pelo simples desenvolvimento de um organismo? Como pode ser tão difícil para a maior parte de nós querer o que se quer, reconhecer o seu próprio desejo e viver a partir dele? Como pode ser tão difícil pensar seus próprios pensamentos, reconhecê-los e expressá-los? Como pode ser tão difícil criar e confiar na sua capacidade de criar? Por que os criadores entre nós têm vida tão trágica? Por que perdemos o contato com o nosso corpo? Por que é tão difícil reconhecermos nossos sentimentos e expressá-los? Por que nossas convicções espirituais se chocam com o espírito do mundo? Por que temos essas convicções de nascença? Será mesmo que é algo que deveríamos renunciar em prol da “sabedoria” do mundo? Por que as crianças que são naturalmente tão amigáveis e amorosas se transformam em adultos distantes uns dos outros, frios e que dificilmente são capazes de amar, e apenas com muito esforço? Não é evidente que algo aconteceu e continuamente acontece na criação de nossas crianças que não somos capazes de perceber pela perda que nós próprios sofremos? Esse que talvez seja o maior de nossos pontos cegos?

Então o repetimos continuamente, geração após geração, e nunca somos capazes de perceber por que o mundo não muda.
 As respostas devem ser simples e próximas. O segredo não pode estar longe. As crianças evidenciam isso. Mas essa constatação nos demanda uma enorme humildade que talvez não estejamos prontos a exercer. E se nós adultos, profundos, filosóficos, sérios, por todos termos sido vítimas do mesmo ato, inconscientemente produzimos a sua repetição que mantém os homens presos espiritualmente desde os primórdios da cultura?

Então a questão inicialmente nem mesmo diz respeito à promoção, desenvolvimento ou expansão dos atributos, qualidades ou faculdades infantis; todavia estamos longe disso. Já seria muito razoável que pudéssemos promover um processo de desenvolvimento em que essas faculdades naturais inerentes a todos os seres, a todas as crianças no seu processo ontogenético natural, pudessem permanecer ativas até a idade atual; que a nossa “educação” não fosse uma instância de uma contínua intervenção destrutiva que inibe aquilo que está latente na estrutura psíquica de qualquer criança.

Menina vista de baixo com braços para cima sorrindo

 

É claro que seres que tivessem esse tipo de suporte, que desde o início estivessem em contato direto com os seus sentimentos, com a sua vocação, com as suas habilidades, com a plasticidade da sua inteligência, com a sua criatividade, promoveriam mais rapidamente uma transformação do mundo do que qualquer programa de intervenção a ser implementado em outros campos humanos. Não é por acaso que todos os grandes gênios afirmaram que a fonte da sua genialidade proveu da capacidade de manterem sua criatividade, imaginação e intuição intactas no processo de desenvolvimento que os levou à idade adulta. Também é importante dizer o quão difícil ele é na nossa época, o que pode ser facilmente evidenciado pela trajetória trágica da maior parte daqueles que contribuíram significativamente para a evolução da consciência da humanidade.

Portanto uma ética educativa que vislumbrasse o potencial da consciência universal como algo latente às crianças nos forneceria uma base metafísica muito diferente da que temos hoje, em que somos os responsáveis por preenchermos as crianças com um vasto corpo de “conhecimentos”, já que elas vêm ao mundo como tábulas rasas, vazias e carentes de contato com o conhecimento intrínseco da realidade. No entanto todas as doutrinas espirituais evidenciam o oposto. De que carregamos a possibilidade do conhecimento transcendental dentro de nós, e que por um processo de anamnese, de reminiscência, seríamos capazes de resgatá-lo. Talvez os gênios sejam apenas aqueles que nasceram com um sistema imunológico existencial e simbólico, e que pelos acidentes da vida, por sorte de contato com pais lúcidos, ou então por circunstâncias de vida traumáticas que os levaram forçosamente ao resgate de algumas ou uma dessas faculdades perdidas, se tornaram capazes de expressá-las no campo do mundo e demonstraram que “a extensão do conhecimento a priori talvez seja muito maior do que supomos”.

Contudo, se de nascença estamos em contato com a mente universal, imersos no curso da sua inteligência imanente, e na verdade quando pensamos a partir dela somos verdadeiramente capazes de compreendermos por nós mesmos verdades que de outro modo não poderíamos conhecer, então nossas capacidades inatas são muito maiores do que acreditamos, e todo o processo de desenvolvimento da consciência talvez consista numa paulatina diminuição da estrutura inibitória que atualmente nos impede de assimilar essas possibilidades latentes, que transformariam radicalmente a nós mesmos e ao nosso mundo.


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Sobre o autor

Daniel Rezinovsky

Daniel Rezinovsky

Daniel Rezinovsky é psicólogo transpessoal, escritor e poeta. A base do seu trabalho é o processo de transformação de consciência, também conhecido como despertar. Já teve o seu trabalho divulgado na RPCTV, Rádio CBN, Paraná TV, Revista ÓTV, Revista Ser Espírita e jornal O Globo. Coordena o canal de espiritualidade no YouTube projeto MU, e é autor do livro Encontro com o Absoluto, lançado pela editora Coffeers, em 2018.

Minhas raízes estão na filosofia oriental e no processo de transformação de consciência, também conhecido como despertar. Tenho uma visão da psique como sendo essencialmente um centro de autoequilíbrio, uma dimensão de inteligência profunda que nos leva gradualmente ao nosso propósito e verdadeira natureza. Não considero o sofrimento psíquico como sendo patológico, como o faz a cultura moderna. Penso ao contrário, que são momentos da noite escura da alma, em que somos colocados em contato com a nossa essência. Minha abordagem estimula a reflexão filosófica e a autoexploração através de práticas meditativas, auto-observação, práticas expressivas, leituras e um contato pessoal e significativo. As minhas bases são a sinceridade e a amizade, que espontaneamente nos levam a transcender as nossas máscaras, permitindo um contato íntimo e verdadeiro. Vejo que vivemos num período de crise cultural profunda e, por isso, o despertar ocorre a partir do confronto com o caos do mundo. É esse encontro, no entanto, que nos permite manifestar a nossa alma e o nosso centro autêntico.

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