Comportamento Convivendo Relacionamentos

A intimidade, os amores e a eternidade

Casal de costas de mãos dadas com por-do-sol de fundo
Daniel Rezinovsky
Escrito por Daniel Rezinovsky


A intimidade é uma pérola rara e preciosa. A essência da intimidade é a superação da aparente distância ontológica entre dois seres. Buscamos que o outro nos reconheça e se abra inteiramente ao nosso espírito. A intimidade não depende de um insight especial que o outro tenha a nosso respeito, nem mesmo de uma estrutura teórica sofisticada utilizada como muleta para nos entender, mas de uma escuta nua de expectativas, de um desprendimento de si mesmo enquanto ele nos vê e nos percebe.

O encontro é um evento místico.

Requer um contato além do mundo imaginário no qual se vive. Uma saída do simulacro no qual nossa vida se tornou imersa. Isto é extremamente sutil. Me torno vazio e pleno de silêncio e ali, onde estou mais vivo, sou capaz de reconhecer a verdade inerente a nós dois. Nesse espaço interior puro podemos nos encontrar totalmente e, se você estiver no mesmo lugar, se você se sentir da mesma maneira, já não haverá diferença entre mim e você. Nos perceberemos idênticos no silêncio, no espaço vivo do qual nunca saímos e de onde o mundo aparece e desaparece continuamente.

Isto é uma experiência real e muito misteriosa. Nossas fronteiras se perdem. O que eu sinto é o que você sente e o que você sente é o que eu sinto. Na sincronia total, na simpatia de sensações, tudo que eu imaginava a seu respeito desaparece para que eu o veja inteiramente e, então, brevemente, o amor emerge no plano da existência transitória como um vislumbre de um Ser único que ainda nos escapa.

Casal de costas com mulher encostada no peito do homem com lago e pôr-do-sol de fundo

Uma outra qualidade desse lugar-estado é a atemporalidade. Não há tempo ali. Nada acontece. As circunstâncias não o afetam. É um espaço de transcendência. Então quando nos encontramos nesse lugar, quando sentimos amor por alguém, quando esse espaço de intimidade surge, é como se estivéssemos vendo para além da nossa condição finita. Nos vemos sem o véu e já não há mais um “eu” ou um “você”. Mas isso não necessariamente é percebido de modo explícito. Percebemos apenas que a solidão intrínseca à nossa condição foi superada. Sem saber exatamente como ou por que aqueles olhos no outro corpo nos veem como se estivéssemos neles; ao mesmo tempo, é um não você, é um outro de fato.

No entanto, essa compreensão nos coloca numa posição espinhosa. Esse estado infinito se mostra e se revela para nós dois, que já deixamos de ser dois, e a partir dele nossa vida finita é vista e experimentada. E a entrada do infinito aqui neste mundo nunca é trivial. É possivelmente o evento mais significativo para os seres finitos, nós, criaturas do tempo. Provoca tensão na nossa vida. Algo maior se mostra e agora não podemos mais aceitar a experiência ordinária da vida. Captamos um raio da luz além do véu.

Silhueta de casal se beijando com sol refletindo no fundo

Ocorre uma enorme tensão entre a realidade infinita e o mundo finito.

A tensão intrínseca por trás do amor. Contém toda a força de algo eterno que surge dentro deste mundo de passagens, que por isso nunca pode ser capturado e eternizado, porque apenas a visão temporária da eternidade nos é permitida aqui – paradoxo dos paradoxos – e nessa tensão o amor subsiste. Quando começa já sabemos do seu fim e, no entanto, é no reconhecimento do eterno que ele começa, senão não seria amor.

Talvez essa seja a base metafísica para a inevitável dor presente em todos os amores. Por trás de todos os pequenos conflitos do dia a dia, das disputas e dos desentendimentos, dos encontros e desencontros, talvez em cada um desses momentos pulse o peso da eternidade em tensão com o tempo, com a passagem inevitável de todas as coisas. A cada dia o brilho da imortalidade que uma vez sentimos parece se desvanecer. E no entanto, se as nuvens e os esquecimentos não tiverem a palavra final, esse brilho talvez possa se revelar como a verdade subjacente a tudo que foi vivido. O essencial que sempre esteve ali, porque é uma faísca do real. O que se sentiu com clareza mágica no começo está presente em todos os momentos, inclusive no fim – especialmente no fim. E possivelmente compreenderemos que as lutas entre os amantes se deem precisamente pela tentativa incansável de manter a percepção desse brilho eterno viva, e de que esse brilho não se perca nos descaminhos da vida.

Sobre o autor

Daniel Rezinovsky

Daniel Rezinovsky

Daniel Rezinovsky é psicólogo transpessoal, escritor e poeta. A base do seu trabalho é o processo de transformação de consciência, também conhecido como despertar. Já teve o seu trabalho divulgado na RPCTV, Rádio CBN, Paraná TV, Revista ÓTV, Revista Ser Espírita e jornal O Globo. Coordena o canal de espiritualidade no YouTube projeto MU, e é autor do livro Encontro com o Absoluto, lançado pela editora Coffeers, em 2018.

Minhas raízes estão na filosofia oriental e no processo de transformação de consciência, também conhecido como despertar. Tenho uma visão da psique como sendo essencialmente um centro de autoequilíbrio, uma dimensão de inteligência profunda que nos leva gradualmente ao nosso propósito e verdadeira natureza. Não considero o sofrimento psíquico como sendo patológico, como o faz a cultura moderna. Penso ao contrário, que são momentos da noite escura da alma, em que somos colocados em contato com a nossa essência. Minha abordagem estimula a reflexão filosófica e a autoexploração através de práticas meditativas, auto-observação, práticas expressivas, leituras e um contato pessoal e significativo. As minhas bases são a sinceridade e a amizade, que espontaneamente nos levam a transcender as nossas máscaras, permitindo um contato íntimo e verdadeiro. Vejo que vivemos num período de crise cultural profunda e, por isso, o despertar ocorre a partir do confronto com o caos do mundo. É esse encontro, no entanto, que nos permite manifestar a nossa alma e o nosso centro autêntico.

Contatos:

Email: [email protected]
Site: danrezinovskydotorg.wordpress.com
Instagram: @dddrezi
YouTube: Projeto Mu