Autoconhecimento Consciência Aplicada

Os quatro atos da história da consciência

Mulher estilizada com universo no fundo e luz saindo de sua cabeça
Daniel Rezinovsky
Escrito por Daniel Rezinovsky

Nós estamos aqui, sem saber exatamente onde é aqui. Com essa afirmação quero dizer que a ontologia do mundo nos é oculta. Do mesmo modo que para um animal autoconsciente o significado da natureza lhe é vedado, pois existe imerso numa vida que ele ainda não é capaz de compreender, assim vivemos continuamente sem saber numa realidade atemporal, todos faces de um mesmo Ser, sem suspeitarmos.

O mundo criado reflete vividamente essa inconsciência ontológica

Por isso ele espelha o sofrimento essencial, a separação que a consciência aparentemente sofreu da realidade da qual ela emergiu. No primeiro ato da história cósmica a consciência gradualmente abre os seus olhos para a incompreensível perplexidade da existência. Toda a procissão dos seres evidencia um gradual aumento na capacidade de reconhecerem a si mesmos em relação ao ambiente no qual vivem.

No segundo ato a autorreflexão, a autoconsciência surge: na incipiente individualidade de um primata errante, um bonobo ou um chimpanzé que perscruta o ambiente em busca de alimento, e que acidentalmente se depara com o seu reflexo à beira de um lago; na primeira contemplação que um de nossos ancestrais hominídeos realiza de sua mão. No terceiro ato nos separamos integralmente da natureza na qual nascemos. Nos vemos à parte, distantes, nossa mente órfã, sós e vulneráveis aos terríveis ventos de uma existência que já não mais nos acolhe nos braços da comunhão inocente.

Mulher com a cabeça apoiada no braço encostado na janela de vidro

Somos exilados e jogados no crepúsculo do Ser, e agora a luta pela sobrevivência domina os nossos dias

A paz nos escapa. Os outros surgem como nossos inimigos.
 Nos vemos diferentes e o medo nos consome. A natureza não mais nos alimenta. Ela agora se mostra cruel e indiferente. Erigimos paredes para nos protegermos dos elementos. Iniciamos a labuta para alimentar o nosso corpo por meio de nossas próprias mãos. Vemos os nossos irmãos como inferiores ou superiores – nasce a hierarquia. Agora não mais existimos num mesmo plano de ser, mas na ordem daqueles que caíram da realidade fundamental. Criamos escadas artificiais para um céu que nos tortura com a sua incessante lembrança.

O terror da existência isolada nos faz destruir desesperadamente uns aos outros e a natureza que nos deu vida – ela agora nossa principal inimiga. O domínio é a única visão que se mantém firme aos nossos olhos. As civilizações surgem uma a uma em todos os cantos do globo, irmãs em espírito, fruto da anomalia dos seres que já não mais podem viver a partir do Uno. Cada um agora dividido, em guerra consigo mesmo. Em guerra com os outros. Filhos da queda e agora lançados num mundo cego povoado por seres imaginários, frutos de sua imaginação torturada, seus novos deuses.

Homem de lado sentado em um banco com queixo apoiado na mão

O início do quarto ato ocorre quando eclode a intuição de que é possível o retorno à condição original

Mas não por meio de uma regressão que eliminaria as novas faculdades adquiridas pela consciência na sua tortuosa jornada de ascensão das esferas da Natureza. Sentem-se agudamente os limites do mundo inventado. Vislumbres de uma nova possibilidade de existência perfuram o dia dos seres e cada vez mais se fazem presentes – intimações de um outro estado de ser. A intensificação da consciência da separatividade revela os contornos antes ocultos da prisão ontológica na qual habitamos há muitos milênios. As grades da inconsciência com pungência crescente expõem a falsidade de um mundo pensado como real à parte da realidade que o sustenta. Os ídolos se mostram secos. O espetáculo um triste jogo de véus e sombras. Os deuses vãos desejos alimentados pelo sangue de um mundo em ruínas. Algo treme nas profundezas dos seres que habitam o mundo invertido de suas imaginações compartilhadas. Rupturas súbitas perturbam o torpor da consciência aprisionada. Em cada corpo o mesmo espírito em vias de despertar.

O que é essa nova visão que nos atormenta? O que está acontecendo com o mundo? Pensamentos que perfuram o casulo da mente dividida. Surge então uma explosão de incomum vivacidade mental. A restituição de uma sensibilidade cruelmente despedaçada. Um olhar que não é deste mundo assume o plano da mente dividida.

Metade do rosto de mulher com fundo de céu azul embaçado

Quem é esse que agora nos olha?

O que é esse novo espírito que contempla o Universo inteiro como fruto de sua imaginação? Será ele o deus que perdemos? Será esta a verdade que as profecias proferidas nos lábios secos dos profetas queriam nos dizer? Esse olho não é feito da carne dos seres que sofrem para suportar a sua contínua irrupção. Suas ideias são incapazes de contê-lo e de articular as novas dimensões às quais são submetidas. O olho da ordem infinita é como o reflexo que o primata vê pela primeira vez como si mesmo.

Num único passo é feito o salto da mortalidade para a imortalidade. O envoltório de carne é preenchido por um espírito que o transcende. A reminiscência da verdadeira natureza da existência emana dessa nova mente que contém os seres do plano cindido. Cada metade de um cérebro em guerra consigo mesmo compreende o seu oposto.

Rosto de mulher bem perto com cabelos no rosto

O deus se lembra

Caído e fragmentado num mundo de sua própria invenção. Perdido dentro de miragens feitas com a luz de sua própria imaginação. A eternidade se abre. O tempo revela janelas para a realidade que o contém. A vida incessante expõe o silêncio do puro espaço do ser. O Absoluto vê sua natureza indivisível nas duas facetas do cosmos. A criatura colapsa perante o sublime despertar do Absoluto dentro de si mesma. Agora ela nem mais possui o seu si-mesmo, pois ele se tornou idêntico com o Si-mesmo daquele que a criou. A perplexidade provoca o colapso. Todas as possibilidades ontológicas se revelam no espaço transtemporal dessa Mente que agora está viva dentro dos seres. Cada folha que tremula, cada inseto que percorre a terra plena de sombras revela o corpo daquela que é a inteligência primordial nas bases do mundo. Ela se vê uma vez mais.

A vastidão do Universo ressoa com a canção do despertar. Nada está fora da Grande Mente. O Universo percebe e sente o evento singular que se manifestou nele. A consciência vê no cosmos a sua própria face. Em cada criatura contempla a si mesma em silêncio. Todas revelações do que ela é. O nascimento de Deus em cada criatura aprisionada. Ninguém aqui além dele, além dela. O mundo invertido se parte em pedaços para que a verdadeira ordem das coisas surja mais uma vez. Os mundos de separação em dissolução para o retorno da contínua comunhão com o Ser.


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Sobre o autor

Daniel Rezinovsky

Daniel Rezinovsky

Daniel Rezinovsky é psicólogo transpessoal, escritor e poeta. A base do seu trabalho é o processo de transformação de consciência, também conhecido como despertar. Já teve o seu trabalho divulgado na RPCTV, Rádio CBN, Paraná TV, Revista ÓTV, Revista Ser Espírita e jornal O Globo. Coordena o canal de espiritualidade no YouTube projeto MU, e é autor do livro Encontro com o Absoluto, lançado pela editora Coffeers, em 2018.

Minhas raízes estão na filosofia oriental e no processo de transformação de consciência, também conhecido como despertar. Tenho uma visão da psique como sendo essencialmente um centro de autoequilíbrio, uma dimensão de inteligência profunda que nos leva gradualmente ao nosso propósito e verdadeira natureza. Não considero o sofrimento psíquico como sendo patológico, como o faz a cultura moderna. Penso ao contrário, que são momentos da noite escura da alma, em que somos colocados em contato com a nossa essência. Minha abordagem estimula a reflexão filosófica e a autoexploração através de práticas meditativas, auto-observação, práticas expressivas, leituras e um contato pessoal e significativo. As minhas bases são a sinceridade e a amizade, que espontaneamente nos levam a transcender as nossas máscaras, permitindo um contato íntimo e verdadeiro. Vejo que vivemos num período de crise cultural profunda e, por isso, o despertar ocorre a partir do confronto com o caos do mundo. É esse encontro, no entanto, que nos permite manifestar a nossa alma e o nosso centro autêntico.

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