Convivendo

Corpo de verão ou verão do corpo?

Menina branca, usando biquíni, setada na areia olhando para o mar.
Benedito Milioni
Escrito por Benedito Milioni
Eis que se aproxima o verão, com as suas explosões de luzes, cores e louvores ao ato de viver, em que até as pesadas pancadas de chuva parecem musicadas por entusiasmados compositores de sinfonias. E, como em todos os anos, sucedem-se enxurradas de produtos, dietas, conselhos e novidades que prometem milagres para inaugurar a estação com um “corpitcho” de fazer inveja e de estufar o papo de tanto orgulho. Multidões procuram as academias, as salas de estética, salões e clubes de “fitness”, disputam as agendas dos nutricionistas e esteticistas mais badalados e os “personal trainers” lamentam não dispor de mais doze horas no dia para atender a tanta gente querendo mexer o adormecido corpo. Vale tudo para o tal corpo de espantar nas praias, piscinas e rebolativos protocolos dos jogos de sedução das baladas e locais onde a dança da moda agita as células a mais não poder. E surgem as novíssimas opções de submissão do corpo aos tratamentos e às fórmulas, enfim, toda uma alquimia de possibilidades e mesmo a experimentação sem critério algum dos amontoados de bobagens que vendem a fácil magia do confuso conceito do “corpo de verão”. Mulheres e, é claro, também os homens buscam de forma ávida os sinais e indicadores de urgentes melhorias em seus corpos, aumentando o imenso mercado de consumo dos milagres prometidos por empresas e instituições sérias e éticas, assim como pelos perversos arautos da estética perfeita. O mundo do marketing abre as comportas das suas criações e passa a obliterar a razão e a inteligência, levando ao obscuro espaço fronteiriço entre a vaidade sem limites e as naturais medidas de proteção da nave em que se faz a curta e veloz viagem. Tadinho do corpo…

Parece que não evoluímos muito desde os tempos do antigo Egito, uns dois mil anos antes da chegada de Cristo, nos quais as vaidades impunham até máscaras faciais com excremento de crocodilos e banha de suínos para sustentar e dar brilho aos cabelos, isso tudo depois de horas de imersão em banheiras com leite azedo. Aff… Que horror… Assim eram os belos, o que leva a que se imagine como se mostravam os definitivamente feiosos! 

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Sem a menor chance de alguma melhoria no corpo em que navego por essa existência tão curta quanto saborosa, acabei sendo cooptado pelas fileiras dos que louvam o verão no corpo, ou seja, um estado quase onírico na relação “eu com eu mesmo”. Nesse tipo de relação, não há nada a ser melhorado no corpo para que se alcance a sensação do ser feliz. Fala mais alto a maneira como o assumimos como a mais bela e saudável expressão de harmonias entre possibilidades: o que somos e o que podemos ser. E na tribo dos bem-resolvidos com o seu corpo, não há desprezo pela cosmetologia e toda sorte de recursos da “photoshopada” tão ao gosto das semanas de pré-verão, mas também não há a sujeição dócil e meio neurótica porque, tribo naturalmente alegre e em paz com a vida, são pessoas totalizadas, já provaram todos os sabores da vida, doces e amargos, e são bem sintonizadas com as suas dimensões existenciais, dentre elas: a de que o que vale é a vibração emocional, isso sim! Nessa tribo, há a reverência ao próprio corpo, não o culto ao corpo de outras pessoas ou de uma impossível imagem de esculpidíssimo modelo fotográfico. 

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As pessoas dessa tribo acreditam que felicidade não se guarda em potinhos nem depende do suor das malhações nas academias, mas faz um bem danado para o coração que pulsa emoções pelo corpo todo.
 É, pois, a tribo dos que elegem o verão no corpo e fogem dessas neuras de “preparar-se para o verão”. Esse tipo de pessoa jamais se deixa torturar pelas marcas e sinais que a tirania da sociedade de imagens sempre elege como “defeitos”. Para elas, o ideal de perfeição e belezas sem retoques arbitrados pelo insidioso marketing dos milagres pré-verão não passa de mais uma razão para não saber quem mais tenha o miolo mole: quem promete ou quem acredita que se deva ter “um corpo para verão”?

Andei pensando, melhor empregando o tempo que perderia dando trela aos sussurros da patacoada de setores da mídia que não ousam mostrar a si mesmos como exemplos das belezas propagadas em suas matérias e, pensando, meio abusado até, eu admito, defendo a tese de que não é sensata essa ideia da beleza para o verão. Se o(a) caro(a) leitor(a) chegou até essa meia dúzia de linhas que fecha o texto, então, posso dividir com ele(a) o que ensinaram uns tantos sábios que me foram mentores: tudo se resume a soltar o corpo e deixar que, com ele e as suas escolhas, a vida se expanda. Esse soltar significa que é prudente ouvir e entender os seus sinais e comer, beber e dormir apenas o que ele pede, porque nada faz mal, só o excesso. Vale também deixar que o corpo brinque à vontade em caminhadas de que goste para valer, livre de tabelinhas que infestam os notebooks dos treinadores, corridas em que se aventure sem preocupações com uniformes vistosos e o monte de tralhas que enfeitam o corpo, mas não lhe agrega valor algum, a não ser os débitos e juros dos cartões de crédito, e que curta-se em esportes variados, sem gastar energias com padrões estéticos, muitíssimo menos com ganhar ou perder. O corpo se mostrará como um jovem em verões inesquecíveis se lhe for concedida a liberdade de dançar como louvação à vida, pouco ligando para a técnica do ritmo da moda, ossos e músculos brincando juntos e pulando as fogueiras onde queimam os medos, as vergonhas e a timidez bobinha. Ah… E o verão será reverberante, liberando energias para acender núcleos de novas estrelas alhures, bem para lá da Via Láctea, se o seu corpo, cá entre nós, estimado(a) leitor(a) desse valente e doce Eu Sem Fronteiras, for liberado para ferozes combates corpo a corpo… Entre lençóis! Aí, podeis crer, ó vós que ainda tendes alguma renitência, o verão vai até se esticar uns dias a mais para que nele, assim ampliado, caiba nova e imensa sensação de felicidade.

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Como me restou um espacinho, deixo um efeito muito bacaninha dessa prática de “verão no corpo”, não a bobagem do “corpo para o verão”: rejuvenesce!


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Sobre o autor

Benedito Milioni

Benedito Milioni

Graduado em Sociologia e Administração, 46 anos de carreira executiva e técnica em Desenvolvimento de Pessoas, autor de 32 livros, autor de 5 e-books, co-autor de 15 livros e autor de 25 manuais técnicos.

Dirigiu treinamento para mais de 3.349 grupos (cerca de 81.000 treinandos), dos quais 36.760 da área de RH, cerca de 24.736 Gestores e Líderes, 18.610 na área Comercial e 3.318 em Competências de Negociações . Formou cerca de 2.450 Instrutores e Multiplicadores Internos e 610 Consultores Internos Participa, regularmente, como conferencista sobre Tecnologia de Gestão em T&D em eventos nacionais e internacionais.

Apresentou mais de 2.104 conferências e palestras para mais de 200.000 pessoas. Prestou serviços a mais de 440 empresas, no Brasil e no exterior (América Latina, América Central, África e Europa). Júri de prêmios de Excelência na Gestão de Pessoas.

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