Autoconhecimento Comportamento

Cheiros de vento

Escrito por Thiane Avila
A melhor maneira de amar é aquela em que atravessamos os roteiros dos sentimentos pelas chagas do nosso próprio conhecimento. Há vezes em que tudo parece significar o que não era, trazendo à tona um receio de deixar de ser o que outrora fazia sentido.

A grande descoberta reside no sistema dos próprios interstícios, capaz de fazer voar as magistraturas rabiscadas nas impressões do que acreditamos desvendar. Não é o óbvio que refaz as velhas salvaguardas, mas a imensidão do não visto, permeando os rodeios dos holofotes, que trazem ao jogo as nuances do que nos negamos a perceber durante toda uma vida.

Ventando na árvore

Não tenho dúvidas de que meu itinerário corresponde tão-somente ao honorário da vigia. Os passantes da minha história merecem tão-somente seu capítulo de vírgula, auxiliando os desinformados a implementar as vozes da solidão como maneira genuína de se fazer presente em meio aos barulhos perdidos que não são seus.

Penso com frequência nas vezes em que sucumbi ao ócio de ficar tempo demais. Demorar nas esperas assemelha-se aos motins das multidões que, em suas sombras, reconfiguram os olhares como modo de mostrar-se lúcido ao que ninguém entende. Às invenções bêbadas de perversão e saudosismo.

Pobres poetas recostados em suas dores. A todo momento revisitados pelos limites de seus versos, à mercê dos julgamentos intempestivos de gestos inescrupulosos de leitores desatentos. Não é possível ler um poema de Barros sem retomar a vivência do campo, assim como não é possível rememorar as vigílias das noites em claro sem retomar o nome de quem as guardou em seu pranto.

Há um quê de inércia nos olhos de quem se senta à beira das estações. Há uma atmosfera de saudade nos labirintos revisados pela simplicidade do que vamos deixando para trás à medida que sofisticamos nossas exigências.

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Nunca soube medir os aforismos dos tempos transmutados em descobertas fora das suas janelas. Abro as portas das palavras como via de colocar em algum lugar uma criação desajeitada e sem pretensão de ficar. Eu fico apenas onde os olhos encontram cheiros conhecidos para recostar o seu perfume. Sou a própria amostragem do silêncio para os barulhos que buscam as melhores formas de não serem tudo o que já são.

É como encontrar na plenitude das mãos o mais perfeito toque para as tormentas que subsidiam os espasmos do corpo. Nossa respiração, ofegante, renasce a cada mistério por desvendar. A cada chaga de lembrança pequena que vem nos remodelando pela amorosidade das estações.

Montanha no deserto

Não são pequenos os pesadelos de vento. Não são desprezíveis os julgamentos em queda. Todas as vezes em que estive em apuros sensitivos, liguei-me ao centro das sensações como forma de relembrar as alegorias traduzidas em emoções. Não são poucos os roteiros que compõem nossos sentimentos, assim como não são besteiras os holofotes que nos colocam para existir.

Hoje sei que, se um dia for preciso, escolherei pela maciez do não dito em vez do excesso do discurso. Nas não palavras, encontro a travessura para escrever o que, de outra maneira, não conseguiria esboçar no mundo.

Sobre o autor

Thiane Avila

Com experiência na área da educação, Thiane já ministrou aulas particulares de Língua Inglesa e Portuguesa, bem como atuou em escolas de idiomas. Estudante de relações públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, também cursa teatro e é colunista de uma Revista em sua cidade natal, Gravataí, além de colaborar com outras plataformas virtuais literárias.

A escrita já rendeu algumas premiações nacionais e participações em coletâneas. Os prêmios recebidos contemplam o 3º lugar no Concurso Literário Icozeiro (julho de 2014), o certificado de Qualidade Literária pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores (maio de 2015) e o reconhecimento pelo Conselho Editorial da Câmara Brasileira de Jovens Escritores do Rio de Janeira pela qualidade literária da obra selecionada para publicação nas edições de maio de 2015.

Contato:

Email: thiane_nane@yahoo.com.br
Facebook: Thiane Ávila
Site: Jundiaí Online

Participação nas seguintes coletâneas: “Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos” Volume 124 e “Poemas descalços na noite serena” – ambos pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores.