Crônicas da Vida

Tenho apego a estações

Mãos fechadas em torno de um trigo
Thiane Avila
Escrito por Thiane Avila
Tenho apego a estações. Dia desses, estive em uma estação antiga. Ainda cheirava a pão de queijo novinho e, ao fundo, ainda tocava a velha e brega trilha sonora dos que viajam. Música com acordes de despedida. Sou apegada a rituais de passagem. A besteiras enraizadas nos dilemas internos.

Nunca tive problemas em admitir as fragilidades de uma insegurança ingênua, adocicada com o gosto amargo dos tropeços e enganos. Das coisas mais demoradas e difíceis para mim são as despedidas. Regularmente, em dias barulhentos de saudade ou bagunça, me movimento ao lugar das partidas. Um ato simbólico para despedir-me de versões antigas. É como se, a cada passagem de trem, eu tivesse a chance de colocar tralhas de mim. Sem passagem de volta. Sem roteiro definido.

Sempre foi difícil arrumar as malas. Não sou econômica na vida, o que dificulta algumas escolhas. Não é possível conciliar tudo, mas também é preciso adquirir muita maturidade para identificar o que faz parte da nossa história e o que, por vezes, o vento e as palavras trazem por engano. Conhecer os próprios limites e valores é a única coisa necessária para não correr o risco de compartilhar viagens erradas ou aceitar destinos que não são nossos. E é uma ilusão achar que a troca de vagão trará um novo lugar.

Imagem divida em quatro, cada parte simbolizando uma estação do ano.

Todas as vezes que estive naquela estação, senti o peito pequeno, mirrado. Contorcido de apertos colecionados e mal resolvidos. Com o peito fechado, fica difícil receber as coisas boas espalhadas por aí. Os olhares leves e serenos. Os sorrisos pintados de mundos desconhecidos e fascinantes. Sem o peito apto a receber as ofertas do tempo, é pouco provável que as coisas passem junto com os dias. E é arriscado demais acordar com a sensação de estar vivendo sempre no mesmo lugar.

Quando o trem finalmente chegou, eu estava distraída. Como tantas vezes, acariciei algumas dores já bem acomodadas no espaço sucateado do peito, buscando nos seus olhos motivos inventados para ficar. Quase com o timing perdido, percebi que há coisas que as mãos já não conseguem carregar, e que a garganta cospe fora por, finalmente, entender que nunca será possível regurgitar nenhum problema que não faça parte de si mesma. Fica fácil entender quando paramos para pensar que de nada adianta tomar remédio no lugar de quem está doente.


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Sobre o autor

Thiane Avila

Thiane Avila

Com experiência na área da educação, Thiane já ministrou aulas particulares de Língua Inglesa e Portuguesa, bem como atuou em escolas de idiomas. Estudante de relações públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, também cursa teatro e é colunista de uma Revista em sua cidade natal, Gravataí, além de colaborar com outras plataformas virtuais literárias.

A escrita já rendeu algumas premiações nacionais e participações em coletâneas. Os prêmios recebidos contemplam o 3º lugar no Concurso Literário Icozeiro (julho de 2014), o certificado de Qualidade Literária pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores (maio de 2015) e o reconhecimento pelo Conselho Editorial da Câmara Brasileira de Jovens Escritores do Rio de Janeira pela qualidade literária da obra selecionada para publicação nas edições de maio de 2015.

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Site: Jundiaí Online

Participação nas seguintes coletâneas: “Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos” Volume 124 e “Poemas descalços na noite serena” – ambos pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores.