Autoconhecimento

Como o homem sábio aprende?

homem sábio
Luis Lemos
Escrito por Luis Lemos
Gosto muito de uma frase atribuída ao filósofo grego Sócrates, mas para ser honesto, não sei se é dele, a frase é a seguinte: “O homem sábio aprende observando, enquanto o homem comum aprende caindo”. Entre tantas maneiras e formas de interpretar esse pensamento socrático, pode-se dizer que a observação, seja ela científica ou não, é uma fonte inesgotável de conhecimento, de aprendizagem e de sabedoria, e é isso o que faremos a seguir.

Em primeiro lugar, pela observação aprendemos que não somos autossuficientes. Precisamos uns dos outros para sobreviver. Enquanto ser inacabado, o ser humano é um ser curioso e parte da observação para conquistar aquilo que ainda não possui. Por exemplo, o processo de aprendizagem dos bebês no tocante a língua, a postura corporal, a cultura, a sociabilidade, etc., é fruto diretamente da observação. Assim, a observação proporciona ao ser humano experiências extraordinárias, verdadeiras ou falsas, a expandir-se.

Em segundo lugar, a observação proporciona ao ser humano distinguir o que é bom e louvável para si e para os outros. Agir em respeito ao valor da fidelidade conjugal, por exemplo, é uma norma moral que se aprende observando pessoas que praticam tal valor. Logo, a nossa trajetória no mundo é marcada pela experiência da própria observação e da observação dos atos dos outros, com os quais se convive.

Em terceiro lugar, a vida em sociedade, as relações que mantemos com as pessoas perto de nós, a opinião que temos desse ou daquele partido político, desse ou daquela religião, são marcadas pela observação. A observação funciona como um “filtro” que esculpe as nossas mentes, fazendo-nos, por exemplo, agir pelo que é coletivamente correto, fazendo-nos rejeitar o que é repulsivo no entendimento de todos.

Em quarto lugar, nenhuma observação é neutra, isto é, todo observador também é observado. Ou seja, na hora de observar certo comportamento de alguém, eu tenho que ter a consciência de que eu também sou observado por esse alguém. É uma relação de mão dupla: eu observo e também sou observado. Por isso, a observação construtiva é aquela que gera aprendizagem: eu aprendo observado o comportamento do outro e o outro aprende observando o meu comportamento.

Em quinto lugar, a observação leva-nos ao encontro da verdade. Não sem ônus, porque a verdade é um discurso que pode entristecer, enraivecer, ensejar vingança, terminar em prejuízo, mas ela é sempre a adequação do pensamento, da linguagem com a realidade em si, ou seja, com aquilo que não é falso. Dessa forma, somos obrigados a dizer a verdade pela certeza de que, se todos mentissem regularmente, estaríamos condenados a coexistir em um mundo inconfiável, onde toda a afirmação estaria sob suspeita e, portanto, sem valor.

Em sexto lugar, pela observação aprende-se que as palavra comovem, mas os exemplos arrastam”ou seja, aprendemos a sermos éticos, lições que nos são familiares desde criança. Aqui, lembro-me de meu pai, que, quando me flagrou pegando uma moeda do caixa do seu comércio sem lhe pedir, advertiu-me com veemência: “Meu filho, o que é do seu pai também é seu. Imagine se todos os seus irmãos – éramos 7 em casa – fizessem o que você acabou de fazer! Estaríamos falidos! E não é o que queremos para nós! Quando você quiser algum dinheiro, peça para o papai! Portanto nunca mais repita isso”.

Em sétimo lugar, a observação parece ser mesmo uma conexão curiosa entre o particular e o universal, entre o científico e o senso comum. O certo é que somos quase a totalidade daquilo que observamos. Ou seja, somente a observação nos permite subir em ombros de gigantes para vermos mais longe. Enfim, tudo o que sabemos ou o que ainda não sabemos parece advir da observação direta do mundo, da realidade, das coisas e de nós mesmos.


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Sobre o autor

Luis Lemos

Luis Lemos

Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA); Graduado em Filosofia pela Universidade Católica de Brasília (UCB); Bacharelado em Filosofia pelo Centro do Comportamento Humano (CENESCH).

Professor de Ciências Naturais na Secretaria Municipal de Educação de Manaus (SEMED/AM). Professor de Filosofia da Educação, Ética e Filosofia Jurídica na Faculdade Martha Falcão/Devry Brasil.

Tem experiência na área de Filosofia da Ciência, com ênfase em História da Filosofia, atuando principalmente com os temas: Educação, Ensino de Ciências, Epistemologia, Ética e Ética Profissional.

Autor dos livros: O primeiro olhar – A filosofia em contos amazônicos (2010); O segundo olhar – A filosofia em temas amazônicos (2012); O terceiro olhar – A filosofia em lendas amazônicas (2014); O homem religioso - A jornada do ser humano em busca de Deus (2016).