Comportamento Empoderamento Feminino

O seu auto ódio gera lucro

Mulher no escuro olhando o seu rosto em um espelho quebrado com pouca iluminação.
Alta Oosthuizen / 123RF
Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Sabe quando você olha para o espelho, encontra várias coisas na sua aparência e gostaria que elas fossem diferentes? A cor dos seus olhos, a cor dos cabelos, o formato do nariz, a grossura dos lábios, o formato dos olhos, a cor da pele, a textura dos cabelos, o tamanho dos seios, da barriga, das coxas…

É difícil encontrar uma pessoa que esteja plenamente satisfeita com o próprio corpo, que acredite que não tem qualquer imperfeição e que não precise alterá-lo de alguma forma. Se você acredita que não precisa alterar nada no seu corpo e que ele é perfeito assim, pense sobre algumas perguntas: você faz depilação? Aplica produtos para se livrar de acne? Removeu ou está removendo estrias ou celulites?

A forma como o auto-ódio é cultivado dentro de nós faz com que percamos a noção do que é próprio do nosso corpo e, às vezes, realizamos uma série de alterações para ter uma aparência “natural”. Por exemplo, usar inúmeros produtos para acabar com acnes, estrias, celulites, pelos etc. não lhe trará um visual natural, já que o natural seria apresentar todas essas características e assumi-las.

Essa suposta naturalidade no visual de uma pessoa é totalmente fabricada. As influenciadoras de beleza, por exemplo, aplicam preenchimento labial, cílios, fazem cirurgias de harmonização facial, aplicam lentes de contato até nos dentes, realizam tratamentos para remover estrias, pelos, gordura corporal e usam produtos para manter a pele sempre jovem. Mesmo que não usem maquiagem, que não façam exercícios físicos e que não tenham uma saúde equilibrada, ainda terão a aparência dentro dos padrões de beleza, como se isso fosse natural do corpo delas.

Imagem preto e branco de duas mulheres deitadas e olhando para cima com a maquiagem dos olhos escorrendo.
Fillipe Gomes / Pexels

E, muitas vezes, caímos no mesmo engano, de achar que as inúmeras alterações que fazemos em nós nos deixarão com um aspecto mais bonito mesmo quando não estivermos arrumadas. Por que investimos tanto tempo alterando a nossa própria aparência? Por que odiamos a imagem que vemos diante do espelho se ela é exatamente quem somos e a única forma de estarmos presentes no mundo? Como auto-ódio se instala dentro de nós? Entenda mais sobre isso a seguir!

Os padrões de beleza para as mulheres

Homens e mulheres sofrem com a imposição de padrões de beleza. Precisamos lembrar que existem homens que não são brancos, que têm deficiência física e que são gordos e que eles também sofrerão uma série de preconceitos por terem tais aparências. Os padrões de beleza, no entanto, atuam com mais intensidade sobre as mulheres e é sobre elas que falaremos a seguir.

Os padrões de beleza para as mulheres variam em muitas partes do mundo, mas existe algo em comum em todos esses ideais: mulheres devem ser perfeitas. E o que é ser uma mulher perfeita? Ela não pode ter deficiência física ou mental, não pode apresentar sinais de envelhecimento, não pode ser gorda (de acordo com a maioria das culturas), não pode ter uma pele não branca (dependendo do país onde vive) e precisa seguir os estereótipos da feminilidade (cabelo comprido, unhas pintadas, roupas delicadas, pele lisa, ausência de pelos, de estrias e de celulite, seios e glúteos que se destacam no corpo, evidenciando que são mulheres).

Mulher olhando o seu reflexo no espelho.
Jéssica Ticozzelli / Pexels

Pense sobre as mulheres que estão ao seu redor e perceba quantas delas se encaixam em todas essas características. Talvez, você mesma é capaz de identificar uma série de defeitos e falhas que a distanciam da beleza ideal, que fazem com que você não seja vista como uma mulher bonita pela sociedade. Por mais que nos esforcemos para seguir todos os padrões, algum sempre estará de fora.

A definição de padrões de beleza inalcançáveis acontece pela mídia cujas representações em filmes, em séries, em revistas e em propagandas conduzem a nossa forma de ver o mundo e de olhar não só para os nossos corpos, mas os de outras pessoas. Quantas vezes você assistiu a algum programa na televisão que apresentava uma mulher parecida com você ou com alguém que você conhece? O padrão de beleza existe no mundo real?

A indústria da beleza

Uma pesquisa realizada pela Sophia Mind, que analisa o mercado feminino, identificou, em 2016, que 56% das mulheres estão insatisfeitas com a própria aparência. E 95% das mulheres, incluindo aquelas que se dizem satisfeitas com o próprio corpo, gostariam de mudar alguma coisa em si mesma, sendo que 42% mudariam a barriga e 17% mudariam as mamas.

Para 56% das mulheres, que estão insatisfeitas com o próprio corpo, o motivo da insatisfação é o cabelo, em 37% dos casos, ou o fato de se considerarem acima do peso, em 61% dos casos. Essas duas características são as mais padronizadas pela mídia e as mais chamativas. As mulheres devem ser magras, ter os cabelos lisos, compridos e saudáveis, pois do contrário, não podem ser consideradas bonitas.

Outro dado relevante apontado pela pesquisa foi que 79% das mulheres usam produtos de beleza. Esses produtos têm como objetivo corrigir falhas e aproximar as mulheres de um ideal de beleza. Cremes para cabelos, hidratantes e maquiagens são os preferidos delas.

Mulher se olhando no espelho e passando maquiagem em um de seus olhos.
Andrea Piacquadio / Pexels

Como se os produtos para se embelezar não bastassem, ainda existem os tratamentos estéticos. Concluiu-se que a renda mensal investida em produtos de beleza chega a 80 reais por mulher, enquanto o investimento em tratamentos de beleza chega a 97 reais. Esses tratamentos vão desde ir ao cabeleireiro até realizar algum procedimento mais invasivo, como remoção de pelos, de estrias, entre outros.

As mulheres, principalmente as brasileiras, também investem em outro aspecto: cirurgias plásticas. De acordo com a Sociedade internacional de Cirurgia Plástica Estética, em 2018 foram realizadas 1.498.327 cirurgias estéticas, representando a maior quantidade de procedimentos desse tipo em todo o mundo. Os outros países que lideraram o ranking e que estão subsequentes ao Brasil foram os Estados Unidos, a Alemanha e a Itália.

A insatisfação feminina gera lucro

Produtos de beleza, procedimentos estéticos e cirurgias representam um grande investimento na vida de muitas mulheres que buscam se aproximar dos padrões de beleza. Isso, inclusive, caracteriza-se como uma importante fonte de renda para a indústria da beleza.

Pense no que aconteceria se todas as mulheres do mundo decidissem não mais usarem maquiagem, que não vão realizar procedimentos estéticos e que não querem alterar nenhuma parte de seus corpos! E se as mulheres acordassem, fossem até o espelho e se apaixonassem por aquilo que veem? O que aconteceria com as empresas de cosméticos, com os centros de depilação, de emagrecimento e com profissionais que realizam cirurgias plásticas?

Mulher se olhando no espelho e sorrindo com o rosto apoiado nas mãos, demonstrando felicidade.
Andrea Piacquadio / Pexels

Essa hipótese parece tão irreal que é até difícil imaginar o tamanho do colapso que causaria se o ódio que as mulheres sentem pelo próprio corpo se transformasse em amor. É difícil imaginar, principalmente, porque o capitalismo e o patriarcado, que são os que definem os padrões de beleza, caminham de mãos dadas.

Pense assim: o capitalismo produz os cremes, as maquiagens, os procedimentos estéticos e as cirurgias plásticas. Para que tudo isso seja consumido, porém, as mulheres precisam acreditar que seus corpos não são perfeitos, que precisam de ajustes. Então, o patriarcado conduzirá os olhares das mulheres a partir de propagandas, de filmes e de séries que apresentem mulheres com as mesmas características e que não condizem com a realidade da população.

O patriarcado cria o problema e o capitalismo aparece com a solução fantástica para o tormento de todas as mulheres. Ironicamente, é como se as propagandas dos produtos voltados ao público feminino dissessem: “Se você não está se sentindo bem com a sua aparência, compre um produto que a deixará mais bonita! Se você não gosta do seu corpo, faça uma cirurgia e arrume o que não condiz com a sua vontade! Se você quer um aspecto natural na sua aparência, realize todos esses procedimentos estéticos e perceba como você se sentirá melhor!”

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Para a perpetuação da exploração das mulheres e para a contínua obtenção de lucro do capitalismo, não é interessante que os corpos femininos sejam entendidos como múltiplos, como lindos e como únicos de suas próprias maneiras. Observe um exemplo simples: alguma vez você assistiu a uma propaganda que questionou o motivo de você precisar se depilar e os homens que você conhece não terem que fazer isso?

Por mais que os produtos de beleza e as cirurgias pareçam seus aliados no projeto de se sentir bem com o seu corpo, acredite: eles só querem tirar o seu dinheiro! Na verdade, eles querem que você se odeie cada vez mais, para investir ainda mais dinheiro na indústria da beleza e nunca ficar satisfeita com os resultados que obtém.

Se você quer ser bonita, o que você deve fazer é questionar por que você odeia alguma parte do seu corpo. De onde vem o ódio que você está cultivando por você? Por que o seu corpo não é bonito? Por que a sua forma de existir não é linda? Reflita sobre essas questões e fale sobre isso com as mulheres que você conhece, para que elas pensem sobre isso também. Aos poucos, vocês perceberão que é muito mais simples e mais prazeroso aceitar e amar os seus corpos, em vez de trabalhar a vida inteira para alterá-los!

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