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Pensar positivo nem sempre é bom

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Escrito por Jaciane Mascarenhas
Sabe aquela música de Vinícius de Moraes É melhor ser alegre que ser triste. Alegria é a melhor coisa que existe. Mas para fazer samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza. Senão não faz samba, não”? Pois é, eis aí uma grande sabedoria para a vida. Sem dúvida é melhor ser alegre do que ser triste, e é sim melhor ter um mindset positivo, do que negativo, mas não se engane, nem sempre o pensamento positivo ou o otimismo fará bem para você no médio e longo prazo, às vezes também é preciso um bocado de tristeza para ver a beleza da vida.

Sempre que enfrentamos alguma dificuldade ou passamos por alguma perda, frustração, tristeza é comum ouvirmos de nossos amigos e familiares “Pense positivo! Tudo vai melhorar!” ou ainda “Deixe de pensamento negativo que atrai coisas ruins!” ou ainda quem sabe o último “meme” da internet “Levanta a cabeça princesa! Senão a coroa cai!” Com certeza cultivar uma postura mental positiva diante de dificuldades pode fazer toda a diferença entre superar a crise ou não. Sabemos que pessoas com fé se recuperam muito mais rápido de doenças graves e muitas conseguem alcançar verdadeiros milagres cultivando a crença de que tudo dará certo. A fé realmente remove montanhas e faz com que suportemos melhor os momentos em que tudo parece dar errado em nossas vidas.  Mas às vezes a vida requer de nós uma postura diferente. Requer que nós aprendamos com o sofrimento.

Sejamos sinceros, quantos de nós diante de uma dificuldade, perda, problema ou uma crise adota uma postura de refletir seriamente sobre a situação e se pergunta: o que a vida requer de mim com esta situação? Qual oportunidade está diante de mim neste momento? No que eu preciso evoluir? O que preciso aprender para passar para o próximo nível?

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Embora esta seja, na maior parte das vezes, a melhor forma de encarar uma crise, imagino que a maioria de nós, prefira acreditar que é melhor pensar positivo, pois com fé tudo vai dar certo. Não é errado pensar assim, mas às vezes estamos na verdade ignorando uma série de sinais de que algo em nós, em nossa vida, em nosso trabalho ou nos nossos relacionamentos não está indo bem. E apesar dos sinais, nos mantemos alienados do real problema, alimentando uma crença de que é melhor pensar positivo, e assim deixamos de nos aprofundar nas reais causas do nosso sofrimento e consequentemente perdemos uma grande oportunidade de aprender.

Quando isso acontece, pensar positivo pode sim surtir um efeito negativo, pois cria um ciclo de autoengano e impede que a pessoa aprenda com a dificuldade e o sofrimento, impede que ela se torne consciente das mudanças que precisa empreender em sua vida, o que pode no médio e longo prazo ter conseqüências drásticas. Lembre-se, por exemplo, do último relacionamento que você teve. Imagino que quando terminou você tenha sofrido horrores; seus amigos devem ter tentado te consolar dizendo para você se animar, quem sabe mudar o visual e sair por aí para conhecer novas pessoas; bem como diz a música “esquece ele e fica louca” afinal não compensa ficar em casa chorando. Não compensa mesmo, mas não é o fato de você mudar o visual, sair por aí e quem sabe se envolver com outra pessoa que vai resolver o seu problema.  É muito provável que seu novo relacionamento caminhe da mesma forma que o anterior, pois você não fez o processo de autorreflexão para identificar as razões pelas quais não deu certo. Você não compreendeu o que precisa ser mudado em você, e tampouco tomou a firme decisão de rever sua maneira de agir. Assim, seu novo relacionamento poderá, à semelhança do anterior, dar errado de novo, porque você continua sendo o mesmo, você não aprendeu com a perda, e, por medo de sofrer ainda mais, você não tocou suas feridas para curá-las de verdade. Você não fez uma autoanálise sincera para identificar onde e porque dói. Talvez você tenha se limitado a pôr a culpa no outro.

Outro aspecto negativo do pensamento positivo (por mais paradoxal que possa parecer) é que cultivar um mindset positivo às vezes pode fazer com que você ignore a realidade da vida e também viva alienado do presente, pois ao ficar sempre idealizando uma vida melhor, um trabalho melhor, um relacionamento melhor, um carro melhor, você nunca vive no agora e deixa de perceber as potencialidades e possibilidades do momento atual. Na verdade você passa a viver na ilusão de um futuro melhor, sem que isso signifique adotar medidas e hábitos para de fato criá-lo. Afinal, só é possível mudar hoje. O ontem já foi e o amanhã não existe.

Imagino que agora você deva estar se perguntando: mas se as coisas estão ruins, o que eu devo fazer então? Me entregar e ficar triste? É errado acreditar/desejar um futuro melhor?

Há muitas respostas para estas perguntas, mas gosto muito da visão budista que diz que a natureza da vida é sofrimento, que tudo é impermamente e muda o tempo inteiro. Isso pode soar pessimista e negativo, mas não é. Nosso problema é estar sempre em “busca de algo” fora de nós, algo que sempre muda, algo que se comporta como uma miragem, sempre desaparece à medida que nos aproximamos. Pensamos que seremos felizes se tivermos outro emprego, outro carro ou outro relacionamento, e quando conseguimos, ainda experimentamos aquele vazio que não sabemos explicar por que continua lá. Nos habituamos a viver sempre ansiosos com o futuro e lamentosos do passado, e sempre que nosso presente se mostra diferente do que idealizamos, tendemos a fugir  dele, criamos um mundo à parte, onde ninguém nos toque, onde as pessoas e as circunstâncias se adaptem à nossa maneira de ser, onde ‘tudo dê certo” para nós. E aí é quando o pensar positivo pode “embotar” a sua vida e te deixar alienado de todas as mudanças que você precisar por em prática para ser realmente feliz.  pensamento positivo

Não é necessariamente ruim passar por crises, perdas, problemas ou dificuldades. Estes estados não são coisas que devemos evitar a qualquer preço, até porque só com um profundo conhecimento de si mesmo é possível viver feliz e em paz independentemente de condições externas. O processo de conhecer a si mesmo inclusive começa quando você decidir viver no presente e parar de querer mudar a realidade a todo custo, parar de busca esse “algo mais” fora de você. Ao invés disso, tente, como nos diz Vinícius, tirar a beleza da tristeza, afinal “não se faz uma limonada sem espremer os limões”. Olhe para suas crises, dificuldades e problemas com outros olhos, tente ver com os olhos do Ser interior. Tente compreender que toda vez que sofremos, a vida está nos dando uma preciosa oportunidade de aprendizado, é como lindamente escreve o monge budista Haemin Sumim  no livro “As coisas que você vê só quando desacelera”: “Algo o decepcionou? Algo deixou você triste? É a escola da vida tentando lhe ensinar uma importante lição. Quando estiver pronto, dedique um tempo a aprendê-la.”

Seja qual for a sua situação atual saiba que é sempre melhor estar consciente de seu momento presente do que se iludir com o pensamento ou a crença de um futuro melhor. É sempre melhor encarar a vida de frente e tentar entender o propósito do sofrimento, tentar tirar dele a preciosa lição de sabedoria que levará você para frente e para o alto, que fará você ser uma pessoa melhor. Desapegue, aceite o fato de que nada dura para sempre e que tudo está o tempo todo mudando. Seja otimista sim, pense positivo sim, mas não se engane. Acredite no melhor, mas abrace todas as suas crises, se permita aprender com elas, não amaldiçoe nenhum dia em que você sofreu, tenha certeza de que foi a vida lhe dando uma grande oportunidade de se tornar alguém melhor. Se puder, agradeça.

 

 

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Sobre o autor

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Jaciane Mascarenhas

Advogada, Escritora e Coach de vida e espiritualidade. Seu propósito e missão de vida é ajudar as pessoas a despertar para os potenciais mais elevados e altruísticos que possuam. Acredita que o autoconhecimento e a espiritualidade, com ou sem religião, podem ajudar o ser humano a promover uma cultura de paz, harmonia e compaixão no mundo. Meditadora e buscadora espiritual há mais de 10 anos, pensou não poder conciliar sua profissão de advogada com a missão de ajudar as pessoas a viver mais feliz e em paz consigo, mas num profundo processo de autoconhecimento, descobriu uma nova maneira de ser, ressignificou sua trajetória e hoje vive com um propósito maior de servir o próximo com todas as suas potencialidades e dons.

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