Autoconhecimento

As rosas ou as rugas que falam

Lilian Custodio
Escrito por Lilian Custodio


Com 7 anos, me ensinaram a gostar de mim, exatamente do jeito que eu sou.

Era uma tarde quente, me sentei no chão do alpendre da casa da minha avó e comecei a chorar. Logo ouvi uns passos vindo em minha direção e, quando olhei para o chão, vi os pés da minha avó calçados em um chinelo velho e confortável e ouvi a sua voz doce a me perguntar, exatamente assim: “Qual o motivo desse chorinho?”.

– Vovó, eu queria ser loira!

Meus cabelos, quando criança, tinham tanta melanina, que eram da cor de uma berinjela, chegavam a ser roxos de tão negros. Por ter uma pele muito clara, olhos verdes e expressivos e lábios vermelhos, algumas vezes fui chamada para ser a Branca de Neve no teatro da escola. Eu não queria ser a Branca de Neve, mas, sim, a Cinderela.

Menina deitada na areia de uma praia com cabelos escuros, bula azul e calça jeans;

Vovó, sabiamente me levantou e me tomou pelas mãos, me levou até o seu canteiro de rosas, ela adorava cultivar rosas e tinha essas flores de todos os tamanhos e cores.

Enquanto retirava alguns ramos secos, ela me perguntou que flores eram aquelas.

Eu enxugava as lágrimas salgadas com a ponta da língua e puxava uma delas para perto do nariz para sentir o perfume, mas era em vão, porque o nariz estava entupido.

Neste momento, vovó me ensinou algo que jamais esqueci, uma linda aula de autoestima no meio do seu canteiro de rosas…

Avó e netas em um canteiro de rosas.

“Minha querida, todas essas flores são rosas, elas são diferentes, porque têm tamanhos e cores diferentes, porém cada uma é única. Todas são perfumadas, todas belas, todas encantam (apesar dos espinhos). Tem gente que adora as amarelas, outras preferem as rosas claras, têm as rosas escuras, ainda as brancas e muitos adoram as vermelhas. Cada uma dessas rosas tem o seu encanto.”

“Minha querida, todas essas flores são rosas, elas são diferentes, porque têm tamanhos e cores diferentes, porém cada uma é única.
Apesar da prematura idade, eu havia entendido a lição da vovó. Cada menina tem a sua beleza.

Mas ela foi além… Me ensinou algo que eu levaria algumas décadas para constatar.

“Lilia (ela me chamava assim), olhe àquelas rosas ali do canto, elas ficam embaixo do sol, veja como são vistosas (e era mesmo, chegavam a cintilar). Apesar desse calor todo, elas se mantêm bonitas por mais tempo, quanto mais escura a rosa, mais resistente a ação do tempo.”

Quanta sabedoria tinha aquela mulher que havia aprendido a ler e escrever praticamente sozinha.

Vovó não apenas me ensinou a gostar de mim exatamente como eu era e sou, mas também me repassou a fórmula de como replicar o ensinamento com as minhas insatisfeitas pacientes no consultório.

Mulher sentada em sofá entrega rosas a outra mulher mais velha.

“Cada uma de nós é única, não existe outra de você no mundo inteiro, diria até no universo. Apenas por esse pequeno detalhe já te torna especial.”, vovó disse pausadamente.

Ok, se você não gosta muito do seu nariz, mas os seus olhos são tão expressivos, ou então: se o seu cabelo não colabora, tudo bem, ainda tem o seu sorriso…

Gente, é isso que importa: a beleza que vem de dentro! Sim, é ela que determina se você é um ser humano belo ou não. O restante é somente rótulo.

Aceitação, diria que esse é o passaporte da felicidade.

Quando a gente aceita as imperfeições, a situação e os efeitos do tempo como sendo algo natural, a probabilidade de sermos felizes aumenta consideravelmente.

Mulher d emeia idade cheira uma grande rosa marela.

Hoje, com 40 e poucos anos, me sinto plena e feliz. E tenho rugas de estimação.

Faço questão de me olhar no espelho e reconhecê-las como parte da minha vivência e maturidade. Tenho duas linhas horizontais pequenas na testa do lado esquerdo, que aparecem quando estou preocupada.

Reflita sobre envelhecer com lindas mensagens sobre conservar a juventude em seu coração.

Tenho uma outra na vertical na base da sobrancelha, que surge quando estou brava, agora as mais salientes são aquelas que estão no canto externo dos olhos, que surgem todas as vezes que eu sorrio. Para essas não aparecerem, eu precisaria não sorrir, dá para ser assim?

Não, não dá!

A gente passa um creminho para dar aquela hidratada, mas ficar sem sorrir não dá, nem ficar sem expressão de nada, como se estivesse congelada no tempo. Eu prefiro as rugas e aquilo que elas contam sobre mim.

Mulher cheira buque de rosas.

Já os meus cabelos cor de berinjela, depois de vários anos eu resolvi descolorir. Até gostei no início, mas vovó tinha total razão no quesito fragilidade, os fios ficaram finos, ressecados e quebradiços.

Então, as madeixas voltaram a ser negras, salvo com algumas sutis mechas. Mas os fios brancos começaram a surgir e já estou me preparando para deixá-los prateados em um corte impecável, um Chanel moderno e chique daqui alguns anos.

Eu penso na melhor idade, não na velhice. Isso faz uma grande diferença!

Penso como algo natural. Penso que nada posso fazer de fato contra o tempo. Como não gostaria de morrer jovem, serei velha daqui algumas décadas, mas posso escolher que tipo de velha serei, com certeza, escolho ser: elegante, agradável, prestativa e feliz.

Conheço velhinhas lindas, a minha avó foi uma delas e, quando eu crescer, o meu sonho é me tornar umas dessas lindas mulheres, que irradiam luz e exalam cheiro de rosas por onde passam com os seus vagarosos passos.

Garotinha segura rosas, ela está com vestido vermelho e com um chapéu bege.

Já no quesito saúde, continuo agradecendo a Deus e pedindo, se possível, que me mantenha saudável, porque a minha parte eu tenho feito, cuido com zelo e sem neuras do corpo que Ele me deu.

Às vezes, eu olho para as minhas mãos e ainda sou capaz de ver aquela pequena mãozinha de criança, daí eu penso: “Nossa, quantas coisas já realizamos juntas!”. E fico a imaginar quando elas estiverem frágeis e bem enrugadinhas, quantas coisas ainda estarão por vir. Muito provavelmente estarei a escrever, ou melhor: a digitar casos ou contos para vocês!

Esses são uns dos meus planos para quando eu crescer. E quais são os planos de vocês?


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Sobre o autor

Lilian Custodio

Lilian Custodio

Sou, Lilian Custodio.
Nutricionista, Acupunturista, Mãe, Educadora Alimentar Infantil, Escritora e Fada. Exatamente nessa ordem...
Sim.. é isso mesmo - Fada Lilly.
É assim, que eu consigo convencer a futura geração sobre a importância em se alimentar de forma mais equilibrada e saudável, preservando assim a saúde deles.
Simplesmente, essa é a missão que papai do céu me confiou.
Me formou primeiro Nutricionista para que eu pudesse me abastecer do conteúdo cientifico e técnico da Nutrição.
Depois me formatou na Medicina Milenar Chinesa para que eu soubesse utilizar a primeira ciência aprendida com sabedoria e equilíbrio.
Na sequencia me deu dois filhos, para aplicar e aprimorar a teoria na pratica.
E ainda, como Educadora Alimentar para que eu pudesse repassar tudo isso no coletivo
A Escritora surgiu com a finalidade de ampliar ainda mais esses ensinamentos, e auxiliar mães e professores a também se inspirarem, para me ajudar nessa missão.
E por fim, a Fada Lilly para tornar tudo isso mais leve e encantador.
Essa sou eu!

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