Convivendo

Autópsia dos desiludidos

Thiane Avila
Escrito por Thiane Avila
Desiludidos, mas fotografados. Sentenciados e competentemente julgados pelo juízo dos desalmados. Os dissabores que ressoam na sala de espera da consulta, interpelando os cortejos com o véu da sanidade que nunca se teve. Porém enquanto esperam, eles trocam os louvores dos amores descriados. Ouve-se, ao longe, os esbravejos dos corações partidos, hoje moradores das praças e dos bares, descobertos e bêbados pelas alforras dos passantes.

São contadores de histórias os amantes. Violentos e barulhentos pelas tumbas cheias, viscerais. Que grandes estômagos têm para levar as audácias das rejeições combinadas aos olhares pérfidos das moças que regozijam novas danças acima dos seus versos estúpidos e algozes ao som do violão. Todos têm trilha sonora e, infelizmente, o dom de estragar as melhores músicas com as suas retóricas.

Da janela onde esperam pelo resultado de sua autópsia, eles gozam pela tristeza inspiradora. São gentes de olhos que brilham, apesar da merda toda. Juízes displicentes e sem estudo sobre as coisas do coração. Até se passam por entendedores das enciclopédias dos sofridos, mas tudo isso é só por fazerem parte da periferia dos sonetos, de onde recolhem os versículos prescritos nos esbravejos que estruturam cada ilusão.

Ouço os desiludidos da janela do meu quarto, como que em procissão religiosa pelas desventuras postas em suas artilharias. Desfecham os ventres dos sentimentos com a mesma velocidade com que abrem. Pobres coitados a carregar, nos tanques pesados, as quinquilharias das memórias emancipadas pela sua inocência pela vida. São extorquidos pela delinquência ao sistema, levando de cada viagem quilos e quilos de memórias que só servem para abastecer os seus versos.

Dos desamores, o poeta ainda leva a poesia
Finalmente, descobriram, pela autópsia, que o engasgo são apenas linhas tortas. No fim, não escrevem para ninguém, ainda que toquem as sutilezas de alguma sensibilidade que, por acidente, passa os olhos por seus rascunhos. Desiludidos, por fim, estão os corpos que pensam dançar sobre os destroços dos corações que se partem e logo se unem. A autópsia dos desiludidos, então, não passa de um intervalo entre a queda e a próxima metonímia, aquela que substitui um nome pela beleza que, em um dia, se pensou ter sido encontrada na demora nos olhos de alguma menina.


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Sobre o autor

Thiane Avila

Thiane Avila

Com experiência na área da educação, Thiane já ministrou aulas particulares de Língua Inglesa e Portuguesa, bem como atuou em escolas de idiomas. Estudante de relações públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, também cursa teatro e é colunista de uma Revista em sua cidade natal, Gravataí, além de colaborar com outras plataformas virtuais literárias.

A escrita já rendeu algumas premiações nacionais e participações em coletâneas. Os prêmios recebidos contemplam o 3º lugar no Concurso Literário Icozeiro (julho de 2014), o certificado de Qualidade Literária pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores (maio de 2015) e o reconhecimento pelo Conselho Editorial da Câmara Brasileira de Jovens Escritores do Rio de Janeira pela qualidade literária da obra selecionada para publicação nas edições de maio de 2015.

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Participação nas seguintes coletâneas: “Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos” Volume 124 e “Poemas descalços na noite serena” – ambos pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores.