Autoconhecimento

Como a filosofia explica o suicídio

suicídio
Luis Lemos
Escrito por Luis Lemos
“O homem sábio pergunta, o ignorante responde” é uma das epígrafes mais citadas por estudantes de filosofia em todo o mundo. Ou seja, a filosofia se inicia com as perguntas e não com as respostas.

Seguindo essa mesma tradição, perguntamos: O que é o suicídio? Que motivos levam uma pessoa a tirar a própria vida? O suicídio é um ato de covardia ou coragem? É preciso coragem para tirar a própria vida? Como a filosofia explica o suicídio?

Parece um paradoxo, mas falar de suicídio é falar de vida. Sim, de vida real, vida concreta. Da minha vida e da sua vida. Da vida das pessoas que amamos, dos nossos familiares, amigos, conhecidos, dos que nos rodeiam.

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O suicídio é um lobo que nos cerca, prestes a nos devorar. É preciso ser forte mentalmente, psicologicamente e emocionalmente contra ele. No entanto, o suicídio não é uma batalha que se vence só. É preciso receber ajuda de muita gente. É preciso, enfim, querer viver e gostar de viver para superar a tentação de querer tirar a própria vida

 

Biologicamente falando, é natural nos organismos vivos o impulso pela vida, o desejo de viver. O suicídio é o avesso desse princípio. Logo, atestar a causa morte de alguém é sempre muito difícil. Ninguém aceita a realidade da morte. E quando se trata da morte por suicídio, a dor é ainda maior.

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que o suicídio representa 1,4% de todas as mortes no mundo, tendo se tornado em 2012 a 15ª maior causa de mortalidade na população mundial; e, entre os jovens de 15 a 29 anos, é segunda principal causa de morte.

Esses são números alarmantes. Estatísticas atestam a urgência de uma ampla discussão sobre o tema. Ou seja, é chegada a hora de falarmos abertamente sobre o suicídio em escolas, igrejas e nas próprias famílias.

Muitos são os motivos que podem levam uma pessoa atentar contra a própria vida: depressão, transtornos mentais como a esquizofrenia, sofrimento familiar severo, abuso sexual, maus tratos, bullying, o consumo excessivo drogas licitas e ilícitas, como a maconha, o álcool, etc

 

Campanhas como “Setembro Amarelo” ajudam na prevenção ao suicídio. No entanto, mais do que falar dos motivos que levam uma pessoa a atentar contra a própria vida, deve-se falar, em sentido estrito, da beleza da existência, da liberdade, da autonomia.

A sociedade contemporânea é sabidamente caracterizada pela “era liquida das incertezas”, para citar o sociólogo polonês Zigmunt Bauman (1925-2017). Tal metafísica está na base de uma nova expressão cultural: crise de sentido. O que eu estou fazendo no mundo? Qual o sentido da minha vida? Vale a pena viver num mundo tão violento e trágico?

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Saltam aos olhos as crises que o homem contemporâneo vive. São crises de todos os tipos. Crises econômicas, ambientais, morais. Crises de valores, crises de afetos, crises de ralações sinceras, crises existenciais…, formando um todo complexo e de difícil compreensão. O mosaico se fecha com o aparecimento de novas patologias, sejam elas físicas ou psicológicas.

Paradoxalmente, causas “absolutas” provocam desconfianças no homem. Ou seja, o relativismo está na moda e “o homem contemporâneo pode ser aquilo que ele quiser”. Com efeito, para a filosofia, ser livre significa tomar consciência do não poder sobre as coisas que nos circundam.

Ou seja, definir o homem, segundo a tradição clássica, como animal racional, significa não capitar a autêntica dimensão existencial do homem.

Portanto, o homem deve, como característica de ser pensante que é, encontrar o sentido da vida em relação aos outros no mundo.

Considerando, porém, sob o aspecto positivo, ou seja, na sua identidade social, o homem não encontra a sua mais profunda essência vivendo sozinho. Ou seja, o ser humano sempre precisou e sempre precisará do outro para sobreviver e ser feliz.

Se somos seres racionais, inteligentes, afetivos e amorosos, onde encontramos “coragem” para cometer um ato tão insano e solitário de tirar a própria vida? Não é a razão que nos distingue dos outros animais?

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Que outra experiência temos nós, seres humanos, para avaliar se a vida é boa ou ruim se ainda não temos consciência do que não conhecemos? Somente percorrendo até o fim o caminho da vida, cumprindo o ciclo natural, é que teremos alguma coisa razoável para dizer, assim como o poeta,

“A vida é uma merda, mas vale a pena ser vivida”.


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Sobre o autor

Luis Lemos

Luis Lemos

Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA); Graduado em Filosofia pela Universidade Católica de Brasília (UCB); Bacharelado em Filosofia pelo Centro do Comportamento Humano (CENESCH).

Professor de Ciências Naturais na Secretaria Municipal de Educação de Manaus (SEMED/AM). Professor de Filosofia da Educação, Ética e Filosofia Jurídica na Faculdade Martha Falcão/Devry Brasil.

Tem experiência na área de Filosofia da Ciência, com ênfase em História da Filosofia, atuando principalmente com os temas: Educação, Ensino de Ciências, Epistemologia, Ética e Ética Profissional.

Autor dos livros: O primeiro olhar – A filosofia em contos amazônicos (2010); O segundo olhar – A filosofia em temas amazônicos (2012); O terceiro olhar – A filosofia em lendas amazônicas (2014); O homem religioso - A jornada do ser humano em busca de Deus (2016).