Convivendo

O que você está sentindo agora?

Zil Camargo
Escrito por Zil Camargo
Uma das coisas que aprendi ao longo da vida é que primeiro pensamos e depois sentimos. Por mais estranho que isso possa parecer, nossos sentimentos são potencializados pelo grau de concentração que depositamos neles.

Quer um exemplo? Quando sentimos saudades de alguém é porque nos lembramos de alguma situação, gesto ou gosto dessa pessoa. E ao sentir a saudade passamos a pensar ainda mais em momentos compartilhados, fazendo a sensação aumentar.

Quando nos lembramos de algo engraçado, temos desejos de rir novamente daquele fato, e quanto mais pensarmos nele, mais vontade de rir sentiremos. É simples assim. Não é à toa que quando estamos angustiados ou ansiosos buscamos distrações, queremos espairecer, pois sabemos que se nosso pensamento ganhar outro foco, nosso sentimento amenizará.

Quando se trata de sentimentos bons, leves e divertidos não lutamos contra eles. Nossa natureza os absorve e não perdemos tempo em refletir sobre eles. São os sentimentos cinzas que incomodam e que nos fazem reagir. Eu já escrevi diversas vezes sobre o poder de nosso pensamento ou se preferir, o poder que temos sobre nossas próprias emoções. Não para que as controlemos, mas para administrá-las. E, acredite, é um poder imenso.

Na teoria, porém, tudo é lindo, tudo é maravilhoso. Na prática, há de se ter muita maturidade e muito senso prático para aplicar esse controle. Convenhamos que levamos muitos anos da vida e muitos tropeços até conseguir conduzir a nossa trajetória assim.

Talvez o primeiro passo seja reconhecer nossos sentimentos, nomeá-los e, dessa forma, ter o domínio sobre eles. Em muitos momentos sentimos um “sei lá o que” que aperta o peito e turva as coisas, uma nuvem negra atrapalhando tudo e ao prestar a atenção nessa sensação e, evidentemente, querer se livrar dela, vamos potencializando um mal-estar. Nomear nossos sentimentos nos ajuda a compreendê-los e, assim, lidar com eles. Entender a base e a origem traz a sensação para o racional e esclarece, tornando possível resolver a questão. Para isso, porém, é necessário uma pausa breve e profunda de lucidez.

É como uma situação que acontece no mar. Quem já esteve nele sabe que, para os menos aventureiros, como eu, a água no umbigo é sinal de perigo, como dizia a minha avó. Quando menos se espera, uma onda maior vem em nossa direção e ao vê-la crescente e ameaçadora, temos que tomar uma decisão. Sabemos que tentar enfrentar a arrebentação não é uma opção, já que provavelmente ela vai nos derrubar, e pular a onda já se tornou fisicamente impossível.

Geralmente, é nesse momento que mergulhamos por baixo dela, numa tentativa instintiva de proteção. Esses poucos segundos em que estamos esperando que ela passe por cima de nós e nos deixe a salvo são libertadores. Notem que momento de lucidez se tem aí.

Só ouvimos o barulho do mar, que nos permite calcular exatamente o tempo necessário para levantar enquanto ficamos com a respiração presa. E aquele momento imediatamente anterior que trouxe medo e insegurança de a onda nos derrubar, não existe mais. Invariavelmente, levantamos sorrindo. Conseguimos isso porque sabemos o que nos assusta: chama-se onda. Mergulhamos e, ao mergulhar, sabemos o que fazer.

Assim, eu penso, deve ser nossa relação com os sentimentos que não compreendemos. Eles nos assustam e angustiam e, por isso, devemos mergulhar neles. É importante saber o que estamos sentindo: medo, frustração, ciúme, saudade. Nomear a sensação no nosso mar particular num segundo de lucidez que nos permitirá saber seu nome, compreender, saber o que fazer e, principalmente, que podemos levantar e invariavelmente, sorrir.

Sobre o autor

Zil Camargo

Zil Camargo

Na diversidade de cada ser, é injusto com a vida, neste mar de experiência que ela concede, tentar nos definir assim, com meras palavras.

Mas dentro de mim mora alguém inspirada, sensível, às vezes curta ou grossa, ora dramática, ora objetiva.

Mãe, artesã, escritora amadora; consultora para ganhar a vida e interessada no comportamento humano.

Estudiosa de assuntos relacionados à psicanálise, filosofia e espiritualidade; uma aprendiz procurando desenvolver oportunidades em busca do bem viver.

Contato: [email protected]