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O que você pensa sobre adoção?

Homem e mulher sentados em sofá. Entre eles, uma menina está sentada. A mulher tem sua mão direita no rosto da menina e elas se olham. O homem observa as duas. Todos sorriem.
123rf/Viacheslav Iakobchuk
Juliana Meyer Luzio
Escrito por Juliana Meyer Luzio

Em algum momento todos nós já ouvimos falar sobre adoção e/ou pensamos algo a esse respeito. E palavras como frustração, rejeição, medo, fragilidade, preconceito são apenas algumas das que permeiam esse tema e a vida de pessoas que adotaram, querem adotar e/ou foram adotadas.

Na experiência que vivemos com a adoção de nosso filho escutamos frases que nos intrigavam, assustavam e nos fizeram ter vontade de falar mais sobre elas para entendermos o que de fato estava sendo dito e desconstruirmos pré-conceitos sobre uma família construída pela adoção. Compartilho aqui três delas, para que possamos pensar e quem sabe rever alguns de nossos pré-conceitos.

“Nossa, como vocês são bons, é muito bonito esse gesto” ou “Nossa, eu já pensei em adotar uma criança, tem tantas por aí precisando de ajuda né?!”

Homem e mulher com duas crianças de tamanhos e etnias diferentes, cada um com um menino no colo.
123rf/rido

Por que será que adotar é visto como um gesto de caridade e de fazer o bem? Você se reconhece pensando assim? Por quê?

Ao ser adotada por caridade, a criança/adolescente, mesmo que não tenha conhecimento disso, carregará provavelmente para sempre o peso de um laço cuja tessitura se deu não pela via do encontro, da construção, do desejo e do amor. Mas pela via da dívida e de sempre ter que ser grato, cuja obrigação é de ser uma pessoa boa, que ama aqueles que o adotaram, afinal eles salvaram sua vida.

Um(a) filho(a) desejado(a) terá um olhar, um lugar e uma experiência familiar muito diferente daquele cuja premissa foi o de receber acolhimento, comida, roupa lavada e cuidados básicos necessários advindos de um ato caridoso. A decisão de construir e/ou ampliar sua família através da adoção deveria estar diretamente conectada ao desejo de vivenciar a maternidade/paternidade e entre o desejo e a caridade há um longo percurso.

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Adotar é fazer o bem pra quem? Será que pra quem foi adotado ou para quem adotou? Será que quando se decide pela adoção os primeiros pensamentos não estão cem por cento voltados para as motivações pessoais que levaram a essa decisão e, portanto, egoisticamente voltado para suas próprias emoções, necessidades e desejos?

Falo egoisticamente no bom sentido, porque, sim, trata-se de uma escolha pra realizar o sonho de ser mãe e pai. E neste momento de optarmos pela adoção na maioria dos casos falamos em frustrações, dores e lutos por uma gravidez que não ocorreu e aí estarão nossos pensamentos e sentimentos, não no fazer o bem para uma criança.

Adoção deve, sim, fazer bem, mas a ambas as partes, e isso será resultado de uma convivência, de uma relação construída diariamente com a disponibilidade de ser mãe, pai e filho(a).

“Vocês não têm medo? Vão levar pra casa uma pessoa que não conhecem, não sabem do passado e se os pais dela forem criminosos, drogados? Ela pode herdar essa genética”

Talvez pela frequência com que é dita e talvez por todos os exemplos que vemos nos noticiários de filhos biológicos que matam os pais, o avós. De tantos pais que matam seus filhos, essa frase sempre nos surpreende, afinal laço sanguíneo nunca foi garantia de amor, de respeito, de boa educação e nunca será.

Vínculos construídos no dia-a-dia com essas bases poderão (ainda assim não há garantias) nos oferecer relações mais saudáveis em que frustrações, raivas, medos e mágoas tenham espaços de diálogos e não precisem chegar a extremos trágicos como mortes, drogadições, entre outros.

Duas mulheres de pé, com uma menina entre elas. Elas estão em um pier, de costas para a câmera, observando o mar. As duas mulheres abraçam a menina.
123rf/Fabio Formaggio

O importante é como essa criança/adolescente será recebido(a), que lugar ocupará na família, que expectativas recairão sobre ela e qual nossa disponibilidade para com ela, seus medos e traumas. Bem como com nossas frustrações, medos e traumas pois penso que o que está por trás dessas perguntas, o que de fato está sendo dito é de um medo de não ser capaz de amar o que é diferente, estranho, uma vez que trazemos uma ideia de filho como imagem e semelhança.

Diante dessa colagem enraizada em nossa cultura de filho como imagem e semelhança torna-se coerente perguntar como você vai amar um filho diferente. A questão é que somos diferentes, sendo geneticamente familiar ou não, a diferença está posta. Cabe aos pais e a esse(a) filho(a) encontrarem traços de semelhanças entre si para então se enlaçarem e tecerem uma vida amorosa e familiar juntos.

“Tem tanta criança abandonada e precisando de uma casa, e fica essa demora e burocracia para alguém conseguir tirar uma criança da miséria”.

Essa frase denúncia o pouco que sabemos sobre a realidade dessas crianças/adolescentes, é claro que a burocracia é gigante, que os processos são muito demorados e isso será tema de outros textos. Mas o que quero apontar aqui é que muitas das crianças/adolescentes que estão nos abrigos não estão para adoção. Elas possuem famílias, que por algum motivo (e existem vários) não podem e/ou não consegue ficar com seus filhos.

Na grande maioria das vezes elas chegaram aos abrigos sem saber porquê ou sem grandes explicações. Retiradas de casa pelo conselho tutelar, após denúncia recebida e averiguada, mas de maneira abrupta e sem o devido cuidado. Passam então a morar provisoriamente nestes lugares até poderem voltar pra casa ou verem seus pais serem destituídos de seu poder pátrio.

Então, para além de apenas julgar a demora ou a burocracia é preciso se envolver e estar atento a esse tema, a essa realidade. Adoção é um tema muito mais abrangente, que abrange inclusive aquelas crianças e adolescentes que não estão em adoção, mas que vivem a mesma realidade dentro dos abrigos, que passam a ser suas casas.

Várias são as questões que permeiam esse assunto e muitas delas atingem ou atingirão a sociedade de maneira mais ampla, por exemplo, vocês já se perguntaram o que acontece com uma criança/adolescente que cresceu num abrigo, mas ao completar 18 anos não pode continuar morando onde sempre morou? Como será que essa(e) jovem conseguirá viver a partir daí? Que estrutura terá para encontrar um trabalho, se sustentar e viver para além de sobreviver?

Dois homens de frente para um notebook em cima de uma bancada, com um menino pequeno sentado na bancada apontando para a tela.
123rf/belchonock

Já se perguntou se essas crianças e adolescentes possuem um olhar de amor que lhes edifiquem enquanto sujeitos? Se possuem projetos de vida, sonhos, expectativas? Se estudam? Como e quando ocorre sua formação acadêmica e sua preparação para o mercado de trabalho?

Quando lê ou assiste nos jornais que uma mãe optou por deixar seu filho num saco de lixo, numa caçamba ou em qualquer canto, colocando em risco essa vida, já se perguntou por que esse ato para essa mulher parece mais fácil do que entregar seu filho a Vara da Infância?

O que pretendo com este texto é começar a pensar, questionar e compartilhar questões da ordem do social e do particular na tentativa de aprender, de construir e reconstruir ideias e opiniões sobre adoção. E para isso conto com sua leitura, suas palavras, seus questionamentos e ideias, afinal sozinhos não construímos nada além de verdades absolutas e irreais.

Sobre o autor

Juliana Meyer Luzio

Juliana Meyer Luzio

Terapeuta que constrói sua clínica através de um espaço que integra fala, consciência corporal e quietude, tornando possível uma reconexão com o que há de belo, delicado e muito forte em nós - nossa saúde.

Formada em Psicologia, Psicanálise, Terapia de Integração Craniossacral, Transmutation Therapy, entre outros, está sempre em busca de conhecimentos que agreguem, em seu dia-a-dia maneiras, diferentes de olhar a vida.

Atualmente, além de sua clínica, lançou a Îandé, onde tem se dedicado à arte de criar e costurar produtos exclusivos e cheios de carinho.

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