Comportamento

O sentido do outro

Homem e mulher separados por uma parede.
123rf/lightfieldstudios
Anna Bheatriz Nunes

O outro não é mais que uma ilusão. Todos somos feitos da mesma matéria, portanto, unos. Mas enquanto essa compreensão não está límpida, é necessário nos descobrir através da ideia da existência de um outro, um mestre e também espelho.

Homem sentado em banco público. Sua cabeça está baixa, e suas mãos estão em sua nuca.
Pexels/Inzmam Khan

Não lidar com as emoções talvez seja uma das maiores fugas humanas. Tenta-se todo tipo de distração para não entrar em contato com as tais emoções, mas é sempre necessário uma vazão. E recorremos ao outro. Pensamos que o outro é um extremo de nós, mas, na verdade, é apenas uma parte do jogo da vida para nos fazer encarar o que realmente importa: o sentir.

Carlos Drummond de Andrade (1902–1987) escreveu no poema Sentimento do Mundo (1940) os seguintes versos: “Tenho apenas duas mãos/e o sentimento do mundo” (1–2). Eles elucidam bem uma consciência sentimental una, a de que todos têm duas mãos separadas. Cada um habita um corpo, mas os sentimentos são comuns a todos. A raiva e o amor que sinto não são singulares e de minha propriedade, apenas as circunstâncias. A raiva e o amor que sinto são os mesmos que todos sentem, por isso — no fundo — somos os mesmos.

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Nos tempos de isolamento, estamos separados, mas apenas os corpos em tal condição. Nossos sentimentos sempre estarão próximos, pois são iguais. Oriundos de uma mesma raiz, de uma mesma matriz. A consciência da aproximação sentimental diminui a camada de ego e nos aumenta como humanos que somos.

Apenas no aproximar dos sentires surge (o que para mim é uma das mais altas manifestações do coração) a compaixão. Manuel Bandeira (1886–1968) escreveu um poema em que é possível sentir não mais o distanciamento, mas a aproximação: a compaixão. No livro Libertinagem (1930), o poema O impossível carinho:

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo

Quero apenas contar-te a minha ternura

Ah se em troca de tanta felicidade que me dás

Eu te pudesse repor

— Eu soubesse repor —

No coração despedaçado

As mais puras alegrias de tua infância!

Duas peças de jogo de tabuleiro, representando pessoas, separadas por um pequeno muro de madeira.
123rf/Andriy Popov

O sentido do outro, da existência aparente de um outro, é nos fazer sentir novamente até que os corpos sejam secundários e o sentir, elevado. A unicidade — o sentido do outro é nunca sermos sós, mesmo que isolados.

Sobre o autor

Anna Bheatriz Nunes

Anna Bheatriz Nunes

Eu sou Anna Bheatriz Nunes, arquiteta, urbanista, escritora e poetisa. Autora do livro de poemas "da distorção à transformação", publicado pela Ape'Ku Editora. Expresso-me para dar vazão ao que sou e para me encontrar. Que as nossas expressões criem belos encontros!

Email: [email protected]
Instagram: @annabheatriznunes