Sou daquele tipo de professor que sofre quando não consigo explicar direitinho o assunto para os meus alunos. Carrego comigo a estranha convicção de que, se eles não entenderam, talvez eu ainda não tenha entendido o suficiente para ensiná-los.
Esse sentimento sempre me acompanhou, mas recentemente ganhou um peso maior, quase um aperto no peito, quando, no início de 2026, em São Gabriel da Cachoeira, um aluno levantou a mão e perguntou com a maior simplicidade do mundo:
— Professor, quais são as questões fundamentais da filosofia?
A sala ficou em silêncio. Não por falta de interesse, mas porque a pergunta tinha a densidade de uma pedra lançada em um rio profundo. Olhei para aqueles rostos atentos, marcados por histórias, línguas e mundos diferentes, e pensei que ali não cabia uma resposta apressada.
Respirei fundo e comecei como sempre começo: lembrando que as questões fundamentais da Filosofia nascem do espanto humano diante da existência, do conhecimento e da convivência com os outros.
Disse a eles que, desde a Antiguidade, os filósofos tentam responder a perguntas que não envelhecem, porque falam daquilo que somos. Expliquei que, para não nos perdermos, costumamos organizar essas perguntas em grandes eixos, não como gavetas fechadas, mas como trilhas abertas.
Falei, então, da pergunta sobre a realidade: o que é o que existe? Se o mundo é apenas aquilo que vemos ou se há algo além do visível. Perguntei se somos livres como acreditamos ou se caminhamos dentro de limites invisíveis.
Depois, passei ao conhecimento: como sabemos o que sabemos? Se a razão basta ou se a experiência também ensina. Se existe uma verdade única ou muitas verdades que caminham juntas.
Quando chegamos à pergunta sobre o ser humano, percebi alguns olhares mais atentos. Quem somos nós? Corpo, alma, emoção, pensamento, ou tudo misturado, como os rios que se encontram na Amazônia. Na ética, a conversa ganhou um tom mais sério: o bem, o mal, a responsabilidade pelas escolhas, o desafio de viver bem com os outros. Não falei como quem traz respostas prontas, mas como quem convida a pensar.
A política apareceu naturalmente, ligada à vida em comunidade: justiça, direitos, deveres, poder. A estética surgiu quase como um alívio, quando falamos da beleza, da arte, do canto, da pintura e das histórias que dão sentido ao mundo. E, por fim, tocamos no sagrado, com cuidado e respeito, perguntando sobre Deus, a fé e o sentido último da existência, sem impor caminhos, apenas reconhecendo que essa pergunta acompanha a humanidade desde sempre.
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Ao terminar, repeti algo que considero essencial: a Filosofia não oferece respostas definitivas, mas ensina a perguntar melhor. Ela nos ajuda a pensar com mais profundidade, a olhar para o mundo e para nós mesmos com menos pressa e mais atenção. Disse isso quase como um sussurro, porque ali, na sala de aula, a Filosofia parecia menos um conteúdo e mais uma conversa entre amigos.
Quando o aluno sorriu e fez um leve aceno de cabeça, entendi que talvez eu não tivesse explicado tudo “direitinho”. Mas percebi algo mais importante: às vezes, ensinar Filosofia é apenas isso, manter vivas as perguntas e aprender, junto com eles, a escutá-las melhor. Obrigado, São Gabriel da Cachoeira, por tanto amor, por tanto carinho, por tanto conhecimento, enfim, por me ensinar a filosofar.
