Autoconhecimento

Sobre maternidade e paternidade II

Barriga de grávida, com dois pares de mãos em cima, um masculino e um feminino, formando um coração.
Juliana Meyer Luzio
Escrito por Juliana Meyer Luzio
O que há de feminino e de masculino na experiência de criar um filho/filha? Será que para falarmos sobre isso precisamos nos ater ou obrigatoriamente falarmos dos papéis de homem e mulher considerados pela nossa sociedade?

Sempre achei que me sentiria mais mulher depois que fosse mãe, não sei ao certo como fiz essa colagem, mas tinha essa sensação, no entanto, hoje ao ser mãe vejo em mim e em meu marido a circulação de papéis, de atitudes, gestos e de sabedorias femininas e masculinas juntas. Meu achismo às vezes se fundamenta e me sinto sim mais mulher do que nunca ao dar colo, ao dizer que sou mãe e ao sentir o amor quase devocional nos olhos do meu pequeno. Porém, em outras tantas vezes, isso não acontece!

Vou devanear um pouco sobre 3 sabedorias importantes na arte de criar um filho tentando identificar o que há de feminino e masculino, porém escapando da figura homem e mulher porque acredito que ambos circulam por todas as tarefas, aprendizados e experiências dessa criação.

maternidade e paternidade

Começo pela sabedoria do tempo, pois ele sem dúvida é o primeiro a ser afetado com o nascimento ou chegada de um filho(a). Podemos pensar que o conceito de tempo cronológico perde o sentido no início pois quem dirá o tempo a ser seguido será a criança com sua fome, seu sono, seu coco e xixi. Mas, para além do cronológico há outro tempo, o da apreciação, da descoberta e este é mais lento, pede mais respiro. A princípio pode-se pensar que do cronológico temos o masculino, mas isso é ilusão! Me respondam, quem acorda todas as manhãs aí na casa de vocês e organiza tudo e todos para a saída a tempo de chegar no horário pra escola, será o pai ou será a mãe? Aqui em casa, cabe a mim essa racionalidade temporal. Em compensação, no fim do dia na hora do banho, o tempo perde sua função. Aí ficam pai e filho brincando na banheira, navegando por mares distantes em navios piratas ou em mergulhos fantásticos. E, no final, o tempo de um dia permanece sendo 24 horas, mas curiosamente o seu caminhar mais rápido ou mais devagar vai circulando de acordo com a elasticidade que precisamos e ambos, pai e mãe, circulam juntos entre o cronológico e o contemplativo.

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A segunda sabedoria que usarei é a concepção de valor, o que é caro pra você? O que é importante ou nem tanto? Racionalmente podemos pensar e calcular o custo fixo que passamos a ter com um filho(a), como escola, convênio médico, fralda, leite, roupa, enfim, são tantas as coisas que encarecem a experiência da maternidade/paternidade e elas são pensadas e repensadas pelo homem e pela mulher. No entanto, todas elas se desvalorizam diante de um sorriso afetuoso do nosso pequeno(a), o valor do sorriso ultrapassa qualquer loteria acumulada, porque ele se transforma em colo, carinho e segurança. Os sorrisos nossos e dos nossos filhos se transformam em casa e nos aliviam do peso da rotina e neste valor o feminino e o masculino não se diferenciam, todos somos tomados por sorrisos. E talvez essa seja a arma em comum que temos – todos somos possuidores, doadores e recebedores de sorrisos. E basta um sorriso só para que qualquer pai e/ou mãe se derretam e se sintam cúmplices nessa construção familiar.

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Chego então à terceira sabedoria: a da transmissão! Como falar, qual o tom usar e que palavras posso expressar para mostrar a importância da vida em seu sentido mais amplo possível. Desde a florzinha que eles adoram arrancar e que com isso murcham e não semeiam mais até as formigas e abelhas que com seu pequeno tamanho precisam existir e circular por aí.

Pode parecer bobagem isso, mas são nesses pequenos atos e cuidados que transmitimos que as diferenças não são o que importa, mas sim o respeito por cada uma delas.

É no toque de carinho, no banho e nas trocas de roupas, por exemplo, que transmitimos delicadeza.
São nas conquistas pequenas como aprender a tirar e colocar o tênis, a segurar a colher e levá-la à boca e a dar os primeiros passos que mostramos pra eles como a coragem é exigida de nós a todo instante e não apenas em grandes desafios e que, justamente por isso, somos todos corajosos.

Como transmitir o belo no mundo que vivemos? Porque a beleza alimenta a esperança e a magia de que há uma força oculta que está ali olhando e nos protegendo. Você pode chamar isso de religiosidade, nós aqui em casa usamos muito a natureza: os horizontes, as águas, os bosques, as brisas e outras coisas para mostrar e possibilitar a vivência desse belo e desse mistério que há na vida. O feminino e o masculino se fazem presentes o tempo todo na natureza.

Nessas transmissões todas encontramos suavidade, sensibilidade e afetuosidade, que são energias femininas, mas também há força de ação, movimentos de expansão e realização, que são energias masculinas. E ambos, homens e mulheres, de acordo com seu momento transmitirão todas essas coisas.

Enfim, escrevi esse texto por achar que há uma falsa ideia de que só as mães são capazes de dar amor e despertar delicadeza nos filhos e por sentir que os homens foram colocados de lado nessa criação e ainda levam o rótulo de machistas e folgados. Precisamos repensar se em nossas casas nossos homens não compartilham tarefas e a criação efetiva de nossos filhos por vontade própria, por uma necessidade nossa de darmos conta de tudo, de uma cobrança por perfeição e até mesmo por medo de ser menos amada do que o pai – vai que ele se descobre um paizão e aí lascou-se o chamego exclusivo do rebento.

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Eu nunca vinculei beleza, afetuosidade, esperança, preservação da vida e delicadeza unicamente às mulheres, sempre convivi com homens cheios dessas coisas todas e fico extremamente tocada quando vejo meu filho preferindo a companhia de seu pai à minha quando os vejo na banheira brincando e quando escuto as histórias que eles inventam juntos. É nessa humanidade de se saber que somos incompletos e de ver beleza na incompletude do outro que nos tornamos família, pais, mães e filhos que caminham juntos com suas diferenças e semelhanças.

Somos todos feminino e masculino, não se iluda e não tema suas facetas.


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Sobre o autor

Juliana Meyer Luzio

Juliana Meyer Luzio

Terapeuta que constrói sua clínica através de um espaço que integra fala, consciência corporal e quietude, tornando possível uma reconexão com o que há de belo, delicado e muito forte em nós - nossa saúde.

Formada em Psicologia, Psicanálise, Terapia de Integração Craniossacral, Transmutation Therapy, entre outros, está sempre em busca de conhecimentos que agreguem, em seu dia-a-dia maneiras, diferentes de olhar a vida.

Atualmente, além de sua clínica, lançou a Îandé, onde tem se dedicado à arte de criar e costurar produtos exclusivos e cheios de carinho.

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