Convivendo

A contação de histórias como modo de relacionar-se e entreter-se

Grupo de crianças ouvindo professora contar história.

Dia 20 de março é o Dia do Contador de Histórias, e que papel maravilhoso desempenha esse narrador criativo! Contar histórias é um método de preservar memórias e biografias. Além das histórias literárias, que são muito importantes, a contação pode ter caráter biográfico e histórico, de maneira que o contador vai narrar sua vida ou causos que escutou e que só se mantêm vivos graças à oralidade. Campos (2011) relata que, com o advento da ciência arqueológica, descobriu-se o primeiro modo de aprender e de ensinar do ser humano: a contação.

Pessoas reunidas em volta a fogueira em uma floresta, contando histórias.
Pixabay – Pexels

A figura do contador de histórias, apesar de tradicional, se mostra atual e viável nos dias de hoje, não só em bibliotecas, escolas e espaços culturais (DORNELAS, 2008), mas também no aconchego do lar e na casa dos avós, por exemplo. A relação avós-netos tende a ser muito especial, pois os idosos são narradores em potencial, enquanto as crianças são ouvintes atentos às narrativas, por vezes repetitivas, que os adultos não têm paciência para escutar. Toda criança é curiosa e aprecia ouvir histórias e memórias de pessoas mais velhas, não? Se elas contiverem mistério, suspense e fantasia, vão entreter mais ainda! Há um relato (que virou livro infantil) de uma avó que tecia uma colcha de retalhos com sua neta; a cada pedacinho de tecido cerzido, uma história era contada. A cada vez que se observava o retalho, rememorava-se o conto ouvido.

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As tradições orais são bastante comuns em diversos grupos étnicos. Para os inuit (esquimós), a oportunidade de aprendizado com os mais velhos se dá pela escuta silenciosa das conversas e das histórias contadas por eles (ROGOFF, 2005). No Brasil, a maior parte das sociedades indígenas também conserva seus costumes e tradições por meio da oralidade transmitida pelos mais velhos. Há exemplos da importância do idoso para a preservação das culturas em aldeias da Amazônia e do Mato Grosso do Sul, onde o cacique kaiowá Paulito Aquino, que afirmava ter mais de cem anos, era a única pessoa a realizar os rituais de perfuração dos lábios dos jovens. Entre os baniwa, do Alto Rio Negro, os idosos são os responsáveis por contar as histórias da criação do mundo durante os rituais de passagem de idade.

Há relatos de velhos sábios com conhecimentos e poderes sobrenaturais que reuniam uma legião de seguidores. A importância da figura desses sábios está também na organização e na reorganização social essencial para a sobrevivência do grupo. No caso dos kadiwéu, habitantes de uma grande área em Porto Murtinho, na fronteira com o Paraguai, a principal habilidade é a arte da pintura corporal e da cerâmica. Há mais de um século, as práticas de pintura são mantidas pelas mulheres desse grupo; as artistas mais velhas são as que conservam o maior conhecimento dos símbolos e dos desenhos tradicionais.

Homem idoso contando história em microfone, gesticulando com as mãos.
Pxhere

A figura dos avós, aqui exaltada, não é essencial para a contação, mas ressaltamos a relação especial que muitos deles possuem com seus netos. É na casa dos avós que os netos recebem mimos e regalias que muitos pais não oferecem, ou seja, os netos são protegidos por seus avós. Avós e netos são cúmplices, amigos, parceiros. O avô e a avó tradicionais, que antes eram acostumados a ficar reclusos em casa, lendo jornal ou tricotando, hoje são bastantes modernos, podendo levar os netos à escola e fazer com eles diversas atividades que incluem até mesmo a tecnologia.

Enaltecer a representação do contador de histórias é se lembrar da importância de manter viva a memória, a historicidade e as narrativas orais que precisam permanecer vivas e ser transmitidas de geração para geração.

Referências:

CAMPOS, Fernanda Rodrigues. A contação de histórias na constituição de autorias: papel & parceria. 2011. 65 f. p. 10. TCC (Graduação) – Curso de Letras, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Viamão, 2011. Disponível em: LUME – UFRGS – Acesso em 19 de fevereiro de 2020.

DORNELAS, Camila Carrari. Era uma vez um conto, uma história, um encontro: o resgate da tradição oral. Revista Eletrônica do Instituto de Humanidades, Rio de Janeiro, v. VII, n. XXV, p. 1-27, abr./jun. 2008. Disponível em: Publicações Unigranrio – Acesso em 04 de novembro de 2015.

ROGOFF, Barbara. A natureza cultural do desenvolvimento humano. 2005. Porto Alegre: Artmed.

Sobre o autor

Caroline Gonçalves Chaves

Caroline Gonçalves Chaves

Sou pedagoga formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e especialista em psicopedagogia e TICs, também pela UFRGS. Como educadora, atuei na educação infantil e na educação de jovens e adultos (EJA). Sempre gostei de escrever, e nos últimos anos tenho me aventurado à escrita de contos infantis (meu primeiro livro, "Dorminhoca", foi lançado em 2019). Tenho afinidade, ainda, por temas como direitos dos animais, abolicionismo animal e veganismo, por acreditar que os animais não humanos são merecedores de respeito e possuem direitos como os animais humanos – eles são nossos irmãos nesta caminhada de evolução. Sou também estudante do espiritismo kardecista, trabalhando em uma sociedade espírita da minha região.

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