Crônicas da Vida

Impermanência

Folhas em ordem de saúde
Jéssica Sojo
Escrito por Jéssica Sojo

Quarta-feira, dia ensolarado e aparentemente comum. Papo lá e papo cá, observo o meu relógio e noto que já são 14h e eu tenho um compromisso agendado em alguns minutos. Corro rapidamente para organizar as minhas coisas e sair o mais rápido possível do local onde me encontro. Esbarro surpreendida num conhecido e converso rapidinho sobre o tanto de tempo que não nos encontramos mais, sobre a vida, e digo rapidamente que estou com pressa, pois tenho um compromisso.

Tento apressar os meus passos para dar tempo de atravessar a rua e chegar ao meu destinatário, mas nos milésimos do 45′ do segundo tempo, o farol fecha. Vermelho. Vermelho. Vermelho. Fico irritadiça por um segundo, fecho os meus olhos e expilo por um momento – pouco confusa em meio aos meus pensamentos e a tamanha burrice que eu tenho ao errar um dos passos e ficar presa um quarteirão antes do meu destinatário.

Preocupada com o que possa vir ocorrer caso eu não consiga chegar ao meu suposto encontro, no mesmo instante começo a me culpar por não ter pegado um UBER, já que seria rápido e eu não precisaria sair correndo para chegar mais rápido ao meu destinatário. Tempo eu perdera no farol vermelho. [aaa]. Expilo o ar, abro os meus olhos rapidamente e inspiro o ar enquanto o sinal continua no vermelho. Olho para o céu, quarta-feira ensolarada, olho a minha volta e, de relance, noto crianças brincando próximo do local que me encontro aguardando o farol abrir.

Atento novamente para o sinal, que continua vermelho. Olho então para a minha frente, reparo o movimento de ir e vir dos carros, escuto a buzina, o barulho do motor dos automóveis, as vozes das pessoas, a risada gostosa e sutil das crianças que brincam próximas de mim. Em menos de 60 segundos, caramba. “Nada é fixo e nem permanente”: sábia frase. Farol verde.

Sinal verde

Entre as intempéries oscilações quotidianas que vivenciamos e muitas das vezes inconscientes – já pararam para refletir sobre a vida e sobre SERMOS presentes de fato? – Quando o farol fecha bem na hora de atravessarmos? Quando o motorista do ônibus sai bem no momento em que chegamos ao ponto de ônibus? Quando o trem/metrô aciona o sinal das portas fechando-as na bendita hora que pisamos na plataforma todos esbaforidos para chegarmos mais rapidamente ao nosso destinatário? Quando estamos dirigindo e, de repente, cruza um carro bem no nosso caminho? Quando marcamos um encontro e acabamos nos desencontrando e tudo supostamente ocorre da forma que não foi planejada? Quando está tudo bem e, de repente, ficamos de ponta-cabeça? Bateria do celular que acaba bem quando mais precisamos entrar em contato com alguém? Dentre muitas outras situações cíclicas que às vezes nós não apercebemos tamanho ensinamento que pode nos surpreender se estivermos atentos.

Engraçado, é tão mais fácil fechar os olhos e culpar o outro, o universo, aquele que não conspira ao nosso favor. Optou-se por sofrer, reclamar, blasfemar e pensar as piores coisas possíveis, sentir emoções negativas e horrendas porque um farol simplesmente fechou, fato natural como tem que ser. Afinal, nada é fixo, nem permanente.

O farol fechou e logo abrirá novamente. E está tudo bem. Cíclico. Como tem de ser. Engraçado.

Nós não temos o controle dos inúmeros problemas que podem ocorrer na nossa vida e muitas das vezes conseguimos resolvê-los, mas está tudo bem. Pensamos que podemos resolver tudo e “carregar” o universo nas nossas costas, porém é impossível, devemos saber lidar com isso de maneira simples e racional. Quando o farol fechar, quando o carro cruzar bruscamente o seu caminho, quando você perder o metrô/trem ou o ônibus, ou seja lá o que ocorrer fora do planejado, lembre-se de que é necessário ter paciência e aguardar as coisas fluírem como tem de SER. Nada é fixo, nem permanente. E está tudo bem.

Porta aberta indicando impermanência de tempos ruins

Quando uma porta se fechar, lembre-se de que há a possibilidade de abrir a janela e seguir adiante, havendo uma infinidade de coisas que nos aguarda se estivermos presentes e dispostos a aprender. Não pense que a vida está pouco se importando ou que o universo não conspira ao seu favor. Não caia nesse comodismo; inicial e aparentemente tudo parece maravilhoso, mas não se engane. Lembre-se de que é justamente nesses momentos inoportunos de expirar e inspirar, de estar aqui e no agora que as coisas ocorrem e está tudo bem. Nada fixo, nem permanente.

Impermanência. Tente buscar identificar qual sentimento emana quando algo sai da rota planejada e calculada e reflita sobre escolher entre o ato de se acomodar e culpar o bendito do universo que não conspira ao seu favor e o privilégio de poder estar aqui, agora e enxergar de frente a situação, encarando como um ótimo desafio para lapidar a vida.

Na vida, passamos por diversas situações, todas com o propósito de nos ensinar algo. Seja ao “esbarrar” no farol vermelho, no carro que cruza o caminho, na rota planejada que “atrapalhou” totalmente o percurso e tornou tudo confuso, nos sinais que o universo nos envia constantemente e não prestamos atenção, porque sempre achamos que temos o domínio de tudo e, na verdade, nós não temos, enfim a vida é muito ínfima para nos preocuparmos somente com o que não deu certo.

Afinal, como já bem diz a sábia Monja Coen: “nada fixo e nem permanente”.


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Sobre o autor

Jéssica Sojo

Jéssica Sojo

Extremamente curiosa por entre os quatro cantos do mundo – e viciada em chás. Minimalista e tentando viver uma vida perto do zero-lixo. Vegana e ativista voluntária da Mercy of Animals. Fascinada pela África e sonhadora em morar nesse país fabuloso e cheio de ensinamentos fundamentais a nossa cíclica vida. Palmeirense. Budista. TILSP e apaixonadíssima pela Cultura Surda <3. Conversadeira sobre diferentes possíveis e até impossíveis assuntos – dentre outras coisas mais, é custoso classificar quem eu sou – sendo que eu sou o todo que me cerca – outro você que é outro eu e juntos, nós somos UM. Eu poderia começar partilhando que foi inicialmente e com base na minha experiência como acadêmica na Faculdade de Medicina – com a esperança de trabalhar com o ser humano e as suas limitações, que eu despertei para um lado ao qual eu não fazia a menor ideia de que existia dentro de mim e de que eu também poderia usufruir desse lado despertando em outras pessoas o sentimento de sempre brilharmos como o sol, mesmo nos momentos mais inoportunos da nossa cíclica vida.

Digo sempre que nós somos semelhantes ao sol, assim como há dias nublados e ensolarados – como for – os nossos dias, são como a nossa cíclica vida, que também brilha, e isso independe do momento que passemos. Continuemos a brilhar, independente desses nossos momentos, difíceis e necessários para a nossa evolução, ou não tão difíceis, a nossa vida brilhará sempre. Cabe somente a nós, decidirmos brilhar ou sombrear. Despertarmos e incentivarmos o mesmo ao nosso próximo ou nos enclausuramos e perdemos a grandiosa oportunidade de ser como o radiante e brilhante sol. Meu designo aqui no Portal EuSemFronteiras é exatamente compartilhar as minhas experiências, junto a cada leitor e leitora, e em troca do nosso entrosamento, brilharmos e despertarmos uns nos outros, o nosso saudoso e caloroso sol. Ressoando todo o nosso conhecimento e transformando a nossa revolução humana com base nos nossos dias ensolarados e nublados, sem perdermos a esperança.

Meu propósito é trazer sempre em pauta a primordialidade de enxergarmos além do que nos é visível aos olhos - e como a minha mãe sempre comenta, é através do meu brincar com as palavras, que eu tenho total gratidão em estar aqui e em semear em cada pessoa que me acompanha a sementinha de ter total empatia e perceber a essência no coração do nosso próximo. Elevando não só o meu, mas todo o nosso estado de vida e tomando extremo cuidado para não nos perdermos nos detalhes – sendo honestamente sincero conosco mesmos com base no nosso próprio coração e em busca da transformação do despertar de cada um que nos torna UM.

Que a nossa esperança em brilhar em todas as adversidades da nossa vida cíclica nunca se perca em meio as nossas peregrinações na sociedade.

Com todo o meu coração e toda a minha gratidão, em especial, aos meus pais que me permitiram chegar aqui e a minha família que sempre me apoia;

A cada um que me acompanha aqui e ao pessoal que faz parte do portal do EuSemFroteiras.

Um saudoso e caloroso abraço em cada um, que possamos emanar ensolaradas felicidades uns aos outros, sempre.

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