Convivendo

As relações impessoais das redes sociais

Zil Camargo
Escrito por Zil Camargo
Eu realmente comecei a me incomodar com o rumo e com o poder que o mundo virtual, no que diz respeito às relações, passou a tomar.

Em um certo ponto, quando ainda participava de redes sociais, cheguei a chamar de “muro de lamentações”. Uma ferramenta com tantos recursos, inclusive comercial, usada pela maioria com tanta frequência para expor as mazelas, frustrações, desafetos ou imagens de uma vida maravilhosa que estava muito distante da realidade, de fato me incomodava muito.

Pessoas inteligentes que não sabiam mais a correta grafia das palavras, comentários desnecessários e até ofensivos sob o véu da liberdade de expressão e algumas vezes do anonimato, informações de fontes duvidosas e não checadas e uma total falta de sensibilidade, além de política, futebol e religião no ponto mais extremo do conflito dos opostos. Esses são apenas alguns efeitos que eu observava nesse vasto território de ninguém.

Não entendia como tanta energia podia ser desperdiçada em um universo tão cheio de oportunidades.

Afinal, esse é um universo com passagem de ida sem volta. Os meios de comunicação serão cada vez mais através de imagem e mensagem escrita, não há como voltar atrás.

É justamente por isso que eu defendo que devemos estar atentos com o tipo de exposição que escolhemos fazer. Cada publicação é um registo perpétuo do momento que vivemos ou do pensamento que expressamos, mas que nem sempre traduzem a realidade do sentimento.

Eu conheço relações que começaram por causa disso e relações que acabaram também.

Sem contar que xenofobia e preconceitos de todas e mais agressivas formas nunca estiveram tão presentes. É a intolerância com alcance em massa.

Um comportamento que vai ficando tão enraizado na maneira de se relacionar que as pessoas sequer se dão conta disso. É triste! Especialmente no que diz respeito ao impacto que esse processo causa na vida das pessoas mais jovens ou menos amadurecidas.

O mundo virtual traz essa “insignificância” para um terreno editável e removível que a vida real não compartilha.

Não é incomum, por exemplo, uma pessoa publicar uma mensagem de luto sobre uma perda que acaba de acontecer e receber dezenas de curtidas. Quem nunca viu isso?

Evidente que a pessoa que curte uma publicação dessas, não está de fato ‘curtindo’ o acontecimento, mas note como o rumo da comunicação fica perdido.

O mundo virtual traz essa “insignificância” para um terreno editável e removível que a vida real não compartilha.

Assim também acontece para aquelas publicações de pessoas doentes ou necessitadas que são compartilhadas à exaustão, rodam o mundo e as pessoas continuam doentes e necessitadas, mas aqueles que compartilharam estão com uma sensação de solidariedade no peito por agirem assim.

Sem perceber, deixam de fazer pelo outro algo que de fato acham que fizeram.

Apesar disso eu não faço uma apologia ao fim dessas redes, acho que elas têm o seu valor. Acredito que as ferramentas virtuais usadas da maneira adequada têm potencial para transformar o mundo.

Cabe a cada um analisar o potencial de construção ou destruição que é capaz de suportar, contribuir ou se abster.

Há três anos eu abandonei a minha rede social.

Foi ouvindo o rádio do carro que tomei a decisão. O jornalista Ricardo Boechat contou que encontrou um conhecido que trabalhava fora por meio período. Ele disse que perguntou ao conhecido o que andava fazendo no outro período do dia e o conhecido respondeu: “Fico na rede social tal”.

O jornalista disse que tomou um susto ao ouvir seu conhecido se referir aquilo como um lugar.

Ouvindo isso eu também tive a sensação de que ficava dentro de algo fora da realidade espacial quando eu estava conectada e tinha certa necessidade de acompanhar tudo o que acontecia lá, como se do contrário, eu teria sido arremessada para fora do planeta Terra. Era a primeira coisa que eu fazia ao acordar e a última ao deitar.

Apesar do incomodo, para mim, era demais nadar contra essa corrente. Senti que estava mais solitária dentro do que fora e me assustava com o poder de abdução desse ‘lugar’ chamado internet.

Eu sabia que provavelmente perderia o contato com alguns e sofreria até um princípio de crise de abstinência, por outro lado sabia que a minha verdadeira rede social estava na agenda do meu celular, e redescobrir isso foi um grande alívio.

Sabia também que muita gente que eu gosto continuaria a levar uma vida sem mim nesse universo paralelo e que eu perderia muitas atualizações sobre a vida delas, pois o que se posta, normalmente não se tem a necessidade de contar pessoalmente.

Quase deixei de ser convidada para um casamento. Minha amiga entregou os contatos da rede social como base para a cerimonialista distribuir os convites e eu não estava mais lá.

Ela me enviou o convite uma semana antes com pedidos de desculpas e ainda disse em tom de brincadeira: “esse negócio de você não estar mais online ainda vai estragar a nossa amizade”.

Isso prova o poder das redes sociais, mas também nos convida para uma reflexão sobre a sua validade e o impacto que ela pode provocar na vida das pessoas.

Conviver através das redes sociais requer um domínio de si e um senso de realidade que na maioria dos casos, o comportamento de manada, o senso comum ou o modelo de sociabilização impositivo que acontece dentro dela não permite a observação.

É a partir dessa ausência de clareza que fenômenos como a baleia azul ganham força, opiniões sem crítica racional se disseminam e as significações das coisas se confundem.

Conviver através das redes sociais requer, sobretudo, uma perfeita sintonia com as nossas redes pessoais, um estado de atenção que não nos permite a perda da direção, ainda que o caminho esteja lá, bem na nossa frente e que estejamos, querendo ou não, de alguma forma, no meio da multidão.

No meu caso, tomei a decisão que não é uma regra geral, mas me trouxe mais tranquilidade e um pouco mais de lucidez. Desviei o olhar e me concentrei em me reaproximar por outras vias dos meus contatos, ainda que eu saiba que a rede social continua lá com sua vida própria e muita gente feliz, muita gente infeliz, muita gente se encontrando e muita gente se perdendo.

Publiquei: “Se não queres ver as estrelas, não olhes para o céu”, e desativei a conta.

Sobre o autor

Zil Camargo

Zil Camargo

Na diversidade de cada ser, é injusto com a vida, neste mar de experiência que ela concede, tentar nos definir assim, com meras palavras.

Mas dentro de mim mora alguém inspirada, sensível, às vezes curta ou grossa, ora dramática, ora objetiva.

Mãe, artesã, escritora amadora; consultora para ganhar a vida e interessada no comportamento humano.

Estudiosa de assuntos relacionados à psicanálise, filosofia e espiritualidade; uma aprendiz procurando desenvolver oportunidades em busca do bem viver.

Contato: [email protected]