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Minha mãe fazia: as receitas feitas com amor

Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Cozinhar é um ato de entrega e amor. Cozinhar a nossa própria comida é um momento de reconexão. É lembrar origens, cheiros e claro, resgatar lembranças. Quem não lembra de sua querida avó ou mãe cozinhando?

Ou aquele cheiro chegando ao seu encontro? Momentos como estes estão guardados na memória de muitos. Desta forma nasceu o ‘Minha Mãe Fazia’. A jornalista Ana Holanda reúne neste projeto receitas feitas pela sua mãe e também comidas afetivas. Confira a entrevista.

Eu sem Fronteiras – Como surgiu a ideia de fazer as receitas de sua mãe e compartilhar?

Ana Holanda: O Minha Mãe Fazia reúne, na verdade, não apenas receitas da minha mãe. A ideia é falar sobre comidinhas do dia a dia e memórias afetivas. Invariavelmente, muitas das minhas memórias afetivas estão relacionadas com os pratos que a minha mãe (Ligia) fazia na minha infância. Então, eu acabo compartilhando muitas delas. O projeto surgiu há cerca de um ano, quando senti a necessidade de dividir muitas das reflexões que tenho enquanto estou cozinhando. Eu acredito que quando divido minhas reflexões, quando compartilho as receitas, quando falo das minhas lembranças de infância, as pessoas se identificam. E acabam lembrando de momentos importantes da própria infância, se reconectam com suas emoções e com é, de fato, importante nessa vida. Eu acredito muito que a comida é um ponte que nos conecta com as pessoas e diz muito sobre as relações que estabelecemos por aí. Por exemplo, meu texto pode falar sobre os dias em que nada dá certo, sobre o medo de sair da zona do conforto, sobre o medo de errar, sobre não saber dar tempo ao tempo, sobre a relação com os filho, sobre saudades. E eu sempre finalizo com uma receita que tenha relação com o tema: um bolo, um doce, uma torta, um prato salgado.

Eu sem Fronteiras – Você sempre gostou de cozinhar?

Ana Holanda: Sim. Desde criança, eu adorava ficar na cozinha, que, para mim, era o coração na casa. Gostava de ver minha mãe cozinhar, de sentir os aromas que saiam da panela, de ir à feira e sentir o cheiro das frutas, dos temperos. Já adulta, sempre cozinhei bastante, mas depois que meus filhos nasceram (tenho gêmeos, Clara e Lucas de 6 anos) senti mais vontade de ir para a cozinha, de oferecer a eles comida caseira, de fazer que eles percebessem o sabor de uma comida verdadeira e não de comida industrializada. Eu acho que a gente ensina muito para os filhos quando cozinha, quando coloca a comida na mesa e compartilha o que fez. A gente ensina sobre conversar (porque todos sentam na mesa), sobre dividir (porque a gente compartilha a comida), sobre o valor das coisas (da comida, dos sabores), e sobre o que é, de fato, comida saudável.

Eu sem Fronteiras – O que significa para você a hora de cozinhar? O que é mais importante?

Ana Holanda: Cozinhar é um momento em que paro para refletir. É uma meditação ativa. Eu relaxo enquanto corto os ingredientes, misturo, provo. Gosto de comprar os ingredientes, gosto de pensar o que vou preparar, de cozinhar e servir. E adoro ver as reações das pessoas quando comem. Em geral elas gostam bastante dos meus pratos. Mas, de vez em quando, eu erro. E isso também é um aprendizado.

Eu sem Fronteiras  – Gosta de cozinhar para sua família?

Ana Holanda: Muito. Parece clichê, mas cozinhar é uma forma de amor. A gente se coloca muito quando cozinha. É sentimento. E eu me preocupo muito em relação ao que a minha família come. Não sou a neurótica da comida saudável, mas gosto que eles comam comidas feitas com ingredientes frescos, frutas (variadas), e comida caseira (nada de sopa pronta, lasanha congelada, molho industrializado).

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Eu sem Fronteiras – Quais alguns dos pratos que você faz e eram receitas de sua mãe?

Ana Holanda: Boa parte das minhas referências na cozinha tem relação com as minhas memórias de infância, com a comida da minha mãe: os cheiros, as misturas, o uso dos temperos. Os pratos da minha mãe que guardo com carinho da memória são o bolo de chocolate, o bolo de creme de leite, o suflê de milho, o bife a parmegiana e a batata ao forno. Minha mãe sempre foi cozinheira de mão cheia.

Eu sem Fronteiras – Por que a comida em si lhe remete afeto?

Ana Holanda: Quem não cozinha com sentimento, com doação, em geral, não cozinha bem. Cozinhar é uma forma de conversar com a alma (pelo menos para mim é). E o afeto permeia tudo isso.

Eu sem Fronteiras – Qual a lembrança de sua mãe cozinhando? Você se inspira nela?

Ana Holanda: Lembro dela cozinhando todos os dias. Lembro do barulho da panela de pressão cozinhando o feijão do dia, do alho fritando com a cebola para fazer o arroz. Tudo muito bom, saboroso.

Eu sem Fronteiras – Já convidou seus filhos para cozinharem juntos?

Ana Holanda: Sim. Sempre faço isso. Mas para mim isso tem que ser espontâneo. Quando eles querem, são bem vindos. E criança é curiosa, né? Então, vira e mexe, eles aparecem. Eles adoram ajudar a fazer bolo. Adoram perceber a mágica que é misturar farinha, ovo e leite e ver aquilo se transformar em algo completamente diferente: um bolo fofo de chocolate.

Eu sem Fronteiras – Por que você acredita que comida de mãe costuma ter aquele gosto de aconchego?

Ana Holanda: Porque, em geral, é feita com amor.

Eu sem Fronteiras –  Fique à vontade para escrever algo

Ana Holanda: Eu acredito que cozinhar é uma forma da gente se conectar com a gente mesmo. Em tempos em que a vida exige rapidez e praticidade é importante experimentar, cheirar os temperos, sentir a textura da carne, sentir os aromas. Isso me ajuda a refletir que não devemos aceitar tudo que nos é dado como certo ou como pronto. A gente também precisa descobrir os próprios caminhos, descobrir sozinho. Existe uma diferença essencial entre comprar uma lasanha pronta, industrializada e preparar uma em casa. A segunda vai dar mais trabalho, mas o resultado é infinitamente melhor. Pode acreditar. Com a vida também é assim. Nem sempre o caminho que dizem ser o certo, o mais fácil ou prático é aquele que vai nos dar mais prazer, felicidade, satisfação de verdade. Cozinhar, para mim, é um caminho que me leva para a minha essência.


Entrevista realizada por Angelica Weise da Equipe Eu Sem Fronteiras.

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