Autoconhecimento

Entendendo o luto

Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Quando amamos alguém fazemos planos para a vida inteira. Queremos o ser amado perto em todos os momentos. Acreditamos que envelheceremos junto com ela. Temos a infantil ilusão que a pessoa é imortal. Porém, uma doença ou um acidente de repente tira da gente quem mais amamos. Quando a pessoa vai embora, perdemos o chão, porque entendemos da forma mais dolorosa que ninguém é imortal. Uma parte de nós se foi, e a parte que fica está aos pedaços. Falta ânimo para comer. Não queremos ver ninguém. Ficamos sem chão. A dor da perda nos sufoca de tal forma que temos a sensação de que vamos morrer também. Nossos corações são atingidos por um enorme vazio.  Nós sentimos sozinhos e incapazes de reagir.

Perder alguém querido traz uma enorme sensação de impotência, porque vemos que não temos nenhum controle sobre a vida. A interrupção da convivência muitas vezes acontece de forma abrupta. Diante disso, surgem os mais variados sentimentos, eles nada mais são que diferentes respostas para o mesmo momento. A essa fase transitória, onde o indivíduo se depara com a ausência do seu objeto de amor, tenta lidar com essa frustração e encontrar um novo sentido para sua existência, damos o nome de luto.

O assunto, infelizmente ainda é tabu e pouco falamos sobre ele. Porém, ninguém está livre de passar por isso, já que é tarefa quase impossível uma pessoa não sentir amor. Muita gente não sabe, mas, existem diferenças entre as perdas. Tais singularidades não podem ser ignoradas, pois, são úteis no tratamento contra essa dor psíquica. Confira os tipos mais comuns de luto:

  • Morte de pessoas próximas: O luto não é discutido como deveria, mas, essa perda sempre acaba recebendo atenção. Pais que perdem um filho passam por uma situação antinatural, ainda mais quando o filho é adolescente ou criança. A dor se dá pelas expectativas que nunca serão concretizadas. É considerada uma dor mais intensa do que a perda de uma pessoa idosa. Outra questão que torna a morte de pessoas próxima mais complexa são as causas. Acidentes e suicídios engrandecem o luto, devido a sentimentos como raiva e culpa;
  • Mortes por invalidez, doenças terminais ou degenerativas: Perder um familiar ou amigo por conta de uma doença terminal traz, além da revolta da perda, a sensação de impotência. Quem fica precisa entender que fez o que estava ao seu alcance, e encontrar motivos e caminhos para seguir em frente;
  • Perdas não valorizadas pela sociedade: A perda de um animal de estimação, para muitos não é tão significativa quanto a perda de um familiar. Quando recebemos um animalzinho ainda na infância, as existências correm em paralelo, ambos passam por transformações e compartilham as mais variadas emoções. Portanto, a morte do pet é uma interrupção da convivência que possui a mesma importância;
  • Identificação excessiva ou psicose do luto: Nesse caso, a pessoa enlutada assume características do falecido. Outros acreditam que estão morrendo. Na psicose do luto é comum a pessoa ver e ouvir a voz de quem morreu. Ainda existem casos onde o indivíduo alimenta a certeza que o ente querido está vivo e vai voltar.

Como dissemos no início desse artigo, o luto é uma fase de transação. Dado o fato de que cada pessoa é um universo particular, cada indivíduo reage diferentemente à morte. Às vezes a reação é uma aparente falta de reação. Quem adota essa atitude tende a não chorar, nem mesmo no enterro ou cerimônia de cremação. De maneira alguma, isso deve ser confundido com frieza, é que algumas pessoas não sabem lidar com suas emoções, porque sempre negaram sua existência. Em contrapartida, outras embarcam em um desespero sem fim, chegando ao ponto de desejar morrer para ficar junto com o ser amado.

Seja qual for a reação, o primeiro passo para superar o luto é aceitar a perda. Porém, quem está vivenciando esse rodamoinho de emoções não consegue racionalizar. Família e amigos têm papel fundamental na recuperação, por trazer de volta à vida quem perdeu o rumo após a morte de um ser querido. A primeira missão é não confundir luto e depressão. No primeiro caso, a tristeza e a falta de ânimo tem causa definida. No segundo caso, a razão pode não ser tão aparente. Identificar os estágios do luto ajuda a entender as atitudes daquele que está em luto. As cinco fases do luto (ou da perspectiva da morte), segundo a psiquiatra suíça Elisabeth Kubler-Ross, pioneira sobre o estudo desse assunto são:

  • Negação: Primeiras horas até dias. Funciona como uma defesa psíquica. Nessa fase, o indivíduo nega veementemente o problema, se recusa a falar sobre o assunto e encontra subterfúgios para não encarar a realidade. Na tentativa de negar a situação, a pessoa não altera sua rotina, continua a trabalhar, estudar e mantém sua vida social, como se nada tivesse acontecido;
  • Raiva: Primeiras semanas até seis meses. Fase onde a pessoa demonstra inconformismo e revolta-se contra a situação. Choro, distúrbios do sono e falta de apetite são comuns nessa fase;
  • Barganha: Não a toa tem esse nome. Aqui, o indivíduo começa a “negociar” com Deus, promete ser uma pessoa mais gentil e adotar outras atitudes saudáveis, caso saia da presente situação;
  • Depressão: Fase de isolamento, melancolia e sensação de impotência diante do fato;
  • Aceitação: Seis meses a um ano.  As etapas acima são superadas. A realidade é encarada e aceita. O indivíduo está pronto para recomeçar.

shutterstock_179575955É importante salientar que nem sempre as pessoas passam por esses estágios. Algumas vezes, os estágios apresentam-se em ordem aleatória.  Há pessoas que sequer vivenciam todos, porém, o mais comum nos quadros de luto é atravessar por pelo menos dois. Existem casos onde o indivíduo fica estagnado em uma das fases.

Mesmo sendo necessário para superar a perda, se o luto for intensificado aumenta as chances desse quadro evoluir para uma depressão. O prolongamento torna crônico alguns sintomas sentidos na fase da raiva.  Insônia, sono excessivo, falta de apetite ou comer exageradamente merecem atenção profissional.

Nessa dificuldade em falar sobre o assunto, surgiu o projeto “Vamos falar sobre o luto?”. Criado em novembro de 2014 por um grupo de sete amigas, Amanda Thomaz, Cynthia Almeida, Fernanda Ferraz, Gisela Adissi, Mariane Maciel, Rita Almeida e Sandra Soares – duas jornalistas e uma publicitária, a iniciativa é um convite para as pessoas acessarem o site e darem seus depoimentos sobre a experiência. Cynthia conta que na primeira fase do projeto foram ouvidas 170 pessoas. Especialistas também colaboraram com a discussão. O próximo passo é o desenvolvimento de uma plataforma digital com a supervisão de profissionais. As idealizadoras têm a intenção de transformar essa plataforma em um espaço de “acolhimento, identificação e inspiração” para quem esteja vivendo o luto, ou que queiram ajudar quem passa por isso.

Já falamos sobre as cinco fases do luto, agora vamos dar algumas dicas para quem vive esse momento, ou você que deseja ajudar quem está passando por essa fase difícil.

  • Evite o isolamento: Ficar sozinho nunca é a melhor saída. Esteja ao lado de familiares e amigos. Eles poderão dar o conforto necessário. A convivência com pessoas queridas recarrega a bateria, auxilia a estabelecer novos objetivos e recupera a alegria de viver;
  • Enfrentar o sentimento de culpa, raiva e revolta: Quem perde um amigo ou familiar em decorrência de mortes violentas ou por doenças terminais, sente que não fez o suficiente. Não negue, nem se envergonhe. Falar sobre o sentimento ajuda a aceitar que ninguém é perfeito, e que em certas situações não há muito o que fazer;
  • Falar sobre a dor: Fale sobre a dor da perda, como ela está impactando sua vida. Desabafar é um santo remédio nesses momentos delicados. Entretanto, é direito seu não querer falar sobre isso o tempo todo, deixe isso bem claro;
  • Evite tomar decisões importantes: Caso seja extremamente preciso fazer alguma mudança radical, peça ajuda de algum amigo que seja objetivo e consiga agir em situações complicadas;
  • Administre a tristeza: Ver fotos e objetos de quem partiu é uma tortura. Coloque os pertences em uma caixa. A tarefa é complicada, entretanto, necessário para a recuperação. Na primeira fase do luto, procure reservar um dia da semana ou do mês para ver os objetos e pensar na pessoa;
  • Se preparar para datas difíceis: Em alguns dias o sofrimento será maior, isso é fato. Natal, virada de ano, páscoa e aniversário, geralmente intensificam a tristeza, porque são ocasiões que propiciam a reunião da família. Não negue isso, tampouco se isole. Passe essas datas ao lado de familiares e amigos. A companhia deles vai consolar e trazer conforto nas possíveis crises de choro;
  • Procurar ajuda médica: Dividir seus medos, raiva, culpa e amargura com um psicoterapeuta é uma boa ideia. O bom de fazer uma terapia é que o enlutado vai conversar com quem está de fora, e como diz a sabedoria popular “quem está de fora vê melhor as coisas;
  • Não se culpe por sentir-se bem: O esperado é que a tristeza passe com o tempo. Aos poucos, a pessoa vai se abrindo novamente para a vida. A rotina volta ao normal. Não há porque sentir culpa por ter planos, aceitar convites para churrascos, festas ou viagens. Quem partiu não quer ver o amigo ou familiar sofrendo. Pense nisso.

Já que falamos sobre procurar ajuda profissional, é importante citarmos uma importante terapia voltada para ajudar a superação do luto. A Terapia do luto é uma intervenção médica interdisciplinar, terapeutas, psicólogo e psiquiatra trabalham juntos. É bom ressaltar que raramente será receitado algum medicamento. Não existem estudos que realmente comprovem a eficácia de antidepressivos. A atriz e apresentadora, Cissa Guimarães, recorreu a essa metodologia, a fim de superar a morte do filho Gabriel em 2010. A terapia do luto é comum na Inglaterra e nos Estados Unidos.

Dica para quem quer ajudar um amigo ou familiar

Respeite a dor dessa pessoa. Jamais insista em convites para festas ou viagens imediatamente após a perda. Frases como “seja forte”, “confio na sua força” são as piores coisas que você pode dizer a uma pessoa que está de luto. Mostre sua soliedariadade. Ofereça seu ombro amigo, ouvidos e seu tempo. Entendemos sua preocupação e vontade de fazer alguma coisa, porém, apressar as coisas apenas aumenta o sofrimento.

O luto é doloroso, porém, necessário. Sinta e expresse a dor, mas, se apegue a ela. Quem cultua o sofrimento, muitas vezes, já passava por uma frustração, perda de emprego ou desilusão amorosa. Essa situação potencializa a dor da perda.  Procure se lembrar das coisas boas que a pessoa deixou. Caso ela participasse de algum projeto social, conheça o trabalho e procure se envolver. Cultivar as boas lembranças é uma forma de ter o amigo ou familiar sempre perto.

Quando a dor passa da conta não é bom para ninguém. Quem está sofrendo tem sua vida paralisada. Os amigos e familiares enfrentam maus bocados por verem a angústia. Quem morreu também não fica confortável com essa situação. A dor jamais deve ser vista como um estado, e sim, como um processo. O luto, não custa repetir, é uma fase de transição. Toda experiência modifica. É impossível passar por esse momento tão difícil sem aprender alguma coisa. O luto serve para a gente entender que não temos controle sobre a vida. Perder alguém querido nos ensina a valorizar as ocasiões passadas ao lado de quem amamos e aprender a perdoar e pedir perdão.

As dicas apresentadas aqui são importantes, mas, não são fórmulas mágicas. Todas elas dependem do tempo. Não subestime o poder dele. Cada um tem o seu tempo, portanto, não se compare a ninguém. Lembre-se sempre que a dor é uma fase de transição. Perder alguém que amamos nos deixa sem chão em um primeiro momento, contudo, precisamos superar para continuar a viver. Embora seja algo extremamente triste, morrer é tão natural quanto viver. Se você está passando por isso, tenha em mente que você não deve morrer junto com a pessoa que morreu.


  • Texto escrito por Sumaia Santana da Equipe Eu Sem Fronteiras.

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