Autoconhecimento

Da qualidade de agir e mudar

atenção
Francicleiton Cardoso

Vencendo as barreiras e medos impostos para nos cegar, podemos desenhar novos horizontes 

O que tem acontecido com o mundo nos últimos anos merece uma atenção especial. Se olharmos na perspectiva do desenvolvimento de plataformas que consolidam cada vez mais estímulos de entretenimento, não é difícil perceber que há uma tentativa de nos levar para longe da Realidade. Os problemas mundiais de todos os níveis, por mais sérios que sejam, passam sem tanta atenção, ou mesmo, dada a forma como são divulgados, acabam levantando mais poeira sobre os fatos. Não temos muita segurança alimentar e, menos ainda, segurança psicológica. Acabamos nos enredando num turbilhão que envolve diuturnamente a satisfação dos sentidos e a garantia de um senso de “eu” que há milênios nunca conseguimos entender nem lidar da melhor maneira.

Quem somos nós? Para onde estamos indo?

Essas perguntas viraram um clichê e caíram no marasmo do que pode ser confundido com um certo fanatismo utópico. Mas o que está acontecendo com a Realidade enquanto você lê essas linhas? Essa pergunta não parece tão impossível de ser respondida como as acima, e responder ela também as responde. Basta pararmos um pouco para compreendermos que não estamos de todo cientes de nossos corpos, tampouco das nossas mentes. E menos ainda do mundo que nos rodeia.

Apontar essas coisas não é novidade, como também não é novidade que, em meio à ilusão e à miséria crescente, há também, embora desproporcional, uma busca e tentativa pela liberação e pela sincera atenção. Ao tempo que nos preocupamos como determinado shampoo vai deixar mais sedosos os nossos cabelos, esquecemos de perceber que há todo um processo químico poluente na fabricação das centenas de milhares de marcas de shampoos. A compreensão e a atenção plena não passam de conceitos vazios e pouquíssimos praticados, uma vez que o julgamento tomou posse do controle da mente e tem, indiscriminadamente, possuído os seres humanos, mesmo os que rogam e dizem estarem salvos.

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A neurose tem sido o resultado de uma carência de amor sem precedentes, já que não o conhecemos, tampouco somos permitidos de nos aproximar dele, senão teríamos liberdade e isso seria desastroso para o tão bem executado plano do julgamento. Pior que isso, a palavra amor foi esvaziada do seu significado central para que não pudéssemos nos aproximar daquilo que ela implica na sua totalidade. Vamos nos tornando cada vez mais mendigos que sobrevivem de migalhas de prazer e consideram satisfatório tê-las ao menos para suprir uma promessa vaga da felicidade plena, da qual não temos certeza. Vivemos de apostar que conseguiremos algo, seja uma casa melhor, ou um carro melhor, ou uma saúde melhor, e investimos nisso a nossa energia tão preciosa.

Então, mais cedo ou mais tarde, aquela sensação de vazio completo e o desespero de ter que encarar toda a fantasia desmoronar aparecem em nossas vidas. Cotidianamente há pessoas tomando Rivotril ou usando outras drogas, lícitas ou não, para tentar aplacar essa sensação que tem parecido mórbida e cruel para milhões de pessoas.

Mas, se investigarmos melhor, poderíamos perceber que não é de todo ruim uma despersonalização. Afinal, olhar para si mesmo como um estranho, ou para seus pais, ou amigos, leva a uma consideração manifestadamente real. Nos faz perceber que o Universo funciona para além das nossas tendências mentais habituais e que não somos o centro de tudo. Dá a chance para olharmos a coisa como ela é, sentir como é. Ter ciência disso envolve o desenvolvimento de uma saúde mental intrínseca e uma boa dose de racionalidade; é perceber que determinadas reações da mente ao estresse e à ansiedade soam como uma febre mental.

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O desespero instantâneo ao perder a identificação da personalidade é natural. Mas, ainda mais natural é a realidade de que não somos aquilo que pensamos ser e nem sabemos dos outros, apenas temos julgado. A forte catarse que envolve esse processo é desafiadora aos seres humanos, mas mostra um caminho como um dedo apontando para a Lua, nos ensinando a voltar para casa e a reconhecermos a nossa natureza. Não é fácil, tampouco menos doloroso para quem quer que seja, mas parece ter sido o resultado entre causas e efeitos.

A prática da atenção plena, isto é, a mente não focada, amplamente aberta, não-dual e sem julgamentos, já implica em um determinado grau de despersonalização. Isso leva a uma consideração sobre o que é espiritualidade e sobre o que é ser pessoa humana. Leva também a questionamentos sobre como agir no mundo e toda uma série de questões que envolvem desde a ideia de competitividade, muito destacada com prioridade no desenvolvimento humano, até as noções de responsabilidade. Mas, basta considerar a relação harmoniosa, empiricamente comprovada, deste tipo de prática para que se derrube por terra essas questões, demonstrando que ordem, bom senso e destacada compaixão são atributos muito mais relevantes na formação de personalidades sadias do que cobranças para manutenção de um estado das coisas onde impera doença, sofrimento e medo.

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Nós somos a chance do mundo

Nossa mudança significa a mudança desses padrões desordenados que criam todo tipo de horror. Aqueles que percebem e que estão cientes disso devem tomar para si as armaduras necessárias para entrar em linha de batalha. Crer cegamente já tem mostrado que não é a melhor forma de mudar; também a ciência não tem sido capaz de acompanhar, nem tem tido chances de sorver as avalanches que temos criado. Somos senhoras e senhores do nosso agora, detentores de um poder sem igual quando agimos sem nos colocarmos no centro, e é disso que precisamos. Está quase tarde para abrirmos os olhos, a mente e o coração para a realidade e sermos o que o Universo invoca em nós. Não temer, não julgar e sempre sorrir. Fazer tudo que podemos fazer depois de termos descobertos que não somos tudo aquilo. Então, poderemos dormir mais em paz, com a certeza de que estamos criando causas e condições para benefícios futuros. Parece assustador, mas é emocionantemente belo.


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Sobre o autor

Francicleiton Cardoso

Francicleiton Cardoso

Jornalista deseducado pelo zen-budismo. Grato pela existência da sabedoria oriental e de tudo que ela proporcionou sobre a filosofia da mente em um sentido advaita, sem falar sobre a imensurável contribuição do Tantra e da Yoga, legado indispensável. Tem formação em psicologia do eu profundo e direitos humanos. Terapeuta Floral e Reikiano.

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