Autoconhecimento Comportamento

Era uma vez…

Mulher com expressão de indecisão e coroa na cabeça
Andrea Ralize
Escrito por Andrea Ralize

Era uma vez uma princesa que já não era uma garota. Era uma mulher. E nessa história não havia príncipe encantado, fada madrinha, bruxa, anões, maçã encantada, tranças, torre, só solidão…

Muitas vezes ela se perdeu em sonhos produzidos por suas expectativas, que eram confusas e sem cor, quase um assombro. Via o mundo como um dragão querendo a todo instante destruí-la por inteiro, como se fosse uma tora de madeira da floresta depois de um incêndio de verão tardio. Mas esse dragão comumente se travestia de gatinho carinhoso, passeando por entre suas pernas com uma cauda sedosa, ela se iludia, se sentia amada por um instante, e seu coração nutria uma esperança pura de ser feliz.

Os sonhos gerados pelas expectativas da princesa eram vãos, nunca se realizavam de verdade. E, apesar de saber disso inconscientemente, continuava se enganando com o nevoeiro de sentimentos confusos que circulavam por sua visão, confundindo a percepção dos vultos que insistiam em surgir e surgir e surgir e surgir… mas eram apenas vultos, tão distantes, impossível de serem tocados… uma miragem azulada de luz… uma sombra gelada de vida…

Meio rosto de mulher com coroa de princesa na cabeça e olhos fechados
Foto: Pixabay

E a princesa continuava seguindo pelo caminho, perseguindo ilusões tênues, enquanto passava o tempo lutando para sobreviver… construiu muitos copos, pratos, vasos, cinzeiros, potes, canecas, tigelas de barro… objetos tão lindos, tão perfeitos, tão rebuscados… mas ela não via.

A princesa não via e não acreditava em seu talento, não se considerava merecedora de elogios, aplausos, não aceitava pagamento, dava de graça seu próprio sangue. Fazia sua arte, manipulava o barro, moldava a forma da vida, criava outras vidas, machucava os dedos e via os calos surgindo aos poucos. À noite, sempre voltava cansada para o castelo e dormia profundamente. Não sonhava. Afinal, já o fazia acordada dia após dia. Na madrugada, resta-lhe apenas se deixar levar pela respiração que a embalava em descanso profundo.

Mulher dançando em grama com vestido de princesa
Foto: Pixabay | AdinaVoicu

Os dias se repetiram por meses, anos, décadas… e ela olhava para trás e via um caminho crescendo cada vez mais, um caminho construído pelos objetos de barro. Eram tantos, inúmeros… foram sempre preciosamente importantes para sua sobrevivência, mas mesmo assim ela ainda não lhes dava nenhum valor. De repente ela se percebeu enrugada demais. Olhou-se no reflexo do rio e se assustou com o que viu… deu conta de ter perdido tanto tempo, que não havia mais como conquistar nenhum dos sonhos do início da história. Descobriu que se tornou uma colecionadora de expectativas… esperou… esperou… o que esperar agora?

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Não há nada mais. Ou há tudo. Suas mãos cansadas conhecem apenas a língua do barro… molda-o então, pela última vez, e constrói uma escada imensamente íngreme e surpreendentemente alta… e, a cada degrau, mais se afasta da terra, mais perto do céu ela chega… e o céu é tão azul!

O céu tem mistérios que nunca antes tinha notado, cores, brilhos, nuances, ar puro, liberdade, sol, lua, estrelas…

Era uma vez uma princesa que já não era uma garota. Era uma mulher. E nessa história não havia príncipe encantado, só imensidão…

Sobre o autor

Andrea Ralize

Andrea Ralize

Escorpiana, professora de filosofia, revisora de textos, mãe de três seres de luz, praticante de yoga, estudante de Vedanta e, nas horas vagas, escritora de fragmentos da vida.

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