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Marcelo Gleiser: Quem é o cientista que une ciência e espiritualidade

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Escrito por Eu Sem Fronteiras

Em meio a uma guerra silenciosa entre pessoas que acreditam na Ciência contra quem acredita na espiritualidade, sábio mesmo é quem sabe aproveitar o melhor dos dois mundos. Assim como existem muitas coisas da vida que não podemos explicar ou entender, e a espiritualidade nos traz conforto e reflexões, a Ciência, como um complemento vital, pode estudar tecnicamente e apontar as causas para tais efeitos que se dão na Terra, nos animais e nos humanos e suas origens.

Nós temos livre arbítrio?

A evolução é unidirecional? Somos imortais? O universo foi criado? O que é o amor? São algumas perguntas que baseiam a Fundação John Templeton, que, segundo a descrição do site oficial, existe para que as pessoas compreendam mais profundamente o Universo e tenham noção do seu lugar no mundo. Isso também nos faz entender a importância de trabalhar com Ciência e espiritualidade juntas, contrariando a ideia de que ambas são extremos opostos.

Em 29 de maio, na cidade de Nova York, o renomado físico e astrônomo Marcelo Gleiser recebeu o Prêmio Templeton de 2019. A premiação, criada em 1972, é considerada como o “Oscar da espiritualidade” e é dada a personalidades que contribuíram para afirmar a dimensão espiritual da vida, já tendo sido concedido a nomes como Madre Teresa de Calcutá (1973) e Dalai Lama (2012). Gleiser foi o primeiro latino-americano a ganhar a premiação, que rendeu para ele nada mais, nada menos que 1,1 milhão de libras esterlinas – o equivalente a 5,5 milhões de reais.

Marcelo Gleiser

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Na cerimônia de premiação, Gleiser disse que “precisamos ir além das divisões que têm sido problema real no mundo moderno”, que “precisamos nos unir”, e que quer “dedicar os próximos anos e a honra do prêmio para criar o censo moral de que estamos juntos, que temos que salvar o planeta, a vida, e tudo o que temos.”

Quem é Marcelo Gleiser?

Marcelo, nascido em 19 de março de 1959, é formado em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), tornou-se mestre em Física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1982 e obteve o doutorado em Cosmologia no King’s College London, na Inglaterra, em 1986. Fez estágio de pós-doutorado na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, e no Fermilab (Fermi National Accelerator Laboratory) – um dos mais importantes laboratórios de Física de Partículas do mundo –, ambos nos Estados Unidos.

Hoje, com 60 anos, Gleiser é professor de Física e Astronomia no Dartmouth College (EUA) e ganhou reconhecimento internacional por meio de seus livros, artigos, blogs, documentários e conferências, em que apresenta a Ciência como uma ferramenta que ajuda a entender as origens do Universo e da vida. E as reflexões vão muito além do que pode ser respondido com “42”, como na série de livros “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams. Por mais de 35 anos, o brasileiro examinou uma série de tópicos, que vão desde o comportamento de campos quânticos até a cosmologia do universo. Suas teorias já contam com mais de 100 artigos revisados e publicados.

Para o cientista brasileiro, a Ciência é o “engajamento com o mistério” e é primordial para entender a condição da humanidade. Seus trabalhos defendem que a Ciência moderna trouxe a humanidade de volta ao “centro” da criação – o que ele chama de “humanocentrismo”. Ou seja, quanto mais nós conhecemos o Universo, mais podemos entender a raridade que é ser humano.

Marcelo Gleiser e Prêmio Templeton

Já no assunto espiritualidade, Gleiser considera que isso seja algo muito mais amplo do que a religião como instituição, tanto que ele se considera agnóstico ateísta (que acredita numa força que nos rege, mas que não é possível provar sua existência): “Tem a ver com a nossa relação com o mistério da existência e que transcende questões como: ‘Em que Deus você acredita?’ ou ‘Que igreja você frequenta?’”, explicou em entrevista ao jornal “O Globo”.

Em seus livros mais recentes, como “A Ilha do Conhecimento” e “A Simples Beleza do Inesperado”, Gleiser passou a discutir a ideia de que existem limites para o que a Ciência e a razão humanas possam descobrir sobre o Universo: “A gente nunca vai poder ter um conhecimento final sobre o Universo, mas eu enxergo isso como uma coisa positiva. A Ciência é um flerte com o mistério. Einstein definia isso como o sentimento religioso cósmico, que seria a fonte de toda a arte e de toda a Ciência”, afirmou à “Folha de S.Paulo”.

De acordo com a Fundação Templeton, Gleiser é uma voz importante entre os cientistas que rejeitam a noção de que apenas a Ciência pode trazer as verdades fundamentais sobre a natureza da realidade. Inclusive, em suas obras é possível notar o crescente ceticismo do físico em relação a uma suposta perfeição matemática da natureza. Ao contrário, Gleiser busca celebrar as imperfeições, assimetrias e desequilíbrios presentes na realidade. Ele também é um grande nome no estudo da Astrobiologia, em que se estuda a origem da vida na Terra.

Marcelo Gleiser

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Antes de receber o Prêmio Templeton, Gleiser, que além de cientista é professor, escritor e roteirista, também conquistou gratificações no Brasil: em 1998, recebeu o Prêmio Jabuti, pelo seu primeiro livro “A Dança do Universo”; e em 2002, por “O Fim da Terra e do Céu”. Marcelo ainda foi colunista do jornal “Folha de S.Paulo”, e em 2006 apresentou uma série em 12 episódios sobre Cosmologia no programa “Fantástico”, da TV Globo. Em 2007, foi eleito membro da Academia Brasileira de Filosofia, além de ser membro e ex-conselheiro-geral da American Physical Society, segunda maior organização de físicos do mundo, contando com 46 mil membros.

Em 1994, o físico foi um dos responsáveis pela descoberta dos “oscillons” – pequenos e persistentes “aglomerados” de energia feitos de muitas partículas. Isso continua sendo parte de suas investigações. Atualmente, ele também se dedica a explorar como a estabilidade de sistemas físicos – desde escalas subatômicas até astrofísicas – está codificada na complexidade de suas formas.

Você deve estar se perguntando como um físico e astrônomo pode contribuir com a espiritualidade, e aqui está a resposta: enquanto na obra acadêmica Gleiser se debruça sobre números, gráficos e tabelas em busca de pistas que ajudem a desvendar a formação do Universo, na atuação pública ele expande a interpretação das tais evidências em busca da resposta à grande questão da humanidade: “Afinal, quem somos?”.

Em muitas de suas obras, Gleiser procura reforçar o vínculo entre Ciência e Filosofia. Em “A Simples Beleza do Inesperado” (2016), escreveu: “Como cientista, tenho o privilégio de viajar pelo mundo, participando de conferências de todos os tipos, incluindo tópicos que vão da origem do Universo à origem da vida, do significado filosófico das leis da Natureza à relação entre ciência e religião”. Assim sendo, Marcelo Gleiser é uma das principais referências para a reflexão da união entre Ciência e espiritualidade: “(…) Eu tento mostrar para as pessoas o fascínio que é nossa relação com a natureza. Nesse lugar eu resgato o que eu chamaria de espiritualidade no processo da busca científica.”, disse o cientista ao jornal “O Globo”.

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