Convivendo

No território das “ONAS”

Wal Reis
Escrito por Wal Reis

Outro dia assisti um episódio de uma série que me diverte um pouco. Digo “um pouco” porque sou meio chata com comédia. É bem difícil alguma coisa pré-fabricada me fazer chorar de rir e não porque eu seja mal-humorada, ao contrário, é que sou metida a comediante também. Talvez por isso a piada óbvia não me cause nenhum efeito.

Mas essa série da Monica Martelli (‘Os Homens são de Marte’, GNT) tem uns aspectos comportamentais bem caricatos e, por isso, como há certa identificação, fica engraçado. Para quem nunca viu, os episódios falam do cotidiano de uma carioca, na casa de seus 45 anos, separada e com uma filha pequena, que tenta um equilíbrio entre relacionamentos amorosos, casa, trabalho, ser bonita, corpo mudando com a idade, se manter up-to-date, estar presente na vida dos amigos, fazer a unha, etc. Ou seja: conflitos cotidianos bem comuns para todas nós.

Beautiful sexy young caucasian woman looking into makeup mirror at herself and enjoying her time.

Em um dos episódios, ela está recomeçando a vida de solteira na pista, após um relacionamento estável, e conhece um garotão de praia. Eles saem, transam sem compromisso e ela morre de rir quando ele a define como “gostosONA”. Eu também ri. A definição da atriz/personagem é exata: depois dos 40 não somos mais “gatinhas”, “fofinhas”, “amorzinho”. Somos “ONAS”: gostosONAS, bonitONAS, gatONAS, descoladONAS e, às vezes, vacONAS, biscatONAS  e por aí vai…  

A personagem termina o episódio se sentindo confortável com o novo rótulo. Mas, neste ponto, divergimos.

Já vinha observando que este sufixo está cada vez mais presente nas referências à minha pessoa e das quarentONAS em diante. E, por mais que saiba tratar-se de uma tentativa de elogio, não sei… não me soa bem. Fico com aquele sorriso pregado no rosto, meio sem reação e agradeço automaticamente, sem muita convicção se há o que agradecer, enquanto tento entender porque o território das ONAS não me é confortável.  

Talvez porque a real intenção seja expressar que, apesar da idade avançada, você continua surpreendentemente inteira. Ou inteirONA. É como se ganhássemos imunidade parlamentar: Nem tudo precisa estar no lugar, você não precisa mais ser perfeitinha(inha) porque, nessa idade… vamos combinar, né? Já tá no lucro.

É tipo um choque de realidade, principalmente para quem pesava 47 quilos até os 28 anos. Nada em mim nunca foi “ão” ou ONA. E a autoimagem é uma vilã que te desafia o tempo todo, porque mesmo definitivamente “ONA”, ainda me acho “inha”. Não posso culpar meus interlocutores pelo título, afinal, eu persegui formas mais avantajadas por caminhos ortodoxos e outros nem tanto. Academias de várias modalidades tiveram sua participação especial no formato ONA e deixaram sequelas (sequelonas) nos joelhos. Outro dia quase engasguei ao ver uma foto marcada no Facebook. Quem era aquela lutadora de sumô usando o meu vestido?

Há algumas semanas, em uma loja, a animada vendedora que vestia roupas tamanho F (feto) tentava me convencer de que a saia que eu experimentava estava ok. Respondi evasivamente, mais para o espelho do que para ela: “Não sei… se fosse quatro dedos mais longa…” e ela desesperadamente, para não perder a venda, disse: “mas por quê? Com essas pernONAS?” Obviamente, o efeito foi rebote. A saia ficou. E levei minhas pernINHAS para longe daquela blasfêmia.

Sobre o autor

Wal Reis

Wal Reis

Oi, prazer, sou a Wal. Comecei como Waldely, mas, cada vez mais, acho que a vida deve ser minimalista. Principalmente quando te colocam um nome que dá confusão de gênero, número e grau. Convivia como uma série de alter egos – Wanderly, Waldecy, Wanderley e Waldemar – até adotar o apelido de infância para íntimos e não íntimos.

Formada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo, minha experiência profissional inclui rádio, revista e jornal. Nesse último meu apego foi maior. Deixei as redações em 2000, quando a comunicação corporativa me pegou pela perna. Relutei muito, confesso. Chatinha de nascença, achava que aquilo seria a extrema unção do meu diploma. Mas descobri um segmento cheio de oportunidades, que minha cegueira idealista não me deixava ver. Há dez anos, já pronta para deixar o ninho, alcei vôo solo e eis-me aqui fazendo o que mais gosto: geração de conteúdo (leia-se textos, textos e mais textos). Trabalho dessa forma para empresas que precisam transformar informações em relatos para seus diferentes públicos.

No território escrever sobre o que mais gosto, palpitar na vida dos outros está ali. Também tenho uma quedinha por ir na contramão do que todo mundo acha certo. O “todo mundo” me incomoda, assim como o “certo”. Por isso, vivo uma incansável busca pelo avesso. Porque ali sempre estão as melhores respostas.