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Brincar: Esse é o território da criança

Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Entrevista exclusiva com os responsáveis pelo projeto e o documentário Território de Brincar

Brincar é imaginar um mundo próprio. É cruzar experiência ou a falta dela com a imaginação. Brincar é inventar o seu canto, com ou sem a companhia de outras crianças.

Ao brincar a criança desenvolve sua capacidade de interpretar, criar e fantasiar. Se brincar é importante? Sim, e como. Mas quais são as brincadeiras das crianças? E pelo Brasil, do que as crianças brincam? Com o objetivo de fazer uma troca de saberes e ainda uma difusão das culturas das brincadeiras no País, a cineasta, diretora, roteirista e produtora do filme Território do Brincar, Renata Meirelles, nos concedeu uma entrevista, onde fala sobre o documentário e a proposta do trabalho.

Confira abaixo a entrevista:

Eu sem Fronteiras – O que é o Território de Brincar?

Renata Meirelles – O projeto Território do Brincar é um trabalho de escuta, intercâmbio de saberes, registro e difusão da cultura infantil. Entre abril de 2012 e dezembro de 2013, o documentarista David Reeks e eu, acompanhados de nossos filhos, percorremos o Brasil para nos aproximar da realidade infantil atual do nosso País. O trabalho do Território do Brincar se amplia ainda mais pela parceria firmada com o Instituto Alana, que é o correalizador do projeto. Há também a parceria com seis escolas que acompanharam em tempo real o trabalho de campo da equipe e criaram um diálogo mensal com a equipe do Território do Brincar, via teleconferência, como formação continuada de seus educadores. E pelo apoio da Aliança pela Infância e outras pessoas e organizações que muito enriquecem essa história.

O Projeto desenvolve produções audiovisuais, séries para TV, livros, exposições, cursos e palestras difundindo a pesquisa pautada no olhar e no compreender a criança a partir dela mesma, dentro de sua expressão genuína do brincar. O filme de longa metragem “Território do Brincar” foi lançado em maio desse ano e já foi exibido em todas as regiões brasileiras. Dando continuidade a essa pesquisa, a equipe do Território do Brincar seguirá rumo a terras distantes, além das fronteiras nacionais, e continuará produzindo materiais que tragam a infância de todos nós para dentro de escolas, instituições e famílias.

Eu sem Fronteiras – Quais os objetivos deste projeto?

Renata Meirelles – Percorrer o Brasil de Norte a Sul com a ideia de revelar todos nós por meio dos gestos das crianças. Foi com esse objetivo que percorremos o Brasil durante os anos de 2012 e 2013 com o pé na estrada e uma câmera nas mãos. O projeto Território do Brincar, trabalha com o modo de olhar para a criança e seu jeito de brincar, focando no que há de mais belo e potente na infância. Uma opção por traduzir as vertentes mais fortes da infância, ao invés de permanecer discutindo e analisando os seus problemas e dificuldades, que certamente são muitos e importante discutir. Porém a opção desse Projeto é por olhar o lado saudável da criança e aprender como lidar com ela a partir do que elas nos dizem de si. Observar o brincar profundamente nos ensina não só sobre a infância, mas sobre o ser humano de maneira geral.

No documentário de longa metragem “Território do Brincar”, uma coprodução da Maria Farinha Filmes e Ludus Vídeos e Cultura, estamos  falando de todos nós por meio do brincar infantil, como se pudéssemos fazer um retrato humano através dessas brincadeiras que dizem respeito a arquétipos e a um inconsciente coletivo do homem.

ESF  – Vocês acham que as crianças estão brincando menos (principalmente nas cidades maiores?) já que o percurso de vocês foi mais para outras regiões?

Renata Meirelles – Primeiramente é preciso comunicar ao mundo que, ao contrário do que dizem a maioria dos adultos, as crianças brincam, sim. Esse mantra do adulto de que “A criança de hoje em dia não sabe mais brincar” é um reflexo claro de que não sabemos mais olhar a criança. Em última instância, quanto mais acreditarmos que as crianças não brincam, mais teremos que ocupar seu tempo ocioso com serviços, cursos ou instituições, e consumir brinquedos e aparelhos eletrônicos. E isso nos leva a consolidar o fator de redução de tempo e espaços do brincar infantil.

Quem vive cerceado de tempo livre, não saberá usufruir dele. Da mesma forma com o espaço. Isso, porém, não significa que crianças de grandes metrópoles não estejam tendo a chance de viver relações profundas com o uso de seu tempo e, que vivam apenas cerceadas de espaços significativos para o brincar.  Os valores de cada família são definidores de espaços e tempos internos, que se sobressaem aos tempos e espaços reais. Quem oferece tempo semeia isso nas crianças, e essas por sua vez, retribuem na mesma moeda. Ou seja, de um modo geral, crianças que não estão recebendo uma carga intensa de propostas e deveres, sejam institucionais ou não, e usufruem da liberdade do ócio, tendem  a viver  tempos alongados e estão mais conectadas com seus próprios desejos e buscas pessoais.

ESF – Como é para você ‘viajar’ pelo país e conhecer as diversas brincadeiras das crianças?

Renata Meirelles – Desde 1996, vivo esse encontro com crianças das mais diversas regiões brasileiras, em um intenso intercâmbio de brinquedos e brincadeiras. Em 2000, conheci David Reeks e juntos, criamos o  projeto  BIRA – Brincadeiras infantis da região amazônica. Em 2001, partimos para a Amazônia e percorremos 16 comunidades indígenas e ribeirinhas do Amapá, Pará, Amazonas, Roraima e Acre. Com os registros do BIRA produzimos diversos filmes de curta-metragem, premiados em vários festivais de cinema e o livro Giramundo, pela Editora Terceiro Nome, vencedor do Prêmio Jabuti em 2008.  Em 2012 nasceu o Projeto Território do Brincar no qual viajamos por 21 meses consecutivos, visitando nove Estados brasileiros e nos aproximando ainda mais do cotidiano infantil.  Com essas experiências estamos percebendo que as brincadeiras se repetem, como se existisse certos “temas” que precisam ser vividos pelas crianças e a elas cabe tentar achar a melhor forma de experimentá-los.

Brincar de casinha, usar arminhas, brincar com carrinhos e barcos, se esconder e ser achado, pular corda, amarelinha, jogos simbólicos, etc, representa um repertório que espelha a criança para além de regionalismos. São brincadeiras universais que representa a todos nós, independente da cultura que estamos inseridos.

ESF – Como foi a produção do documentário?

Renata Meirelles Existe outro filme por detrás do desenrolar de uma produção de longa-metragem. Uma história de um processo intenso que não aparece na tela. Os desafios na produção desse documentário foram das mais diversas ordens. Mas o principal deles foi deixar que a criança diga de si, sem escapar para o espectador sutilezas e temas, que são tão caros a esse projeto. Captar e transmitir a espontaneidade infantil é o nosso grande desafio.

O Território do Brincar busca construir uma linguagem cinematográfica que não visa explicar, ser didática ou mesmo provocar discussões sobre o certo e errado na educação. Nesse longa metragem o foco é sensibilizar o adulto para que ele consiga se ver “contado” por essas tantas crianças. Diferente de querer se colocar no lugar da criança para entendê-la, ou explicá-la, o desafio aqui é saber olhá-la. Como a enxergamos pode transformar nossas atitudes frente a elas. Para isso o que é óbvio e passado desapercebido, recebe uma nova forma de ser visto, ganha protagonismo, e muda nossa atitude de vê-la. As crianças no Território do Brincar guiam nossos olhares e caminhos, e a câmera corre (literalmente), para focar suas expressões, espontaneidades e subjetividades. A escuta é atenta, para que se apresentem a partir delas mesmas, sem pré-roteiros ou expectativas. O imprevisível e inusitado é parte fundamental dessa história.

ESF – Há muitas crianças brincando e inventando seus brinquedos?

Renata Meirelles – O Brasil é um país da diversidade, das inúmeras possibilidades de se viver e isso podemos sentir no brincar das crianças. Há milhares de crianças inventando as mais diversas formas do brincar. Crianças que constroem carrinhos, barquinhos, ou inventam formas de brincar com restos, sucatas e objetos da natureza. Criam casinhas, esconderijos, engenhocas, caçam insetos, calangos, tatu bolinhas, têm um imaginário rico, vasto, potente.

E isso é possível se ver em todos os contextos e classes sociais. Há formas diversificadas de fazer coisas semelhantes. Um bom exemplo disso são os meninos das mais diversas regiões brincando com seus carrinhos. Algo óbvio, simples e de conhecimento geral de todos. Construídos pelos meninos, montados com peças industrializadas ou comprados prontos em lojas, o desejo por esses brinquedos é absolutamente intrínseco ao menino, muito mais do que as meninas. O gesto recorrente de empurrar, puxar ou dar vida aos carros, barcos, aviões, trens etc. não é de uma região específica ou de uma época datada. Por isso, para além do carro em si, nossa opção é por mostrar o desejo coletivo do menino de ir, seguir, transitar. 

ESF – O que acham dos brinquedos prontos?

Renata Meirelles – O brinquedo pronto reflete o olhar de um adulto, de uma indústria, de um saber específico. Existem brinquedos incríveis que ampliam e potencializam o imaginário infantil, assim como existem brinquedos com restrições de uso e respostas limitadas, que estão muito aquém às capacidades infantis. Ter em casa apenas o pronto, o brinquedo industrializado pode restringir o intenso diálogo com o mundo proposto pela própria criança. 

ESF – Por quais lugares passaram e o que mais chamou a atenção?

Renata Meirelles – Visitamos comunidades rurais, indígenas, quilombolas, grandes metrópoles, sertão e litoral, revelando o país através dos olhos de nossas crianças. Registramos as sutilezas da espontaneidade do brincar, que nos apresenta a criança a partir dela mesma. Em cada encontro surgiam intensas trocas e diálogos, por meio de gestos, expressões e saberes que foram cuidadosamente registrados em filmes, fotos, textos e áudios. Foi um intercâmbio onde pesquisadores e crianças se encontraram no fazer e no brincar, sempre aprendendo um com o outro.  O que encanta os olhos desse Projeto é perceber como a criança tem um brincar potente, sério e estruturante para eles. Não é possível medir ou dimensionar o mais intenso, ou a melhor forma de brincar. A busca é para o que nos liga a todos, os arquétipos vividos pelas crianças em seus momentos mais espontâneos, e isso é universal e atemporal.

ESF  – Quais os próximos passos?

Renata Meirelles – Recentemente lançamos o livro e documentário chamado “Território do Brincar: diálogos com Escolas”.  As produções são fruto da aproximação do Projeto Território do Brincar com escolas brasileiras, têm como objetivo inspirar educadores para o desenvolvimento de um olhar sensível ao brincar da criança na escola. O material também tem como propósito sugerir políticas públicas e a formação dos professores de educação infantil e fundamental primeiro por meio de parcerias com secretarias de educação e universidades.  O documentário, de 26 minutos, traz relatos de seis escolas que participaram da iniciativa, enquanto o livro, artigos escritos por membros do Conselho Inspirador do projeto. O documentário estará disponível em DVD dentro do livro, junto com os curtas-metragens produzidos pelo Território.

A ideia, porém, é que essa experiência possa atingir não apenas seis, mas todas as escolas brasileiras. Com esse objetivo, foi lançado, na mesma ocasião, o Território em Rede, uma comunidade de aprendizagem que, a partir de 2016, buscará continuar esse diálogo com as escolas, construindo um espaço de sensibilização para o brincar, de sistematização de experiências, troca entre diferentes atores e instituições e de contribuição para a formação de educadores. 

Em breve voltaremos a estrada dando continuidade ao registro das tantas infâncias que nos cercam e tanto tem a nos ensinar. Nessa próxima etapa de viagem seguiremos rumo internacional, dialogando com as crianças de mundos distantes, porém, com aspectos que podem ser reconhecidos por todos nós.


• Entrevista realizada por Angelica Weise da Equipe Eu Sem Fronteiras

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