Convivendo

Olhares

Thiane Avila
Escrito por Thiane Avila
Os olhares, hoje sei, sentem sede. São muitas vezes indigestos, flagelados e grosseiros. Sofrem amálgamas das rotinas, transformam a poeira em melodia e ainda fazem dos sentidos uma proposição para não se parar de arriscar. Sentimos na pele as sensações postas para amar, sentenciando as certezas como estupidezes de uma chacina de jovens anciãos. Não fazemos parte, amanhecemos como que em um massacre, enunciando como primeira frase a necessidade de aceitação.

Trocamos virtudes, corrompemos laços. Somos desiguais e julgamos os fracos. Nossa redenção pressupõe a ancoragem das indigestões alheias, como se precisássemos provar o porquê de cada pergunta mal feita. Não é pelo desgaste que desistimos de certas desilusões, mas pela entrada na rotina cuja frequência renuncia as próprias predileções. Intrigados e enfeitiçados, cantamos, alijados, as correspondências prósperas e etéreas. No mapa prorrogado das ondulações postas em linearidade, induzimos as frequências e ditamos, falseados, as verdadeiras quimeras.

Não é pelo desgaste que desistimos de certas desilusões, mas pela entrada na rotina.

Sabemos das profanações de espírito que corroem os ossos de quem não se liquida por querer, mas a verdade é que a luta interna, dobrada e escondida em uma cela, torna apta a falta de costume sobre, de vez em quando, se desfazer. Sem lugar para as mutações, promulgando no ócio as punições por desanimar, desbaratinamos em trabalho, colocamos as prioridades de vida no assoalho, e voltamos aos horários que justificam o nunca descansar.

Sem perguntas e com respostas, desenhamos as razões que dispensam dúvidas. Angariando os postos fúnebres, alimentamos a alma com a sombra do que não permite que ela permaneça nua. Assim, pelas vilas e ruelas de cicatrizes abertas, alimentamos a dor como prerrogativa da espera. Exaustos do caminho, mas aparentemente ainda mais pela mudança. Sabemos os males, identificamos os desencaixes e continuamos transbordando nas lotações viciadas. Com capuzes e sem distinção, segmentamos as vistas pelo poder das lutas mascaradas.

Enganamo-nos, pois, ao gritar honestidade às mentiras de espírito. Somos de alma podre quando amanhecemos sorrateiros, como quem promete segurança em meio ao próprio limbo. As dosagens incertas de uma rotina sem porquês, dando ao nada a vista liberta de qualquer coisa que afaste essa pressa de morrer. Dos sentidos enaltecidos, os mais recôncavos para louvar. Temos habilidade em desimportâncias, dando valor ao que já não se pode mais abraçar.

Sobre o autor

Thiane Avila

Thiane Avila

Com experiência na área da educação, Thiane já ministrou aulas particulares de Língua Inglesa e Portuguesa, bem como atuou em escolas de idiomas. Estudante de relações públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, também cursa teatro e é colunista de uma Revista em sua cidade natal, Gravataí, além de colaborar com outras plataformas virtuais literárias.

A escrita já rendeu algumas premiações nacionais e participações em coletâneas. Os prêmios recebidos contemplam o 3º lugar no Concurso Literário Icozeiro (julho de 2014), o certificado de Qualidade Literária pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores (maio de 2015) e o reconhecimento pelo Conselho Editorial da Câmara Brasileira de Jovens Escritores do Rio de Janeira pela qualidade literária da obra selecionada para publicação nas edições de maio de 2015.

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Site: Jundiaí Online

Participação nas seguintes coletâneas: “Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos” Volume 124 e “Poemas descalços na noite serena” – ambos pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores.