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Perdoar ou não; eis a questão!

Duas mulheres se abraçando forte como pedido de perdão
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Luiz Roberto Bodstein

Algumas posturas conseguem apresentar tal diversidade de entendimento que até pelo viés das religiões existe muita discordância quanto ao conceito de certo e errado aplicado a elas, e uma dessas é o ato do perdão. Ainda que, de um modo geral, ele se mostre revestido de um sentido de benefício, tanto a quem o oferece quanto a quem o recebe, para se pregar sua prática como importante quesito da paz interior, pela ótica dos relacionamentos humanos tal entendimento nem sempre se mostra como verdade absoluta. Isso porque a ação nociva e rotineira de alguém pode transformar o ato caridoso numa conta alta demais, não apenas para o agente e para o paciente do perdão mas para todos em volta, e isso apenas já seria motivo para que o tema viesse precedido de uma boa dose de reflexão, a começar pelo tipo de erro que se está querendo perdoar.

Tecnicamente, podemos considerar dois tipos de erros que as pessoas podem cometer:

O primeiro seria o chamado “erro de percurso”, aplicado àquele que todos cometemos eventualmente por qualquer razão desvinculada da intenção de levar prejuízo a outrem. São os equívocos de interpretação, algumas injustiças que cometemos por falta de informação, ou algum ato decorrente de um estado emocional fora do contexto habitual em que eventualmente nos vemos envolvidos. Já o do segundo tipo é uma consequência direta do que costumamos entender como falha de caráter, e decorre de algo intrínseco à personalidade de seu autor.

Pessoa oferecendo uma flor amarela como pedido desculpas para mulher cabisbaixa
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Diferentemente do outro, tal erro não se trataria de um ato isolado, mas de um comportamento repetitivo e contumaz, uma vez que seu autor pensa, age e se expressa de acordo com uma visão distorcida de mundo que construiu para si. São aquelas pessoas que sentem prazer em levar dor a outrem por se mostrarem refratárias ou indiferentes ao sofrimento alheio, produzindo atritos em qualquer meio social em que estejam por não se revelarem aptas ao convívio. E é quando o ato do perdão acaba se configurando como uma conta alta demais para ser paga pelo outro, independentemente do espírito amoroso que o incline à complacência.

Para aquele primeiro tipo a que chamamos de “erro de percurso”, o perdão se mostra não só razoável como até um instrumento de resgate diante do reconhecimento de não ter havido uma intenção real de prejuízo alheio por quem o cometeu, mas um equívoco meramente circunstancial. Já no segundo caso temos uma situação para a qual o perdão pode se caracterizar como um abono do malfeito, pois que não restrito a uma situação específica, mas a um comportamento habitual incompatível com o respeito que se espera entre as pessoas.

Nesta situação específica é que, na maior parte dos casos, se instala o conflito interno naqueles cuja natureza pacífica os torna propensos a oferecer perdão de forma indistinta e emocional, muito mais do que pelo lado da razão. Analisado de forma mais honesta, tais pessoas agem assim mais por si mesmas do que por aquelas a quem concedem seu perdão, devido a uma crença reinante na maioria das religiões de que “quem perdoa será perdoado”, e que só por meio do perdão incondicional é possível encontrar harmonia interna, como é proposta por praticamente todas as correntes religiosas.

Mulher de olhos fechados encostada no ombro de um homem
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A pergunta que fica é se, ao retirar o foco do contexto para colocá-lo sobre si mesmo, o resultado será realmente positivo ou se trará mais malefícios do que o suposto bem que se pretende disseminar. O pensamento tradicional diante do perdão é o da não retenção do sentimento negativo de ira ou rancor, que teoricamente apenas estenderia o malefício do erro a quem se recusasse a oferecê-lo. Por essa lógica, quem o pratica se vê tão beneficiado quanto a pessoa que o feriu. Mas será que esse mesmo sentimento dignificante se estenderia a todas as demais pessoas pela concessão do perdão ou é tratado como se fosse algo que só dissesse respeito à própria pessoa e a quem produziu o erro? O raciocínio é simples: quando se expressa o perdão a alguém que leva o mal a todos e não se impõe nenhuma correção de postura, estaremos dizendo a essa pessoa que não há nada de errado com ela, passando a ser coniventes com seus erros e diretamente responsáveis pelos próximos que ela irá cometer com os demais.

Muito bem – diria o caridoso –, mas quanto a mim? Como fico nessa difícil escolha entre negar meu melhor a quem me faz mal ou reter algo tão destrutivo dentro de mim mesmo, já que contraria minha natureza de pessoa que acredita na força do amor? Esse tipo de conflito, logicamente, requer um exercício de humildade pela visão sistêmica que deverá se sobrepor àquela outra puramente individual, e porque não dizê-lo egoísta, já que esse tipo de caridade coloca seu praticante na frente de todas as demais pessoas. A lógica do benefício é – ou pelo menos deveria ser – a da justiça, pois que quando esta não se faz presente estaremos beneficiando a alguém em especial, em detrimento do malefício levado a outrem. Será realmente que a decisão se resume a uma alternativa binária entre perdoar ou não perdoar, visto de uma forma tão simplista? Existiria uma forma de dar ao benefício do perdão uma maior amplitude, ainda que pessoas espiritualizadas tendam a achar que deveriam praticá-lo indiscriminadamente?

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Talvez a sabedoria conseguisse oferecer uma resposta melhor a essa pergunta do que a espiritualidade, a partir do momento em que não nos cobra trocar justiça por caridade, emprestando a esta última um caráter duvidoso e altamente questionável. Talvez olhar para o perdão como uma postura íntima, em lugar de externá-lo, conseguisse harmonizar todos esses conflitos internos, em lugar de dar atestado de que se passou uma borracha sobre o malfeito, especialmente quando aplicado a casos de notória falta de caráter.

Todas essas facetas – bem mais justas e menos simplistas – deveriam ser consideradas antes de tratar o perdão como algo que diga respeito apenas a quem o dá e a quem o recebe, para não lhe emprestar caráter de postura injusta e irresponsável, pois que estimula o agressor a seguir ferindo pessoas. Não é difícil, inclusive, pensá-lo como um ato mais dignificante aos olhos de Deus por representar um cuidado com o outro em vez de uma egoísta preocupação com a própria salvação.

Sobre o autor

Luiz Roberto Bodstein

Luiz Roberto Bodstein

Formado pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduado em docência do ensino superior pela Universidade Cândido Mendes. Ocupou vários cargos executivos em empresas como Trimens Consultores, Boehringer do Brasil e Estaleiro Verolme. Consultor pelo Sebrae Nacional para planejamento estratégico e docente da Fundação Getúlio Vargas e do Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear (IBQN) para Sistemas de Gestão. Especializou-se em qualidade na educação (Penn State University, EUA) e desenvolvimento gerencial (London Human Resources Institute, Inglaterra). Atualmente é diretor da Ad Modum Soluções Corporativas, tendo publicado mais de 20 livros e desenvolvido inúmeros cursos organizacionais em suas diferentes áreas de atuação. Conferencista convidado por várias instituições de ensino superior, teve vários de seus artigos publicados em revistas especializadas e jornais de grande circulação, como “O Globo”, “Diário do Comércio” e “Jornal do Brasil”.

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