Apesar do perfil claramente misógino de meu avô, que tratava sua mulher como propriedade – aquela “perfeição moldada em mutismo sem resistência” –, minha avó nunca se recuperou da morte dele, dizendo que sua vida se resumia agora a esperar pelo dia de reencontrá-lo. Lembro-me de lhe haver dito que deveria se concentrar no belo que a vida ainda iria lhe oferecer, repetindo aquele jargão que comumente se diz para quem sofre uma perda tão irreversível quanto a dela!…
Estava errado! Tentava retirar daquela mulher sofrida o único sentimento que ainda a fazia sentir-se plena: o de manter viva a imagem do homem que amou, o seu direito “fora de padrão” – e mais do que legítimo – de entender a felicidade apenas como entrega infinita, submissão consciente e renúncia a si mesma.
Penso, daí, em quantos veriam este meu distanciamento voluntário do mundo das ‘celebridades’, do desprezo por likes e holofotes, exatamente dessa forma: uma patologia que precisa ser “tratada”. Patologia: eufemismo para doença, a perda do padrão funcional desejado, seguida pela busca obrigatória de ações que o revertam. Simplesmente se descarta aqui o processo da escolha consciente, aquele direito sagrado de entender a felicidade do seu jeito, de não querer “se curar”, pois que o foco se apoia justamente em não mudar nada: apenas se deleitar com o que já está lá e torcer para que nunca mude! Em síntese: o direito de não querer se adequar à visão padronizada de um mundo que quer “consertar” tudo o que não se parece com ele!
Ninguém se pergunta se talvez a dita “diferença” não possa ir além de um processo natural, em lugar daquele padrão referendado pelo senso comum! Não se perguntam se a felicidade interior estaria submetida a uma comunidade global de filósofos, antropólogos, sociólogos e doutores da mente para retirar-lhe a legitimidade com base em “critérios inquestionáveis”. Não poderia se tratar simplesmente de uma escolha pessoal por regras próprias?
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Alguém parou para pensar que a resposta possa ser tão mais simples, singela e pessoal que dispense enquadramentos ou definições? Que quer apenas ser sentida com a intensidade que nenhum “senso comum” consegue alcançar, já que a dilui em tantas frações de “verdades” que ninguém contesta?
Imagine que se descobrir “fora do padrão” – psicológica ou socialmente falando – pode não ser patológico, mas tão somente uma opção consciente, saudável e benfazeja. Pense nisso!… Use o tempo que precisar!
