Oito horas da noite. A campainha toca. Raramente isso acontece a esta hora, para quem mora na roça como nós. Abrimos a janela, com a certeza de que deveria ser engano. Lá fora, uma van e um grito: “Teu cabrito tá chegando!” Agora ele está aqui, na banheira. Veio numa caixinha de trinta centímetros quadrados, recém-nascido, mal conheceu a mãe. Teve o azar de nascer macho, num mundo ao contrário, onde só as fêmeas são valorizadas: uma fazenda produtora de leite de cabra. Assim como muitos outros enjeitados, foi dado para a adoção. Agora ele está aqui, na banheira. Se não fosse pelos grandes olhos verdes interrogadores e as orelhas cor-de-rosa, nem se perceberia um cabritinho no fundo branco da banheira. Mas ele está aqui.
A primeira reação de quem vive entre as letras e as artes manuais e visuais foi, naturalmente, registrá-lo em palavras e cores. Ao lado do seu desenho, no caderno de artífice, a palavra: Brinquinho, seu nome. Nunca havia chegado tão perto de um cabritinho. Lá nos pampas gaúchos, onde passava algumas férias da minha infância, já havia cuidado de uma ovelhinha. Uma vez, há muitos anos, dei mamadeira para um porquinho, mas cabrito nunca. O cheiro, a princípio, impressiona. Agora, que não estou sentindo mais, pergunto: será que eu também estou cheirando assim? Provavelmente sim, aliás, a casa toda é puro xixi.
As recomendações foram poucas: duas mamadeiras por dia, de leite de vaca, uma de manhã e outra de noite. Faz frio, ele treme e usamos o nosso cobertor para agasalhá-lo. Em pouco tempo, ele também recebe sua cota de xixi. Melhor é colocar uma fralda. Por sorte, na compra do mês, eu trouxe vários sacos de algodão para fazer pano de chão. Fixo um pano, branco e limpo, com ele e a banheira, com fita crepe e vou dormir.
O bebê-cabrito chora várias vezes durante a noite. Aqueço uma bolsa de água quente e enrolo numa toalha branca. É a mãe artificial. Dá certo e consigo dormir até às seis. Pela manhã, de posse de uma mamadeira trazida às pressas pelo farmacêutico, morno o leite de saquinho. O pequeno rebelde parece não reconhecer naquilo o alimento. Insisto e nada. Saio em busca do leite de cabra. Após várias padarias, recebo uma ajuda inesperada: – “Minha mãe vende”, fala um moço que compra pão. Vou até lá.
Chego em casa com o leite… congelado! A recomendação é deixar descongelar naturalmente dentro da geladeira. E agora, o nenê-cabra não para de chorar. Consigo um pouquinho, aqueço e levo até ele. Só de sentir o cheiro, seu rabinho vira helicóptero. O faceiro toma um pouquinho e, depois do xixi e do cocô, dorme.
Pensei que fosse dar certo: mamadeiras, banho de sol, fraldas e muita alegria. Mas não. O pequeno ser recebeu nossos cuidados com aceitação, mas o principal estava faltando: seu rebanho, o calor de sua mãe, a teta quentinha jorrando o leite.
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Agora são dez horas da noite de domingo. Após três dias e três noites de diarreia e cólicas, com muita dor e choro – os cabritinhos choram como bebês humanos, ele descansou. Sua pequena cabeça branca em minhas mãos parou de respirar. Me deu falta de ar.
Nosso banho de espuma e calor nunca mais será o mesmo. Na banheira de hidromassagem, um pequeno herói morreu lutando pela sua vida que não dava lucro.
