Convivendo

“Uma questão de valores – Quando ganhar ou perder não é o mais importante”

Dentre aqueles amigos especiais que sentimos como um presente que a natureza nos reservou, para depois convertê-los em irmãos, eu tenho um que, há uma década, me proporciona trocas diárias, como se a razão desse encontro tivesse sido justamente a de possibilitar a ambos um crescimento que jamais teríamos, caso seguíssemos trajetórias distintas.

Para descrever o tanto que ele contribuiu para o meu crescimento, o conteúdo, obviamente, não caberia num texto como este; portanto, vou me limitar a um pequeno acréscimo que dei ao desenvolvimento dele, que foi introduzi-lo na experiência do xadrez. Apesar de se mostrar um expert em jogos dos mais diferentes tipos — para minha surpresa —, o que me fez descobrir que a deficiência visual dele não passava de um mero detalhe, a primeira reação foi me dizer que dificilmente se adaptaria a tantos movimentos diferentes entre as peças, e, por isso, se sentia mais confortável jogando damas.

Homens jogando damas.
grapix / Canva

O argumento, contudo, nem de longe foi suficiente para me convencer, e eu tinha motivos mais do que razoáveis em que me apoiar: apenas naquele primeiro ano e alguns meses de contato diário, ele me assombrava a cada momento com o que ia revelando sobre sua surpreendente inteligência: era capaz de derrotar muita gente boa em jogos eletrônicos acoplados à TV (que ele não podia ver) e avançava, a passos largos, no uso do computador, no qual eu instalara um programa por comando de voz. Logo descobri que, de tudo o que eu lhe ensinava, ele ampliava, em muitas vezes, o aprendizado recebido — a ponto de, em pouquíssimo tempo, já dominar completamente a máquina, até para participar das redes sociais, usando apenas seu talento nato.

Fica, então, mais fácil de entender minha resistência ao contra-argumento utilizado para não jogar xadrez. Naquele período, eu o treinava para dividir a docência das matérias que eu ministrava — uma delas sobre Planejamento Estratégico —, tal a rapidez com que ele absorvia os conteúdos, e foi fácil perceber que ele era um estrategista de mão cheia. Que pré-requisito mais consistente do que esse para se construir um enxadrista de primeira linha, a partir do simples movimento das peças?

Acostumado que eu estava a me surpreender com ele todos os dias, a cada novo aprendizado que eu lhe proporcionava, não foi surpresa alguma quando, em poucas semanas, a criatura superava seu criador, e, a partir desse dia — e ao longo dos anos seguintes —, eu levei uma sequência de “surras” no xadrez que jamais imaginara possível, impulsionadas por um “pequeno” detalhe: eu continuava dependendo de um tabuleiro e suas 32 peças para jogar, e ele, não! Exatamente isso o que você está pensando: a mente prodigiosa do meu “aprendiz” permitiu que ele, em apenas duas semanas, dispensasse o tabuleiro que eu lhe dera de presente para começar a jogar xadrez de memória, já que jogávamos a distância pelo aplicativo de mensagens, utilizando a notação das peças.

Porém, nem só de surpresas positivas foi construída a história de uma inusitada parceria de vida em torno do xadrez: na sucessão de partidas que iam acontecendo dia após dia, algo que me foi causando estranheza era o crescente entusiasmo do meu parceiro enxadrista, ao se ver ganhando todas as partidas!

Um homem dando um xeque-mate num xadrez.
Phonix_a de Getty Images / Cava

Neste ponto da narrativa, faz-se necessário abrir um parêntesis para dizer que, dentre as inúmeras qualidades desse meu amigo-irmão, a que mais me saltara aos olhos — fazendo com que nos aproximássemos tanto — foi o seu caráter. Ele personificava uma característica pessoal que eu valorizava mais do que tudo: a de nutrir respeito e admiração por pessoas íntegras, aquelas portadoras de um caráter construído sobre valores e princípios de inquestionável lisura. Acostumei-me, por conta disso, a separar os defeitos humanos em apenas duas categorias: aquela dos erros de percurso, comuns a todo e qualquer mortal, e uma relacionada a falhas de caráter — razão para não admitir, entre meus amigos, nenhum em quem identificasse a do segundo tipo.

Fechado o parêntesis, é possível agora ao leitor entender o sentimento de ansiedade de que fui tomado a partir de um significativo número de partidas, que justamente serão o foco deste nosso texto: nesse estágio do relacionamento, eu já nutria uma profunda admiração pela pessoa que amava como a um irmão, e em quem não via um único traço reprovável no caráter. Imagine então se começamos a ter dúvidas quanto à nossa capacidade de análise, ao perceber algo que não esteja se mostrando coerente com a avaliação de antes… Teria um simples jogo capacidade de expor uma fragilidade do nosso senso crítico, que um longo período de convívio teria deixado passar?

E, neste ponto, recorro a outra pausa, antes de seguir em frente pela ótica de um jogador de xadrez, de modo a facilitar a compreensão do leitor. O xadrez traz uma característica que o distingue de qualquer outro tipo de jogo, e que se mostra presente desde sua origem: como algo criado por reis para tornar menos árdua a vida nada fácil dos soberanos, buscou-se reproduzir, em suas regras, os mesmos valores que se espera da realeza, da qual atributos como altivez de postura, justiça, nobreza de caráter, lealdade e até respeito aos adversários não se perdem, independentemente dos que se enfrentam e do fragor das batalhas.

Pode-se afirmar que essa base de um jogo (assentado sobre valores) não se perdeu até os nossos dias, e não apenas por força da tradição, mas como diferencial nas disputas entre lados que se enfrentam. Ninguém conseguiria imaginar adversários de um jogo de xadrez lançando mão de meios escusos para vencer a qualquer custo, a exemplo de “cowboys” do velho oeste, num jogo de cartas em que vale tudo para ganhar, pois que o prejuízo pode não ser apenas o dinheiro, mas a própria vida. Em muitos jogos de cartas, inclusive, recursos como uso de “malandragem”, blefe e astúcia para enganar o adversário são parte integrante das regras, coisas absolutamente opostas ao que se espera de jogadores do xadrez, que nem a dinheiro se joga, talvez para não colocar a ganância dos jogadores acima dos valores que se espera presentes neles.

Uma pessoa tirando uma carta de um jogo de cartas da manga.
cristianstorto / Canva

Retornando da história para a realidade, em um jogo em que os adversários se encontram em locais remotos — como é o nosso caso — é natural que haja um espaço de tempo entre um lance feito e sua resposta pelo parceiro, caso não estejam jogando ao vivo, não é assim? Isso era o mais comum, até eu notar que, quando cometia uma bobagem, por movimentar uma peça sem analisar o jogo como deveria, a resposta vinha mais rápido do que de costume. Às vezes, imediata até, sem me dar tempo para pensar melhor e refazer o lance. Por ser disputado a distância, havíamos dispensado a regra oficial de “tocando a peça tá valendo”, permitindo, então, que um lance pudesse ser revertido enquanto o adversário não respondesse. Algo dentro de mim, porém, ficava desconfortável quando meu parceiro, nessas ocasiões, reagia de imediato, quando claramente era impossível não perceber que o lance fora fruto de uma distração e não de estratégia, tão insólito se mostrava.

Não seria incomum, portanto, que o sentimento de desconforto acontecesse devido à relação de confiança já consolidada, mostrando-se incompatível com todo o histórico construído. Aquele tipo de resposta, mais rápida do que o normal, mais passava uma mensagem de oportunismo sobre o adversário do que uma demonstração de superioridade estratégica, que é a base do jogo. É essa capacidade de armar ataques e defesas de forma inteligente que consagra o vencedor, no xadrez, e não a vitória conseguida por trapaça, como seria o caso de se aproveitar de uma distração do parceiro.

Imaginem então meu conflito por não conseguir entender como uma pessoa tão íntegra como esse meu irmão espiritual poderia ter uma postura desleal, a ponto de se aproveitar de uma distração minha para ganhar a partida. Isso, com toda a certeza, não tinha nada a ver com a pessoa por quem eu alimentava tão grande respeito.

Claro que isso incomodou, pela incoerência com o perfil que eu admirara desde o início, até descobrir, algum tempo depois, o meu equívoco: ele nunca estivera usando de deslealdade para tirar vantagem no jogo e ganhar a partida, apenas raciocinando como um jogador de damas, que havia sido seu passatempo mais comum até o momento de sua introdução no xadrez. Eu o havia ensinado a movimentar as peças, explicado o objetivo maior do jogo — que era proteger o rei — e as regras obrigatórias na partida.

Uma peça de rei em pé no xadrez.
Thx4Stock / Canva

Só que a lógica do xadrez não fica só nisso, claro, pois não se ganha pelo número de peças que sobram, como no jogo de damas. Eu não atinara para o fato de que meu adversário novato não tivera tempo de assimilar algo que não aparece nas regras, mas que compõe o que poderíamos chamar de “ética” do xadrez: a maior premissa desse jogo de reis é que mais vale perder a partida do que nossos valores como pessoas, em nome de uma pretensa — e equivocada — vitória pela trapaça.

Para os não iniciados na arte do xadrez, diga-se, de passagem, que a experiência foi bastante rica, e poderíamos falar horas sobre o aprendizado que proporcionou. O importante, porém, é lembrar que nem sempre um jogo é somente o que a regra diz: a forma como é jogado — mais do que ela diz explicitamente — pode estabelecer a fronteira entre o válido e o não válido, o ético e o não ético, a forma certa ou a errada de jogá-lo, e até como os adversários se perceberão mutuamente depois da partida.

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Como já pudemos concluir, um jogo nem sempre é apenas um jogo ou a maneira como colocamos as peças no tabuleiro, mas uma indicação de como nos posicionamos perante a vida e nossos valores em relação aos demais, que podem até não possuir pensamentos tão altruístas quanto desejaríamos, mas se apegam, ainda assim, a premissas compatíveis com uma humanidade digna de ser vivenciada.

Sobre o autor

Luiz Roberto Bodstein

Formado pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduado em docência do ensino superior pela Universidade Cândido Mendes. Ocupou vários cargos executivos em empresas como Trimens Consultores, Boehringer do Brasil e Estaleiro Verolme. Consultor pelo Sebrae Nacional para planejamento estratégico e docente da Fundação Getúlio Vargas e do Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear (IBQN) para Sistemas de Gestão. Especializou-se em qualidade na educação (Penn State University, EUA) e desenvolvimento gerencial (London Human Resources Institute, Inglaterra). Atualmente é diretor da Ad Modum Soluções Corporativas, tendo publicado mais de 20 livros e desenvolvido inúmeros cursos organizacionais em suas diferentes áreas de atuação. Conferencista convidado por várias instituições de ensino superior, teve vários de seus artigos publicados em revistas especializadas e jornais de grande circulação, como “O Globo”, “Diário do Comércio” e “Jornal do Brasil”.

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