Autoconhecimento Comportamento Convivendo Crônicas da Vida Filosofia Relacionamentos

Conteúdo e forma: a carta de Dan

Óculos antigos sobre cartas manuscritas e envelopes espalhados em uma superfície clara.
Tpzijl / Getty Images / Canva

Um escritor recebe um e-mail tocante de um amigo querido falando de coisas profundas sobre o momento que ele atravessa, e sente a necessidade de transformar aquele conteúdo tão íntimo numa obra de arte maior dentre todas as que ele guardava em sua galeria.

Luiz, meu amigo,

Uma coisa me saltou aos olhos no que você escreveu: você não está em guerra contra a ciência, muito pelo contrário: você está defendendo a ciência exatamente no ponto em que ela é mais nobre, porque os grandes cientistas que você citou não dedicaram suas vidas para substituir a realidade por teorias. Eles criaram teorias para se aproximar da realidade. A teoria é uma lanterna, a vida é a paisagem que pede iluminação. E quando alguém passa a admirar mais a lanterna do que a paisagem, acontece algo um tanto difuso: a ferramenta se torna mais importante do que aquilo para o qual foi criada. Foi isso que você sentiu.

E não porque seu filho ou sua nora não amem você, pois pelas suas palavras eu percebo justamente o contrário: você sente o amor deles, a preocupação deles, o medo deles… Mas também sente que, em alguns momentos, o medo fala mais alto do que a escuta. E aí a conversa deixa de ser um encontro entre pessoas e vira um debate entre interpretações. Você chega com uma experiência vivida, eles chegam com uma explicação. Só que a experiência e explicação não são inimigas, mas também não são a mesma coisa: você passou semanas enfrentando uma gripe pesada, a fragilidade desse seu momento de parada, a incerteza e o medo de não recuperar as forças, e agora está experimentando uma coisa completamente diferente: o retorno da vitalidade temporariamente suspensa.

Nenhum exame, por mais rigoroso que se mostre, consegue medir completamente a alegria de alguém que volta a caminhar; nenhum protocolo consegue medir exatamente a felicidade de alguém que volta a se alimentar depois de sentir fome; e nenhuma teoria consegue descrever perfeitamente a sensação de quem volta a saborear a vida. Essas coisas existem antes das palavras que usamos para descrevê-las, e é aí que a frase de Jung ganha uma profundidade enorme:

“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.”

E não porque ela rejeite o conhecimento, mas por lembrar que existe um momento em que o conhecimento precisa se ajoelhar diante da experiência humana! Primeiro vem a pessoa, depois toda a teorização acadêmica sobre ela. Primeiro vem o encontro, antes de sua interpretação. Primeiro vem o pai, e depois o quadro clínico. Primeiro o ser humano, e depois o especialista…

Homem concede entrevista a um jornalista enquanto uma câmera de TV registra a conversa.
LuIz Roberto Bodstein / CAnva

E os maiores cientistas – os que não se acorrentam à mera explicação teórica pela ciência – sabem muito bem, e isso é o que os torna tão especiais no encontro entre almas humanas, além de meros pesquisadores da ciência (como o seu “doc” Marcos Davi fez com você, e até hoje você não o esquece!). Talvez porque, quanto mais longe foram na busca do conhecimento, mais perceberam que existe uma parte da realidade que não cabe inteira dentro das explicações científicas.

Você me disse que amanhã voltará para Niterói, e eu consigo imaginar a cena sem vestir a roupa de “vidente”: um homem que passou dos 70, cansado da batalha destas últimas semanas, mas sorrindo, talvez até um pouco orgulhoso de si, e não porque venceu a discussão, mas porque voltou a sentir o gosto da vida. E para mim essa é a parte mais bonita da mensagem: não foi a dieta, os passeios e nem os exames: foi a alegria que esteve por trás desse longo aprendizado de “parada compulsória”, como você o chamou… E alegria é o conteúdo, e todo o resto é apenas forma.

Agora é o momento de deixar as palavras descansarem, pois, como você mesmo disse, já recebeu o que precisava. Você é “o mago das metáforas”, como todos sabem, e vai captar isto aqui, direto ao ponto: Imagine uma biblioteca gigantesca, com milhões de livros repletos de teorias, técnicas, fórmulas, etc., tipo a biblioteca do Vaticano. Pense em todo o conhecimento humano reunido ali e, no centro daquela biblioteca, sentado em silêncio, um pai olhando para seu filho. Se aquele filho se aproximar e apenas enxergar o pai, toda a biblioteca já terá cumprido sua missão.

Uma linda noite de sono, meu amigo! A madrugada não precisa resolver absolutamente nada hoje: ela só precisa guardar em silêncio aquilo que já foi compreendido pelo coração. E isso então me remete àquela sua frase inserida automaticamente em todos os seus e-mails, como uma espécie de slogan:

“Educador não é o que aponta o melhor caminho, mas o que desperta para as incontáveis escolhas possíveis”… o que, pelo que eu conheço de você, é a sua cara! Lembra que em vários de nossos papos você repetia que professor é o que entrega a aula, e educador é o que deixa o legado? Planta a semente e aguarda o tempo dela, necessário pra germinar? Pois olha eu aqui, seu amigo jornalista de longa data, “poetando”, como você faz como ninguém! E sei que vai entender isso: eu sou uma das suas “sementes” que se descobriram poetas pelo caminho, por conta do solo fértil que você lhes ofereceu, a ponto de converter em poeta o jornalista habituado a enfrentar histórias contundentes e dolorosas, e com uma frequência bem maior do que o desejável.

Querido, meu mestre que sempre recusou esse nome, mesmo quando eu boicotava sua proibição para chamá-lo de “Ertsem” (lembra disso? Rsrs!). Lá atrás, eu percebi sua aversão à ideia de ser “guru” de seus alunos, preocupado, como sempre foi, em direcionar os holofotes para a mensagem (e até se escondendo por trás dela, sem tanta necessidade assim!)… Mas isso é você, e esse posicionamento não vem do teu cérebro, mas do seu coração, que entende o processo como meio, não como fim. O processo é o aprendizado que você sabe passar com seu exemplo, deixando as palavras apenas para os meninos da quinta série, ou seja: a forma.

E o resultado é aquela felici… desculpe, a plenitude (sic) com que seus alunos dos seus “pós” descem do palco no dia da formatura, como aqueles 5.000 do Centro de Convenções de SDR, ou aqueles adolescentes de Santa Maria Madalena, que jogaram ao alto seus capelos borlados após você ajudá-los em seu rito de passagem da escola para a carreira profissional.

E chega! Cheguei àquele ponto em que você puxa a orelha da gente no momento em que já dissemos tudo, e insistimos nas explicações desnecessárias. Aquele beijo eterno no seu coração de educador através de seus escritos, em todas as suas formas.

Com carinho e admiração,
Dan Ferretti

  • Luiz Roberto Bodstein

    Luiz Roberto Bodstein

    Reflexões existenciais, filosofia e relacionamento
    [email protected]serindomavel.blogspot.comcivilidadecidadaniaconsciencia.blogspot.comluizroberto.bodstein

    Formado pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduado em docência do ensino superior pela Universidade Cândido Mendes. Ocupou vários cargos executivos em empresas como Trimens Consultores, Boehringer do Brasil e Estaleiro Verolme. Consultor pelo Sebrae Nacional para planejamento estratégico e docente da Fundação Getúlio Vargas e do Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear (IBQN) para Sistemas de Gestão. Especializou-se em qualidade na educação (Penn State University, EUA) e desenvolvimento gerencial (London Human Resources Institute, Inglaterra). Atualmente é diretor da Ad Modum Soluções Corporativas, tendo publicado mais de 20 livros e desenvolvido inúmeros cursos organizacionais em suas diferentes áreas de atuação. Conferencista convidado por várias instituições de ensino superior, teve vários de seus artigos publicados em revistas especializadas e jornais de grande circulação, como “O Globo”, “Diário do Comércio” e “Jornal do Brasil”.