Autoconhecimento Filosofia

Meus diálogos com Spinoza

DIÁLOGO COM SPINOZA NUM CANTO QUALQUER DO ESPAÇO-TEMPO

Nós dois sabemos que o conhecimento, não raramente, é tratado como heresia por pessoas que se acreditam escolhidas para viver a Verdade – una e inquestionável – que lhes parece afrontar quando acessam algo diferente daquilo que, em algum momento, tomou lugar dentro delas. Você mesmo, Spinoza, já mo afirmou algumas vezes, que me lembre. A rigor, tal postura contraria o bom senso e coloca em xeque tanto a visão analítica quanto o poder de escolha de que essas pessoas se acreditam detentoras. Caso lhes fosse perguntado, elas responderiam que, uma vez convictas de suas crenças, qualquer informação divergente só lhes estará subtraindo o tempo precioso que deveriam dedicar ao aprofundamento de sua fé. Não param para refletir, no entanto, se isso não configura um boicote à própria coragem de enfrentar as contradições que fingem não perceber, ou à análise que as conduza por caminhos diferentes do que “precisam” continuar acreditando. Como você tão sabiamente identificou, caro Spinoza, existe um deus vingador dentro delas ameaçando punir com fogo a sua sede de chegar a verdades próprias que confrontem as plantadas ali anteriormente.

Em outras palavras, essas pessoas forjadas à imagem e semelhança desse deus aterrador não admitem ter medo de descobrir que suas verdades podem não ser tão verdadeiras quanto pensam, e isso possa deixá-las sem chão diante de tudo que lhes foi ensinado! Alguém talvez completasse a frase com palavras como: “…de tudo que construíram para si mesmas”. Não acredito nisso, razão para não incluir essa segunda possibilidade, e por um motivo simples: apenas os que tiveram suas crenças moldadas por outras pessoas é que desenvolvem o medo de descobrir verdades diferentes das que vêm sustentando no seu atual estágio de vida. Os buscadores reais – aqueles que colocam sua verdade interna acima de qualquer dogma incutido por outrem – jamais se atemorizam diante de suas dúvidas que as impeça de explorar novas possibilidades. Bem ao contrário: eles não aceitarão figurar entre os que se acreditam “escolhidos” para ter acesso à Verdade. Ser um “escolhido” implica, invariavelmente, obter essa graça por decisão externa. E isso vai contra tudo que se entenda como premissa do buscador, que só aceita como verdadeiro aquilo que resulta de um confronto interno em que analisa, checa à luz dos parâmetros conhecidos, compara com todo o conhecimento reunido até ali, para só então admitir como possível uma verdade diferente da que defendia até então.

E que me perdoem aqueles que eu chocar com a frase que vou dizer, mas assumir uma postura de quem se recusa a estabelecer contato com verdades diferentes da sua não se mostra apenas prepotente ou arrogante, mas uma das atitudes menos inteligentes que se podem atribuir a quem quer que se acredite com capacidade de pensar e tirar conclusões, como se espera da espécie mais pensante do planeta! Sua inteligência – independentemente de quem ou do que a formou – deveria lhe gritar que essa atitude se caracteriza como um abismal contrassenso ao seu mecanismo racional, que é investigar os opostos e concluir pela alternativa menos inverossímil. Em não se conhecendo todos os lados de uma questão, como ter certeza de que uma explicação seja, realmente, a que faz mais sentido entre todas as possíveis? Como entender que a verdade real tema ser confrontada com outra que, sem muito esforço, poderá ser jogada por terra? A “certeza não explorada” sempre se revelará bem mais frágil do que sustenta ser, diferentemente da existente nos que não temem enfrentar seus medos! Como uma dessas pessoas, Spinoza, ninguém mais do que você sabe do que estou falando, pois os enfrentou como ninguém!

Silhueta de um homem sentado em uma cadeira refletindo
YongGang Guo / Getty Images / Canva

Sabemos que esse tipo de raciocínio lógico aplicável a verdades humanas convencionais pode não se aplicar às chamadas “verdades divinas”, como habitualmente é defendido. E esse certamente será o argumento seguinte dos que tomarão por “heresia” sua busca por novas possibilidades. Quem o fizer, facilmente será acusado de que “sua fé não é forte o bastante”, nem sua verdade, tão absoluta e inquestionável quanto precisaria ser. Até porque fé é fé. E como tal, “precisa apenas ser aceita, jamais questionada”, não é o que se escuta em qualquer crença? Apesar disso, como você, eu também mantenho a crença de que existe uma força superior além de tudo que meus olhos alcançam. E isso é fé! E tão poderosa quanto qualquer outra! A diferença em nós dois, meu caro Baruch, não está na dimensão de nossa fé em relação à das demais pessoas, mas na natureza dela, que admite estar equivocada diante de infinitas possibilidades! Significa que não apenas descobrimos um tipo de fé diferente das que observamos, como também das que tentaram nos incutir, pois que não nos cobra mantê-la perene e inabalável. É como se esse ser superior que nos sussurra a verdade que ainda não entendemos nos encorajasse a não a aceitar como definitiva, muito menos herética, mas como parte de um longo caminho a percorrer.

Como em você, sinto-a me abraçando como uma espécie de “fé camarada”, pois que não se zanga quando procuro imperfeições nela e questiono tudo que me aponta como algo que ainda preciso aprofundar (pelo menos neste enquanto!). Ela me desafia a seguir buscando por coerências ou inconsistências que possa abrigar, suprimindo-me o medo de confrontá-la com todos os conceitos adquiridos, pré-concebidos ou irrefletidos a partir das realidades que me vão sendo apresentadas! Mas existe ainda um lado não tão “bonzinho” nela que me chama aos brios, e me cobra não congelar verdades insofismáveis dentro de mim, independentemente de seu histórico milenar de defesas convergentes! Esse seu lado mais rigoroso me cobra checar, duvidar, comparar o ontem, o hoje e o depois das últimas verdades conhecidas até o limite de suas incongruências, antes de aceitá-la ou rejeitá-la! Mais do que isso, me desafia a comparar cada componente novo com uma “força superior” que afirma estar dentro de mim… em algum lugar. Ela (a força) e a verdade mais recente são comparadas sem dó nem piedade, sem temor algum de se ser punido por fazê-lo ou do que virá depois! Ela coloca à frente de qualquer outra coisa a Inteligência Maior que toda fé propaga, mas esquece o principal: em se tratando de algo tão superior, como uma nova verdade tomaria partido da ignorância para jamais ser questionada? Não teria tal Inteligência criado um Universo em infinita mutação? Por que apenas sua verdade deveria ser imutável?… Nada mais sensato (e inteligente), portanto, do que questionar.

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“Acredite” – já se dizia – “em quem está sempre buscando a Verdade; mas duvide de quem afirma tê-la encontrado!”. Daí que esses diálogos entre mim e Spinoza são alegorias do meu processo mental, ávido por obter respostas novas e perenemente questionáveis. O único componente que eles não pedem que eu mude é o de seguir evoluindo após cada nova conclusão. Meu processo mental também brinca com minhas metáforas para que eu não me perca entre tantos mitos e verdades. Ele me permite navegar numa espécie de “simulador interno” por entre infernos e paraísos simulacros – que brotam espontaneamente de meus humores – para testemunhar apertos de mão entre Darwin e Adão sem que um se sinta diminuído frente ao outro, nem vocifere por entre dentes a sua supremacia! Ah, Baruch! Baruch! Nunca nos encontramos pelas minhas bandas nem pelas suas… Mas sua recusa em engolir o que tantos antes de você pregaram – e o que os tantos depois de você vão ainda inserir no script – me dá a certeza de que, em algum lugar da dimensão espaço-tempo, nós dois já fomos colocados frente a frente para um gostoso diálogo filosófico antes deste de hoje!

Sobre o autor

Luiz Roberto Bodstein

Formado pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduado em docência do ensino superior pela Universidade Cândido Mendes. Ocupou vários cargos executivos em empresas como Trimens Consultores, Boehringer do Brasil e Estaleiro Verolme. Consultor pelo Sebrae Nacional para planejamento estratégico e docente da Fundação Getúlio Vargas e do Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear (IBQN) para Sistemas de Gestão. Especializou-se em qualidade na educação (Penn State University, EUA) e desenvolvimento gerencial (London Human Resources Institute, Inglaterra). Atualmente é diretor da Ad Modum Soluções Corporativas, tendo publicado mais de 20 livros e desenvolvido inúmeros cursos organizacionais em suas diferentes áreas de atuação. Conferencista convidado por várias instituições de ensino superior, teve vários de seus artigos publicados em revistas especializadas e jornais de grande circulação, como “O Globo”, “Diário do Comércio” e “Jornal do Brasil”.

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