Hoje me é claro que a raiva, que o ódio, são escombros de uma criança destruída, e esses escombros cobrem uma dor visceral há muito enterrada no peito e no ventre do indivíduo.
A violência se torna um mecanismo de defesa. Isso não é nada surpreendente: todos já vimos como mesmo um ratinho ataca quando encurralado. Os indivíduos carregados de ódio são esses ratinhos, não é uma comparação pejorativa, apenas uma constatação, pois o padrão de sobrevivência que atua em ambos é o mesmo.
Considerando que o ser humano possui um sistema nervoso muito mais complexo, com uma gama de emoções intensas e difíceis de processar, o ódio se torna, com o tempo, uma resposta automática aos impulsos do ambiente.
Pior ainda é que, como seres com autopercepção de nós mesmos, tendemos a absorver aspectos de nossas emoções e compreendê-los como nossa própria identidade. Uma vez que uma pessoa tomada pelo ódio assume que aquilo faz parte de quem ela é, esta o pintará como uma virtude. Nesse estado, se tornará praticamente impossível que se liberte deste sentimento que consome a sensibilidade e a clareza de qualquer mente sã.
A polarização em que vivemos hoje revelou como grande parte da sociedade se veste com essa armadura pesada e hostil sem perceber que essa carapaça espinhosa protege uma ferida nunca tratada a latejar em seu interior. A ira os protege dessa dor que os destruiria, o próprio sistema biológico age para preservar sua existência. Para essa força inconsciente, é questão de vida ou morte.
Hoje, com o advento da internet, vemos essas pessoas se unindo, tornando o seu ódio seco em um elo de pertencimento. Elas encontram porto seguro em outros como elas. Passam a lhes contar uma história de luta e honra, vendo a si mesmos como guerreiros carregando a espada que livrará o mundo dos tolos que querem um mundo feliz. Mas eles não aceitam a felicidade: a dor lhes consome e a ira é o combustível que os mantém de pé.
Não há muito o que fazer com essas pessoas, e é difícil não espelhar a elas o ódio que despejam no mundo. Todavia, estes não são maioria. Todos carregamos a raiva e a temos como uma reação natural a ameaças no ambiente, porém nem todos tornam isso parte central de sua identidade.
Nosso cuidado deve ser garantir que mais pessoas entendam do que sofre essa parcela da sociedade, e entender que não se pode permitir que essas pequenas figuras feridas, que se esforçam em gritar alto para suprimir o próprio choro, decidam o caminho que tomamos como sociedade.
Devemos garantir que as próximas gerações possam chorar suas dores e compreendê-las ainda criança. Esse cuidado só pode ser feito coletivamente. E sabemos que o caminho da direita não tem como base o coletivo, mas apenas o indivíduo em sua sede por ganho próprio. Seguir pela esquerda, por mais problemas que ainda haja no entendimento desta, é saber que se segue em direção do único caminho possível: o da união de todos, o cuidado mútuo do coletivo, onde o indivíduo tem uma base sólida para crescer e se desenvolver. Não há outro caminho.
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A vida é coletiva, ninguém é uma ilha. Então, abracemos nossos companheiros e sigamos nessa causa da qual nossa sobrevivência depende.
Abraço e até a próxima reflexão.
Fique bem!
