Autoconhecimento

A pior dor do mundo!

Mulher de pijama de bolinhas sentada em uma cama, com a cabeça nas pernas.
Luis Lemos
Escrito por Luis Lemos
Você já parou para pensar em qual é a pior dor do mundo? Alguns dizem que é a dor do parto. Outros que é a dor de dente. Outros, ainda, que é perder um filho. Talvez esta seja uma daquelas perguntas que em Philosophia se chama de polissêmica, isto é, que não existe apenas uma única resposta, mas várias respostas para uma única pergunta. Com efeito, o importante é compreender que toda dor é um estágio entre o começo e o fim, entre o novo e o velho, ou seja, é um processo de evolução do ser humano. Portanto seja uma dor física ou mental, moral ou espiritual, a dor torna o ser humano melhor!

Por outro lado, é importante frisar que cada pessoa tem um jeito próprio de sentir dor. Ou seja, a dor não é democrática, é a ditadura do físico sobre o psíquico. Ou seria o contrário? Por outro lado, a dor física é passageira, pontual. Tem início e um fim. A dor psíquica é múltipla. Não tem uma causa específica. Por isso que não tem fim. Até depois da morte, ela continua absoluta. Aliás, é no pós-morte que a dor psíquica costuma se manifestar com força total.

Como forma democrática, a dor pode ser física, emocional, moral ou até mesmo espiritual, mas a dor tem vida própria e características peculiares. Ela se manifesta em cada ser vivo de forma diferente e cada pessoa a sente de um jeito único.

pior dor

Por isso que se diz que a dor é irmã gêmea da morte. Primeiro vem a dor, depois a morte. Ou seria o contrário? Quando uma pessoa está bem e morre de acidente de carro ou é assassinada, quem vem primeiro: a morte ou a dor? Ou será que existe morte sem dor?

A morte pode ser o esquecimento dos amigos. O fim de um romance. O fim das férias. Pode ser o fim de todas as sensações. De forma que, morre-se mais de uma vez na vida, morre-se em todas as vezes que não fazemos aquilo que gostamos.

Ao contrário da morte, que é o “fim de todas as sensações físicas”, a dor é a sensação de que alguma coisa vai mal, mas que pode ser “consertada”.
 Quando o organismo está bem, tudo funcionando, vive-se em estado de harmonia, que significa paz e tranquilidade. Embora a literatura costume narrar que a pior dor do mundo é a dor de um parto, seguida da dor de dente, para os românticos, a pior dor é a dor do amor não correspondido.

Poucas situações são tão dignas de consideração quanto a do amado que vive à espera da amada. Esse tempo é formado por momentos de angústia, sofrimento e dor, mas de muita esperança. Esperança de que a amada seja a cura para todo o sofrimento vivido. Para o amante, a amada possui a capacidade inenarrável de cura, é bálsamo. Sem a amada, o amante perde-se na solidão existencial.

Se não for correspondido, este pobre coitado enfrenta a funesta perspectiva de um número indeterminado de anos de solidão, que historicamente, muitas vezes, termina em loucura, a exemplo de Amaranta, personagem principal de “Cem Anos de Solidão”, do escritor colombiano Gabriel García Márquez.

Na cabeça de quem ama e não é correspondido, o sofrimento é muito maior porque a possibilidade de cura é o outro, mas este outro lhe rejeita. Então, a única coisa que resta fazer é tirar a própria vida. Sim, em muitos casos, o suicídio é o meio mais comum que os amados encontram para dar cabo ao amor não correspondido.

pior dor

Uma vez que o instinto mais arraigado do ser humano é o da sociabilidade, como explicar para a pessoa que ama e não é correspondida a questão da rejeição? Ser rejeitado seria um estado de negação insuportável, capaz de justificar o pior de todos os desatinos: o suicídio. Atualmente comete-se muito mais suicídio do que morrem homens em guerras.

Por outro lado, o amor verdadeiro é capaz de suportar tudo, até mesmo a própria rejeição. Este amor move o homem a viver em companhia dos seus semelhantes sem esperar nada em troca. Abrem-se novas perspectivas de vida. Não apenas por uma questão de melhor qualidade de vida, mas por uma necessidade fundamental de complementação por meio do convívio mútuo: a solidariedade.

Dessa forma, é no convívio com o outro que revelamos quem somos. Nessa revelação, o ser humano constrói o seu ser, o seu caráter e a sua vida. Assim, pelo fato do homem não ser um robô, do bom relacionamento dos seres humanos entre si, surge como correlato a amizade.

Em função desta, resultante de circunstâncias tão variadas quanto complexas, as pessoas se tornam capazes de agir desinteressadamente umas pelas outras, mesmo quando unidas, não por um fim sublime, mas por mera afinidade.

pior dor

Sim, é a amizade que salva o homem da mesmice, da barbárie e ameniza a dor existencial, física, psicológica e espiritual. É a amizade que pode libertar os homens da escravidão do egoísmo. Somente a amizade pode trazer de volta a vontade de viver dos amantes, dos que sofrem todo tipo de opressão.

Enfim, não se pode esquecer que a amizade é uma coisa tão rara que a Bíblia chega a dizer que: “Quem encontrou um amigo encontrou um tesouro”. No entanto se você não tem nem se acha amigo de ninguém, não se desespere, não sofra e não desista de lutar, pois existe alguém olhando para você: o seu desejo de ser mais, de querer mais! Viva mais e sofra menos!


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Sobre o autor

Luis Lemos

Luis Lemos

Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA); Graduado em Filosofia pela Universidade Católica de Brasília (UCB); Bacharelado em Filosofia pelo Centro do Comportamento Humano (CENESCH).

Professor de Ciências Naturais na Secretaria Municipal de Educação de Manaus (SEMED/AM). Professor de Filosofia da Educação, Ética e Filosofia Jurídica na Faculdade Martha Falcão/Devry Brasil.

Tem experiência na área de Filosofia da Ciência, com ênfase em História da Filosofia, atuando principalmente com os temas: Educação, Ensino de Ciências, Epistemologia, Ética e Ética Profissional.

Autor dos livros: O primeiro olhar – A filosofia em contos amazônicos (2010); O segundo olhar – A filosofia em temas amazônicos (2012); O terceiro olhar – A filosofia em lendas amazônicas (2014); O homem religioso - A jornada do ser humano em busca de Deus (2016).