Autoconhecimento

O que é essencial para o homem contemporâneo?

Homem com alguns cabelos grisalhos, barba rala e sorridente, sentado em sofá.
Luis Lemos
Escrito por Luis Lemos
Existe um ditado medieval que diz: “A nossa existência é a soma de dias que se chama hoje. Só um dia se chama amanhã: aquele que nós ainda não conhecemos”. Sim, o homem contemporâneo vive cheio de preocupações, cheio de afazeres. Vive planejando o amanhã sem viver o hoje. O homem contemporâneo não tem compaixão pela sua condição frágil de vida.

De tanto ativismo, o homem atual não tem tempo para pensar sobre si mesmo. Perdido na imensidão da existência, vive procurando fazer alguma coisa, porque tem medo de si mesmo. Em muitos casos, quando se depara com a possibilidade da morte, se desespera. E aqui cabe uma pergunta: O que é essencial para o homem contemporâneo?

homem contemporâneo

Padre Fabio de Melo escreveu um livro muito interessante e que pode nos ajudar nesta discussão: “Quem me roubou de mim?”. Sim, este é o título do seu livro mais famoso. Este livro fala, dentre outras coisas, da fragilidade da vida e de como nós “adoramos” nos sabotar, enfim, é um livro que fala da condição de ativismo do homem atual, “ladrão de si mesmo”.

Por outro lado, causa-me assombro quando o filósofo alemão Nietzsche (1844-1900) diz que: “Quando você olha para o abismo, ele te olha de volta”. No entanto, aí pode estar à saída para muitos dos problemas do homem contemporâneo. Sim, devemos encarar os problemas de frente. Mas, para que isso aconteça, é preciso estar atento às coisas, ao que acontece ao nosso redor e principalmente aceitar a nossa condição de finitude.

Para exemplificar o que estou tentando dizer, vou lhe contar um caso real. Primeiramente, devo esclarecer que não sou avesso à tecnologia, mas causam-me espanto quando vejo pessoas dependentes das redes sociais.

O caso foi este: um dia desses, eu estava numa praça de alimentação, num dos shoppings mais movimentado da cidade de Manaus, quando o comportamento de uma jovem me chamou atenção. Enquanto ela degustava um saboroso sanduíche, mandava mensagens por um aplicativo de celular. Uma cena comum entre adolescentes e jovens do mundo inteiro.

Até aí, nada demais. Acontece que, sem prestar atenção no que estava comendo, levou um pedaço de papel, que estava ao lado do seu sanduiche, para a boca. Quando ela começou a mastigar e percebeu que não se tratava do sanduíche, ela cuspiu com nojo na bandeja. Olhou para os lados, para ver se alguém tinha visto tal desatino. Quando ela percebeu que apenas eu tinha visto o ocorrido, ela sorriu para mim um sorriso amarelado.

E as outras pessoas que estavam no shopping, naquela hora, por que não viram o que eu vi? O que elas estavam fazendo? Todos, sem exceção, estavam fazendo o mesmo que ela: mexendo nos seus celulares, inclusive seus pais, suponho, pois eram pessoas de meia idade!

Não há dúvida, portanto, de que a tecnologia é benéfica. Porém, tudo depende da forma como nos relacionamos com ela. A tecnologia foi inventada pelo homem e para o homem. Dessa forma, no uso da tecnologia, o homem nunca pode perder de vista a excelência na “comunicação”.

homem contemporâneo

Enquanto ser que fala, o homem deve buscar, sempre, todas as formas de comunicação para ser compreendido. A linguagem, enquanto cultura, arte, etc., deve ser sempre uma busca do ser humano em sua forma de aperfeiçoamento. Assim, o que é essencial ao homem contemporâneo é a capacidade criativa que ele possui de vencer essa sensação esmagadora de “incompletude” intelectual.

Portanto, o mundo contemporâneo apresenta muitos atrativos para os jovens de hoje. Diferentemente do passado, o mundo atual não permite experiências coletivas. Para o sistema capitalista, o coletivismo é uma forma de alienação.

É possível um mundo melhor para todos? É possível construirmos um mundo mais justo, equilibrado econômica e ambientalmente? Particularmente, pensamos que sim. Mas, para que isso aconteça, é necessário desenvolvermos a consciência de que somos seres finitos. Com arrogância e prepotência, não se chega a lugar nenhum. Aliás, se chega sim, a destruição do próprio homem!


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Sobre o autor

Luis Lemos

Luis Lemos

Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA); Graduado em Filosofia pela Universidade Católica de Brasília (UCB); Bacharelado em Filosofia pelo Centro do Comportamento Humano (CENESCH).

Professor de Ciências Naturais na Secretaria Municipal de Educação de Manaus (SEMED/AM). Professor de Filosofia da Educação, Ética e Filosofia Jurídica na Faculdade Martha Falcão/Devry Brasil.

Tem experiência na área de Filosofia da Ciência, com ênfase em História da Filosofia, atuando principalmente com os temas: Educação, Ensino de Ciências, Epistemologia, Ética e Ética Profissional.

Autor dos livros: O primeiro olhar – A filosofia em contos amazônicos (2010); O segundo olhar – A filosofia em temas amazônicos (2012); O terceiro olhar – A filosofia em lendas amazônicas (2014); O homem religioso - A jornada do ser humano em busca de Deus (2016).