Adoção

Adoção e o seu Tempo

Família deitada no sofá da sala sorrindo
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Juliana Meyer Luzio
Escrito por Juliana Meyer Luzio

A espera por um filho adotado envolve lidar com o tempo do desejo e do não saber. É uma experiência que pode durar muito, mas que, de repente, sem nenhuma previsão, seu telefone toca. E eis que seu(ua) filho(a) chega, em poucos dias ou em poucas horas, dependendo da idade e do período de adaptação estipulado pela equipe técnica do seu processo.

O tempo da adoção é aquele em que os sonhos e as expectativas vivem esbarrando na realidade, porque quase nenhuma espera é fácil e cem por cento agradável, quem dirá a espera de um filho sem tempo certo pra chegar. Mas cada um escolherá se ela será longa, porque cada um sabe o tamanho do desejo, da força exigida no percurso, da sensação de saber que está fazendo o possível para que o processo caminhe.

Falar sobre o tempo é algo difícil, porque, embora ele tenha uma definição cronológica — ou seja, sabemos que um ano é composto por 12 meses, que cada mês tem em média 30 dias, que cada dia tem 24 horas, que cada hora tem 60 minutos e por ai vai —, também é sabido que o tempo é algo relativo. Ele pode passar de forma rápida ou lenta dependendo do que estamos vivendo, sentindo e esperando. Alguém aí já não viveu dias eternos que não terminavam nunca e outros que se foram num piscar de olhos?

Mulher sentada em um muro olhando para o horizonte pensativa
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Pois é, o tempo é muito mais do que aquele do relógio e do calendário! Ele é o que vivemos, marcado por nossas escolhas. Há o tempo do pensar, do olhar, do refletir, do tomar decisões, do agir, do correr. Porém, há também aquele que não dominamos, no qual só nos restar acreditar e ir seguindo seu fluxo, confiando em sua sabedoria e lidando com nossos limites.

Decidi escrever esse texto por acreditar que durante um processo de adoção o tempo mostra todas as suas faces. As pessoas que passam por esse processo são, na maioria das vezes, arrebatadas por ele. Seja pela ansiedade, pela angústia, pela correria da chegada ou pela demora da espera. Impossível falar de adoção sem ouvir frases como: “nossa, é um processo muito demorado”, “vocês ficarão na fila uns 5 anos”, “o tempo da adoção é como se fosse o de uma gravidez biológica”, “há quanto tempo vocês estão esperando?”, ou seja, o tempo está presente em todas as conversas e pensamentos quando falamos em adoção.

Família falando com um consultor enquanto homem e mulher seguram em seu colo crianças
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Cronologicamente podemos dividir o processo de adoção em algumas etapas. A primeira delas é o processo de habilitação, que leva em média um ano, caracterizado por: entrada do processo, entrega dos documentos, entrevistas com a equipe técnica (assistentes sociais e psicólogas), parecer do Ministério Público, sentença do juiz e adesão no Cadastro Nacional de Adoção.

Depois disso, as pessoas que irão adotar a criança entram na fila. O tempo de espera é imprevisível. Ainda que a família possa acompanhar o andamento da fila, o sistema não é constantemente atualizado. A posição de uma pessoa pode aumentar ou diminuir sem um critério aparente. O que sabemos é que o perfil escolhido para a criança pode encurtar ou prolongar o período de espera.

Após a chegada do filho ou da filha, começa o período de convivência e a guarda provisória. Assim, o processo de habilitação é encerrado e tem início o processo de adoção em si. O final da adoção depende da sentença final da justiça e da autorização para expedição de uma nova certidão de nascimento para a criança, tornando a adoção irrevogável. Esse período pode variar de 6 a 24 meses, dependendo da formação do vínculo com a família e do funcionamento da Vara da Infância.

Mulher colocando criança no ar enquanto ri
Thiago Cerqueira/Unsplash

Os tempos cronológicos aqui citados têm como referência leituras, conversas e minha experiência. Porém, eles variam de Vara pra Vara e de caso pra caso. Já li histórias cujo tempo total da entrada do processo e até a chegada do bebê de 8 meses foi de 10 meses. Ouvi uma em que, durante as entrevistas psicológicas, houve o encaminhamento para terapia, condicionando o seguimento do processo após um tempo mínimo de 6 meses de tratamento. O nosso processo durou 2 anos até a chegada do nosso filho e mais 2 anos para a documentação final. Ou seja, cada processo é um processo e é analisado de acordo com a realidade de cada Vara da Infância e sua equipe técnica. Percebemos que o tempo cronológico não é exato e seu ponteiro caminhará de acordo com variáveis burocráticas, emocionais e outras das quais não temos conhecimento.

E o que dizer sobre o tempo não cronológico, aquele que faz um dia de espera parecer uma eternidade? Honestamente, não sei, porque ele é muito particular e está diretamente ligado ao que está por trás do desejo de tornar-se pai ou mãe. Ele carrega uma história que às vezes antecede a decisão pela adoção. Existem pessoas que já passaram por infinitos tratamentos para engravidar, o que por si só já marca uma espera. A idade dos pais ou das mães adotantes e suas expectativas de vida com esse(a) filho(a) podem determinar a intensidade da ansiedade. Enfim, cada um sabe há quanto tempo está à espera de seu filho(a). Muitas vezes, essa espera começou muito antes do processo de habilitação para adoção.

Casal de homens segurando uma criança no alto e sorrindo
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Pra cada pessoa o tempo é um. O que eu posso dizer com muita certeza é que terão valido a pena a espera, as dúvidas, os anseios, enfim, toda a energia gasta. Afinal, você conhecerá alguém pra lá de especial – o seu filho ou sua filha. E, curiosamente, com o passar do tempo, você se surpreenderá ao perceber que seu processo até que não durou tanto quanto te falavam. Mas isso será só depois que já estiver mergulhada(o) na experiência de ser mãe ou pai, porque até lá a sensação de lentidão te acompanhará. Outra coisa que posso dizer com certeza é que a vida deve seguir seu curso. Não deixe de fazer planos de viagens, de começar um curso, de mudar de emprego, de fazer seja lá o que tem vontade de fazer, com a desculpa de correr o risco de começar e ter que parar porque seu filho chegou. Não pare sua vida! Pelo contrario, tenha projetos e os realize, porque isso lhe dará alegrias, satisfações pessoais e tornará a espera menos dramática e intensa. Se por acaso tiver que parar algum projeto no meio por causa da chegada, você fará isso com um imenso prazer.

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Siga seus sonhos enquanto o sonho ser mãe ou pai vai se concretizando em pensamento e em outras dimensões. Siga acreditando e sentindo que, enquanto espera, em algum lugar um ser se prepara para ser seu. A vida tem seus mistérios e os encontros acontecem quando estamos preparados pra eles, então simplesmente viva da melhor maneira que puder esse tempo de desejo e de não saber e acredite que quando vocês estiverem prontos se conhecerão.

Sobre o autor

Juliana Meyer Luzio

Juliana Meyer Luzio

Terapeuta que constrói sua clínica através de um espaço que integra fala, consciência corporal e quietude, tornando possível uma reconexão com o que há de belo, delicado e muito forte em nós - nossa saúde.

Formada em Psicologia, Psicanálise, Terapia de Integração Craniossacral, Transmutation Therapy, entre outros, está sempre em busca de conhecimentos que agreguem, em seu dia-a-dia maneiras, diferentes de olhar a vida.

Atualmente, além de sua clínica, lançou a Îandé, onde tem se dedicado à arte de criar e costurar produtos exclusivos e cheios de carinho.

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