Convivendo

Afinal, BBB é cultura inútil?

Se você é brasileiro, com certeza já ouviu falar de um dos reality shows mais populares no país: o “Big Brother Brasil”. O programa, produzido e transmitido pela Rede Globo, é uma adaptação brasileira do reality que foi originado na Holanda, tendo a primeira edição transmitida em 16 de setembro de 1999 por lá.

No Brasil, a primeira edição foi exibida em 29 de janeiro de 2002 e durou até 2 de abril do mesmo ano, em que o participante Kleber Bambam ganhou o prêmio de R$ 500 mil. Hoje, após 20 anos desde que o programa entrou pela primeira vez no ar, o “BBB” já acumula recordes de audiência – que chegou a 47 pontos na edição de 2005.

Além de ser um dos programas mais vistos no país, o “Big Brother Brasil” consegue ter um espaço maior na vida dos brasileiros graças a seu potencial de interação entre o público e o reality, que é um pilar do programa, já que o público é quem decide, por meio dos votos, quem é eliminado a cada semana e quem é o grande campeão na final.

Esse jogo de interação se intensificou com a consolidação das redes sociais. Em 2020, com a inclusão da modalidade Camarote no elenco, o programa trouxe ao jogo influenciadores digitais e outras personalidades públicas, tornando o programa um fenômeno também na publicidade. Segundo a Globo, o “BBB20” bateu o recorde de faturamento publicitário.

Com o “BBB21”, não foi diferente. Com mais de 380 milhões de mensagens no Twitter, essa edição bateu o recorde na plataforma, aumentando em 40% em relação à anterior, segundo dados internos da própria rede social. Isso tudo além de ter tido a maior audiência nacional dos últimos nove anos – com média de 27 pontos e 51% de participação, segundo o PNT (Painel Nacional de Televisão).

Com tantos números e evidências de que o “Big Brother Brasil” é, sim, o programa queridinho do público brasileiro. Mas, com o sucesso, surgem as críticas: alguns apontam o “BBB” como alienação desnecessária, outros o taxam de entretenimento e cultura “inútil”. Muitos chegam até a debochar, defendendo que as pessoas poderiam ler mais livros, em vez de acompanhar o programa. Será que o “BBB” é mesmo uma cultura inútil?

O que é cultura?

Em uma definição do que é cultura, temos esse fenômeno como um conjunto de comportamentos, costumes e conhecimentos de um determinado grupo. Ou seja, a cultura pode ser os hábitos, a culinária, a dança, a música e outros objetos que caracterizam um certo povo.

Para além disso, temos também um entendimento de cultura de massa – aquela que é produzida para um grande número de pessoas, em que se encaixa um programa como o “BBB”. Porém existe uma outra dimensão da sociedade que está mais relacionado com o método mais crítico, intelectualizado e elitizado, compreendida como cultura erudita.

A existência de um tipo de cultura não necessariamente anula a existência de outra. Apesar de esses dois campos da cultura se oporem um ao outro, eles podem ser cultuados em momentos diferentes por uma mesma pessoa.

Uma lupa identificando a palavra "culture".
fotosipsak de Getty Images Signature / Canva

A cultura erudita, porém, tem a elitização como seu marco e, consequentemente, é muitas vezes colocada como o modelo correto de cultura. Já ouviu alguém falar que certo tipo de música ou de entretenimento “não é cultura”? Essa frase é muitas vezes repetida por aqueles que não consideram a cultura popular como tal – essa definição é confundida com a “cultura inútil”, o que pode limitar muitas expressões culturais.

A cultura de massa tem como objetivo entreter de maneira comercial, criando produtos por meio da indústria cultural. Esse produto pode ser diverso e, com isso, pode ter como efeito a informação, a reflexão, o humor, o choque e qualquer outro fim que esteja presente nesse produto. Ou seja, nem sempre a cultura de massa será uma cultura inútil.

“Mas e a cultura inútil? Existe mesmo?”, você pode estar se perguntando. Sim, ela existe de forma relativa, já que é o tipo de cultura que não promete agregar algo de importante para o consumidor. Mas será que isso é um problema? O ser humano precisa estar a todo momento exercendo e consumindo atividades que apenas o intelectualizem?

A alienação – ou os “momentos de descontração do sério”, como muitos preferem definir – é uma vilã? Essa é uma reflexão que vem crescendo à medida que vêm surgindo discussões a favor do ócio, do descanso e do respiro diário necessários para manter e estimular a saúde mental. Sua alienação pode ser um momento em que você se permite relaxar, rir, se descontrair, entre outras sensações.

E, mesmo sem você estar se intelectualizando, esse momento de descontração também fará parte do seu repertório de informações e reflexões. Para o nosso cérebro, que está sempre em atividade, e para a sociedade, que está sempre se movimentando e evoluindo seus mecanismos, é pouco provável que alguma experiência não acrescente absolutamente nada para nós como indivíduos.

O “BBB” é cultura inútil?

Considerando que abordamos até este tópico sobre as diferentes visões de cultura e cultura inútil, um programa como o “BBB” se encontra em uma corda-bamba, em perfeito equilíbrio. Se considerarmos que o reality show não nos promete o conhecimento de um curso na Harvard, tampouco o conteúdo de um livro com mais de 400 páginas, não necessariamente vamos adquirir informações profundas com ele.

Pessoas de diferentes etnias erguendo seus punhos esquerdos.
fauxels de Pexels / Canva

Mas, certamente, um programa que representa tantas personalidades de regiões, raças, classes sociais e religiões uma das outras convivendo juntas em uma casa é um reflexo de como as relações são construídas em sociedade e como estamos lidando com essas diferenças.

Com tantas discussões que surgem dessa convivência, como sobre machismo, racismo, intolerância religiosa, LGBT-fobia, xenofobia e muitos outros comportamentos, basta refletirmos sobre o que podemos extrair desse programa e tomar como lição para nós mesmos.

O que aprender com o “BBB”?

Acredite, os aprendizados que você pode adquirir ao analisar um programa como esse são vários. Ao assistir ao “BBB”, você pode extrair algumas lições sobre:

  • inteligência emocional;
  • relacionamento e comunicação;
  • como lidar – e como não lidar – com as diferenças sociais;
  • pautas sobre racismo, LGBT-fobia, machismo, xenofobia e outras ações ofensivas às minorias sociais;
  • sinceridade e verdade consigo mesmo;
  • convivência;
  • equilíbrio entre a razão e emoção;
  • como se posicionar;
  • como lidar com a opinião alheia sobre você

Tiago Leifert e Ícaro Silva

Discussões que questionam a qualidade do “Big Brother Brasil” como programa de entretenimento são feitas desde o início do reality show no país. Mesmo com muitas pessoas modificando sua visão e opinião sobre isso, ainda ocorrem muitos debates sobre o valor moral que o programa oferece.

Nos últimos tempos, o Brasil acompanhou uma dessas discussões, só que dessa vez protagonizada pelo ator Ícaro Silva e Tiago Leifert, ex-apresentador do programa.

Ao negar os rumores sobre a sua participação no “BBB”, Ícaro provocou a internet ao atacar a credibilidade do programa. Em sua conta no Twitter, o ator escreveu:

“Gente, respeita a minha história, a minha trajetória, meu ódio por entretenimento medíocre e minha repulsa por dividir banheiro. Parem de acreditar nessa história absurda de que eu cogitaria ir para o Big Boster Brasil.”

Além dos internautas, celebridades e ex-participantes do reality também se incomodaram com o discurso e rebateram o ator nas suas redes sociais. Mas o pronunciamento que chamou mesmo a atenção foi o de Tiago Leifert, que defendeu o programa dizendo que, por ser um sucesso de audiência, provavelmente paga o salário de Ícaro Silva. Confira o texto na íntegra:

Revoltado, Ícaro respondeu a Leifert, alegando que ele mesmo quem pagava o seu salário, evidenciando a sua dificuldade por ser um ator negro e homossexual em um país preconceituoso como o Brasil. Alguns famosos, como Manu Gavassi e Babu Santana, que também foram participantes do reality em 2020, saíram em defesa do ator. Afinal, quem está certo ou errado nesse debate?

Cultura é cultura, mesmo quando os fins são opostos

Sendo uma cultura inútil ou não, somos nós capazes de definir o que fazemos com o conteúdo que chega até nós. É preciso lembrar, também, que apontar como “inútil” uma cultura apenas por ser popular pode reduzir de forma equivocada o impacto que os produtos sociais têm para a sociedade como um todo.

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Portanto não precisa ser tomado pela culpa ao assistir a programas como o “Big Brother Brasil”. E, se você já acompanha o programa regularmente, o que foi capaz de extrair do reality além do prazer do descanso, da diversão e da descontração? Esse é um debate que pode ser levado adiante cada vez mais!

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