Convivendo

Ainda há tempo?

Uma mulher com saia preta e camisa branca anda para frente segurando uma corda onde há um grande relógio amarrado.
Andrea Ralize
Escrito por Andrea Ralize
Não temos mais tempo. Ele escorre por nossas mãos como areia. O tempo tornou-se algo precioso para quem tem uma rotina atribulada nas cidades de todos os lugares do mundo. A informatização de tudo nos afastou de coisas simples que tínhamos no passado e que, hoje, parece um luxo, como ler um livro, fazer um telefonema, mandar uma carta, relaxar ouvindo uma música de olhos fechados.

A leitura de um livro torna-se, aos poucos, para a grande maioria das pessoas, um hábito obsoleto. Um telefonema longo, daqueles que se fazia no passado, é luxo. Grande parte de nós hoje prefere digitar uma mensagem num aplicativo, facilitando a comunicação e tornando mais difícil a interação, como se tivéssemos preguiça de falar, argumentar naquele momento, ouvir a entonação, descobrir qual é o tom certo de quem está interagindo… isso tudo é passado.

Escrever uma carta? Esse hábito já era. Quem teve o gostinho de enviar uma carta e ficar dias aguardando a resposta não sabe como é gostoso esperar, imaginando o que virá na mensagem, quais são as novidades, as emoções, a saudade.

Quando ouvimos uma música para relaxar, é comum estarmos com o celular na mão, checando e-mails, acompanhando as notícias nas redes sociais, lendo notícias em jornais on-line, mas quase nunca nos permitimos ouvir de fato, apenas ouvimos por ouvir, pois temos a sensação de que estamos perdendo um tempo muito precioso e escasso.

Cenário com gramado e árvores verdes ao fundo. No centro da imagem, há uma mão humana segurando um celular.

O tempo do ócio já passou. Hoje, quando estamos de folga, sem nada para fazer, começamos a procurar por uma atividade que ocupe nossas cabeças, pois ficar em silêncio sem fazer nada, ah, isso não pode acontecer. Não suportamos tamanho choque de realidade. Se ficarmos sem atividade, vai que resolvemos olhar a nós mesmos… isso seria doloroso demais. A impressão que tenho é que precisamos fugir de algo muito perigoso, precisamos fugir de olhar para nós mesmos.

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É um vício de se conectar, de não perder nenhuma novidade, de estar a par de tudo… quando, na verdade, o que está ocorrendo é que estamos ficando emburrecidos, pois é comum tomarmos como verdade algo que se diz, sem se procurar pela fonte, pela veracidade dos fatos.

Estamos na era do fake news e, para grande parte de nós, isso não importa. O que de fato importa é ler aquilo que vai ao encontro de nossas crenças, que fale de nossas antipatias, que compactue com nossa ideia do que seria um mundo ideal. Todos nós estamos emburrecendo com o excesso de informações que chegam prontas, as quais não suscitam uma reflexão, uma análise crítica, uma degustação das verdades reais que nos circulam.

Hoje, resolvi escrever sobre isso, pois eu estou muito sozinha, mesmo estando cheia de amigos virtuais, de notícias para ler, de luzes que chamam a atenção de minha retina nessas telas que estão por toda parte. Hoje, estou sedenta por uma rede e uma varanda, por uma música ao fundo e nada nas mãos, a não ser meus próprios dedos.

Hoje, estou sedenta por um carinho de um amor verdadeiro, por um companheiro que supra todas as minhas expectativas e que conduza comigo uma conversa tão aconchegante que me faça esquecer o mundo virtual, o mundo de mentiras e de aparências. Um homem vestido com roupa social anda sobre o topo de uma montanha com os olhos vendados. Ao fundo, há a imagem de uma cidade vista do alto.

Mas não há uma rede em que eu possa descansar neste momento, não há música que supra o meu vazio, não há amor verdadeiro. Talvez isso seja o sinal de que devo embalar a mim mesma, cantar para eu dormir e começar a me amar… É imensamente gratificante saber que ainda há tempo para isso…

Logo, apesar de tanto mau uso do tempo, é imensamente gratificante saber que ainda há tempo para nós… Quem sabe ainda há tempo para nos encontrarmos pelos caminhos a serem percorridos…

Sobre o autor

Andrea Ralize

Andrea Ralize

Escorpiana, professora de filosofia, revisora de textos, mãe de três seres de luz, praticante de yoga, estudante de Vedanta e, nas horas vagas, escritora de fragmentos da vida.

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