Autoconhecimento Comportamento

Carta para o meu avô

Avô com netinha nas costas
123RF | Lightfieldstudios
Jéssica Sojo
Escrito por Jéssica Sojo

Carta para o meu avô,

Domingo de sol e caloroso. Luminoso, semelhante à sua aura. Vamos caminhar até a feira e comer aquele pastelzão com calda de cana? Prometo que não vou me esconder entre as pessoas e os feirantes (risos). Nem mesmo reclamar da longa caminhada para chegarmos até a feira. Hoje vou chegar um pouquinho mais tarde da faculdade, será que é tarde para o senhor ser a minha cobaia nos exercícios de reabilitação física? Será que hoje conseguimos caminhar à noite e dialogarmos sobre a vida? Prometo que vou me comportar e não vou me esconder entre as pessoas (risos). Hoje é dia de clássico, será que o meu Palmeiras ganha do seu Corinthians? Quem será que vai ganhar o jogo?

Avô abraçando neta jovem e ambos sorrindo
Andrea Piacquadio | Pexels

À noite vou preparar um rango vegano, o senhor pode vir aqui em casa para tirar gargalhadas e falar que falta um “pedacinho de carne”? Hoje na aula aprendi alguns sinais em LIBRAS, e é incrível compartilhar e notar o seu interesse em aprender a dizer, com as suas mãos todas enroladas, um “oi” em Língua de Sinais. Hoje é dia de São Judas, será que vamos conseguir ir até a igreja rezar a missa? Vô, tem razão, preciso desacelerar nos estudos, não é mesmo? Dias atrás, aprendi sobre próteses auditivas, lembrei tanto do senhor tentando usar os seus moldes auditivos e os milhares de conselhos que já me presenteou nessa peregrinação.

Domingo ensolarado, como o dia em que o senhor cumpriu a sua jornada. Sinto tanto a sua falta, mas eu sei que, de onde quer que o senhor esteja, está iluminando a todos com a sua energia incrível, o seu carisma, a sua generosidade, as boas recordações, as gargalhadas gostosas de ouvir, os ensinamentos e o legado que deixou.

Parece que foi ontem que soube da notícia do seu falecimento. Que domingo radiante! Semelhante à sua aura. São tantos os momentos que eu adoraria estar compartilhando, recebendo o seu abraço e ouvindo a sua gargalhada. Dias desses, teve o clássico do futebol entre os nossos times, mas adivinha só quem ganhou? O seu todo-poderoso timão. Recordei-me das suas ligações, das vezes em que o seu time ganhava do meu e das gargalhadas que o senhor dava do outro lado do telefone, com a voz dizendo: “O seu time joga ruim mesmo, hein, Furrequinha?” Que saudades! Até mesmo das vezes em que eu também ligava para o senhor nos dias em que o meu time ganhava do seu e o senhor gargalhava comigo no telefone. Quando não, o senhor vinha até em casa e gargalhávamos os dois juntos.

Sinto tanto a sua falta, a falta dos nossos diálogos, de aprender que a vida, assim como o jogo, tem lá também os seus dias de altos e de baixos. Atualmente, estamos vivendo um momento de pandemia que tem nos ensinado muito. Tem sido dias de grandes ressignificações e de olharmos mais para dentro de nós mesmos. Dias em que nós não perdemos a esperança. Dias em que todos os seus conselhos têm servido de inspiração.

Mulher apoiada na janela com olhar distante e expressão séria
Juan Pablo Serrano Arenas | Pexels

Que saudades eu sinto do seu modo de enxergar a vida com tamanha sabedoria, amorosidade, paciência. Quantos ensinamentos pude aprender a enxergar após a sua ida. O tempo foi passando e há exatos cinco anos, num domingo radiante, tenho todos os dias aprendido a sempre me recordar da sua gargalhada, que representa a esperança para os dias mais desafiantes e inoportunos e também representa o abraço em meus dias mais vitoriosos, que todos os dias são.

Domingo de sol. Luminoso, semelhante à sua aura. Domingo, não são mais domingos de dor. São domingos de saudade e de amor. Hoje não teve o caldo de cana nem a sua presença aqui fisicamente, mas o senhor nunca deixou de estar presente em minha vida.

Esses dias, passei pertinho da sua casa e me recordei do senhor rindo no portão.

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Meu grandioso veterano da vida e avô, gratidão por todo o ensinamento e por tudo o que foi e ainda é. Será. Aqui. Agora. Sempre. Sol. Esperança, proteção, presença, energia e a saudade no infinito.

Torço para um dia poder reencontrá-lo e abraçá-lo. Quem sabe até ligar a TV no domingo e assistir ao clássico entre os nossos times e cairmos na gargalhada?

Estou com saudades e, por favor, mande notícias quando puder.

Abraços no infinito,

Furreca.

Sobre o autor

Jéssica Sojo

Jéssica Sojo

É custoso descrever quem sou eu – já que constantemente lapido, modifico e me transformo em um pouco de tudo e muito de cada pouco. Inicialmente posso compartilhar dizendo que sou extremamente curiosa, apaixonada pela comunidade surda, pela língua de sinais e por tudo que envolve a linguística.

Foi na faculdade de medicina e como acadêmica há alguns anos (com a esperança de trabalhar com o ser humano e suas limitações) que eu adentrei para um universo de que eu não fazia ideia que fosse possível existir e que pudesse trazer a bagagem que tenho hoje. Minha busca incessante pelo autoconhecimento e entendimento para muitos dos questionamentos que já tive (e continuo tendo) me fez despertar para o meu atual desígnio.

Minhas tantas outras peregrinações e experiências também contribuíram e muito com o meu desígnio – a começar pelo de compartilhar junto a vocês, leitores do EuSemFronteiras, sobre a primordialidade de enxergarmos para além do que nos visibiliza os olhos e lembrarmo-nos sempre de sermos semelhantes ao sol, mesmo em meio às sombras escarpadas montanhosas da vida.

Com todo o meu carinho e gratidão imensa,

Mãos em prece e um saudoso e caloroso abraço em cada um.

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