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Comportamento: Porque as pessoas traem?

Casal de mãos dadas com homem olhando para trás
123RF | Andriy Popov
Luiz Roberto Bodstein

“É preciso saber sofrer o que não se pode remediar.” -Osório

Todas as vezes em que descobrimos que fomos traídos por alguém a quem oferecíamos o melhor de nós, a tendência é nos perguntarmos o que fizemos de errado e em que momento cometemos uma falha que serviu como justificativa para uma pessoa nos trair. Isso é péssimo, pois abate terrivelmente a nossa moral, nos leva muitas vezes a duvidar se merecemos o amor de alguém ou vamos conseguir que nos amem de uma forma honesta e sincera. A compreensão do fato, no entanto, ajuda a recuperar a nossa autoestima e a fé nas pessoas, pois, o que leva alguém a trair não obedece, necessariamente, o modelo linear de causa e efeito.

Uma das coisas mais difíceis de lidar é descobrir que fomos traídos por uma pessoa a quem dedicamos tempo e amor de forma fiel e sincera. E, quanto maior for o nível de dedicação, lealdade e consideração, maior será a dor e o estarrecimento frente à dura realidade de se sentir traído. Isso porque nos ensinam desde cedo que, se agirmos de uma certa forma recebemos determinada resposta; e, fazendo de outra, o resultado também será outro. Não é assim? Só que as coisas não funcionam dentro desse pragmatismo, com um roteiro aplicável a cada contexto. Elas ficam à mercê de características, idiossincrasias e objetivos dos envolvidos, podendo abrir um leque bastante amplo de possibilidades.

Silhueta de casal de maos dadas com céu colorido ao fundo
Alex Iby | Unsplash

Se nos fixarmos na ideia de causa e efeito, quando um determinado tipo de comportamento conduz invariavelmente a uma mesma resposta, teremos encontrado a fórmula mais rápida para acreditar que algumas pessoas nascem fadadas ao fracasso ou que não há como mudar o mais temido dos desfechos, já que se trata de algo intrínseco à natureza da pessoa. No entanto, é preciso ter em mente que, na maioria das vezes, o modo como as pessoas agem conosco não tem uma relação direta com a forma como agimos com elas. Trocando em miúdos: o fato de agirmos de maneira nobre com alguém não nos assevera que sejamos contemplados com a mesma nobreza, como esperamos. E até quando não deixamos dúvidas sobre o quanto somos confiáveis, não teremos garantia de que o outro não trairá a nossa confiança.

Também não devemos achar que alguém nos traiu por não sermos bons o bastante. Isso fará com que seu moral vá lá para baixo, alimentando um sentimento de que somos incapazes de atender às expectativas do(a) parceiro(a) quer por aspectos estéticos, de desempenho sexual, status social ou alguma qualidade que acreditemos não possuir. Se fosse assim, pessoas carismáticas, bem-sucedidas ou portadoras de reconhecidas qualidades morais jamais seriam traídas. E o que se descobre pela análise de suas trajetórias é que isso não é real. Podemos, então, concluir que o fato de alguém nos trair não depende, necessariamente, da forma como pensamos, agimos ou demonstramos o quanto ela é importante para nós. Isso tem muito mais a ver com a visão de mundo que ela teme com o que ela considera importante. Isso significa que você pode ser a pessoa mais leal do mundo, a mais inteligente, a melhor parceira sexual, extremamente dedicada e atenciosa que, por uma simples questão de valores, nada vai impedir que seja traída. Vale dizer que também é inútil tentar estabelecer um “contrato de garantia” em que é acordado: “Eu ajo assim com você e você me promete não fazer tal coisa comigo.”

Olho visto de perto com lágrima escorrendo
Aliyah Jamous | Unsplash

Por mais duro que pareça, não é assim que funciona. Sabendo disso, já reduzimos substancialmente o sofrimento em relação às expectativas não correspondidas. E aí, nos perguntamos como escapar do sofrimento de ser traído “cruel e friamente” por quem amamos de forma tão exclusiva e apaixonada? Essa pergunta é difícil de ser respondida com uma regra que se aplique a todos os casos. Na verdade, não existe uma resposta única. Ainda que muitos adotem um conjunto de posturas na tentativa de não desabar como um castelo de cartas. São elas:

– atentar para o histórico de reações mais comuns oferecidas para diferentes situações;

– observar como o outro pensa em relação a conceitos tidos como importantes para a manutenção de um relacionamento, como lealdade, sinceridade e respeito mútuo;

– estar atento à coerência entre discurso e ação, ou seja, se o que é falado reflete a forma como a pessoa age com os outros e não apenas como ela se empenha em demonstrar com quem está se relacionando;

– analisar o senso crítico do outro para verificar se os valores supostamente apresentados no discurso se mostram presentes na prática. Não é difícil que, até por incapacidade intelectual ou falta de conhecimento, a pessoa tenha uma visão distorcida da realidade e cobre dos outros valores que não possui e sequer consegue perceber que ela mesma não tem.

Pernas de casal sentado em muro um do lado do outro
Dương Nhân | Pexels

Poderíamos estender bastante essa lista, dependendo do quão inseguro esteja quem está buscando por tais salvaguardas, para logo descobrir como é difícil obter garantias que previnam a dolorosa confirmação da traição. Primeiramente, porque é quase impossível colocar o outro em “stand by” até se obter o histórico que previna uma decepção futura. “O coração tem razões que a própria razão desconhece”, não é assim que se diz? Estaremos convencidos de que não nos envolveremos com alguém enquanto não houver certeza de que não seremos enganados? Conhecer o estilo de vida e os valores do outro pode reduzir os riscos da decepção, porém não os elimina porque existem aqueles que aplicam a máxima do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, de forma consciente ou não. Os que o fazem de forma inconsciente muitas vezes não possuem senso crítico para perceber o quanto são incoerentes no que dizem fazer e no que realmente fazem. Já os conscientes podem trazer na personalidade características como prepotência, vaidade ou arrogância em relação aos demais, o que os reveste de prerrogativas autoconferidas que não se estendem aos demais com os quais se relacionam. Uma ilustração típica seria o comportamento dos “coronéis” do século passado, que acreditavam poder fazer qualquer coisa, mas eram facilmente tomados pela ira quando se sentiam vítimas das ações dos que os cercavam.

Estar atento à coerência entre discurso e ação só é possível quando o relacionamento já está em andamento. Nessas condições, é pouco provável que haja isenção e independência suficientes para evitar que o sofrimento aconteça ao descobrir o comportamento indesejado da outra pessoa. Pode-se, no máximo, reduzir a intensidade, dependendo do estágio de envolvimento emocional e afetivo. No entanto, ficar checando se o parceiro tem consciência de suas incoerências apenas abre as janelas da desconfiança para as fronteiras comportamentais do outro, e isso pode tornar o relacionamento quase insuportável, pois cada nova evidência poderá se transformar em sinais claros de um sofrimento eminente, levando a relação a níveis de estresse que não conseguirão ser suportados.

A conclusão a que se chega, então, é de que o risco sempre existirá, independentemente de quem você seja, de como aja em relação à pessoa amada, ou do que ofereça em termos de dedicação, lealdade e confiança. Quem já traz um histórico de trair sem culpa irá fazê-lo, e aquele não o faz por hábito — mas não reage de forma inequívoca a certas situações — poderá fazer tão logo a oportunidade surja, e depois encontrará uma justificativa para aplacar a própria consciência. Aqueles que se mostram incapazes de distinguir entre o essencial e o supérfluo também o farão, já que não percebem quando trocam o que tem de mais importante pelo que não vai além de um momento circunstancial e irrelevante em sua vida.

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Por fim, a única alternativa que temos para preservar nosso equilíbrio e nossa autoestima, mesmo diante da tão temida e destrutiva traição, é ter consciência de que o risco nunca estará afastado, porque dependerá muito mais da outra pessoa do que de você. O importante é não puxar para si a culpa pelos erros do outro, especialmente quando seu coração disser que não contribuiu para o fato e que procurou fazer bem a sua parte. Se há uma coisa em que vale a pena acreditar é que a perda tende a ser maior para o outro lado por estar em condições mais difíceis de recuperação, uma vez que não exerce controle sobre o que deseja e, portanto, terá menos chance do que você de encontrar alguém que o faça feliz. Se isso se aplica a seu caso, levante a cabeça — mesmo sabendo que vai doer no começo — e parta para outra. Mais cedo do que imagina, você encontrará alguém que o mereça.

Sobre o autor

Luiz Roberto Bodstein

Luiz Roberto Bodstein

Formado pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduado em docência do ensino superior pela Universidade Cândido Mendes. Ocupou vários cargos executivos em empresas como Trimens Consultores, Boehringer do Brasil e Estaleiro Verolme. Consultor pelo Sebrae Nacional para planejamento estratégico e docente da Fundação Getúlio Vargas e do Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear (IBQN) para Sistemas de Gestão. Especializou-se em qualidade na educação (Penn State University, EUA) e desenvolvimento gerencial (London Human Resources Institute, Inglaterra). Atualmente é diretor da Ad Modum Soluções Corporativas, tendo publicado mais de 20 livros e desenvolvido inúmeros cursos organizacionais em suas diferentes áreas de atuação. Conferencista convidado por várias instituições de ensino superior, teve vários de seus artigos publicados em revistas especializadas e jornais de grande circulação, como “O Globo”, “Diário do Comércio” e “Jornal do Brasil”.

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