Autoconhecimento Convivendo

Conhecer a Si mesmo, a impossibilidade de ser autêntico na atualidade.

Mulher de olhos fechados abraça a si mesma.
Roman Samborskyi / 123RF
Escrito por Eduardo Rosa

Conhecer a ignorância interior é um dos maiores temores da humanidade hoje. Reconhecer que não se tem conhecimento sobre determinado assunto parece ser a pior coisa possível atualmente. Com isso, o conhecimento filosófico se torna cada vez mais rejeitado e desprezado por muitos, pois, para conhecer o interior, é necessária uma verdadeira guerra contra a ignorância.

Sócrates, pai da filosofia ocidental, desenvolveu a ideia de que o conhecimento não é encontrado em nenhum local a não ser dentro de Si mesmo, vivendo a frase do Oráculo de Delfos: “Conhece-te a Ti mesmo e conhecerás todo o universo e os deuses, porque, se o que procuras não achares primeiro dentro de ti mesmo, não acharás em lugar algum.” (Aforismo encontrava-se no pórtico de entrada do templo dedicado ao deus Apolo, na cidade de Delfos, Grécia, séc. IV a. C.). A partir dessa frase, o filósofo Sócrates praticava uma filosofia voltada para que as pessoas buscassem as respostas a todas as dúvidas dentro de si por meio de uma investigação interior.

Porém, ao buscar as respostas dentro de Si, depara-se com a falta de conhecimento, pois ninguém sabe tudo. E assim surgirá a máxima frase, também do filosofo grego: “Só sei que nada Sei”, pois, ao assumirmos que não sabemos algo, podemos nos dedicar à procura das respostas, as quais certamente encontraremos.

Isso mesmo! Só conseguimos aprender algo quando nós nos assumimos sem conhecimento, isto é, não é possível aprender algo que já pensamos saber. Somente com a certeza da ignorância é possível abrir a mente para o conhecimento e aprender coisas novas. Sócrates nos ensina como deve ser a forma de conhecimento filosófico: deve ser de forma investigativa sobre aquilo que não sabemos para descobrirmos que as respostas estavam o tempo todo dentro de nós mesmos, mas veladas pelo ideal do falso “conhecimento”.

Na era da tecnologia, que possibilita a todos livre acesso a um leque enorme de informações e a formas rápidas de expressar opiniões, a humanidade hoje vem formando inúmeros “intelectuais sem caráter”, isto é, pessoas que se denominam experts em determinados assuntos, porém não possuem conhecimento qualitativo sobre o tema. A tecnologia possibilita a facilidade para todos se expressarem democraticamente. Para isso, basta você ter algum aparelho tecnológico com acesso à internet para acessar todas as informações e expressar “conhecimento” sobre tudo, tornando inadequadas, “atrasadas” e fora da atualidade todas as pessoas que não compartilham das suas “verdades”.

Mulher sentada em cadeira enquanto digita em um computador.
cottonbro / Pexels

Com isso, o conhecer a Si mesmo se torna cada vez mais inoportuno e inaceitável, pois ninguém mais para nem um segundo do seu dia agitado a fim de se silenciar, escutar a própria consciência, ouvir a voz interior dentro de Si e se conhecer. As pessoas apenas formam sua personalidade conforme o outro planeja que seja formada, ou seja, as pessoas apenas copiam umas às outras e consideram um erro o pensamento socrático de “Conhecer a Si mesmo”, ou até mesmo a base de sua filosofia, que é reconhecer que nada sabe para poder então buscar o conhecimento, iniciando a busca dentro de Si.

Infelizmente, as pessoas não estão aptas para dizer “eu não sei”, mas apenas dizem suas convicções (mesmo que absurdas) sobre qualquer coisa e tomam aquilo como verdade, negando, além dos ensinos de Sócrates, os ensinamentos de outro grande filósofo, Rene Descartes. Ele promoveu a filosofia da dúvida, segundo a qual o filósofo deve duvidar de tudo e nunca tomar uma “verdade” como aceita, nunca aceitar que a verdade dita pelo outro é de fato verdadeira, mas deve ser comprovada pelo método científico.

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Que possamos ser pessoas evoluídas, pessoas que ouvem mais, que escutam os outros, os pássaros, o vento, a Si mesmo e por fim a nossa voz. Somente assim poderemos dizer palavras de fato verídicas, depois de passar pela nossa consciência, pelo método científico de Descartes, segundo o qual duvidamos até mesmo dos nossos pensamentos, para podermos nos expressar de forma mais atraente e verídica. Que possamos dar ouvidos ao silêncio, pois o silêncio é o som perfeito para buscar o conhecimento interior, e esse conhecimento, muitas vezes, vai nos ensinar que podemos guardar nossas opiniões e até mesmo a verdade para nós mesmos, pois dificilmente as pessoas estarão dispostas a ouvir algo que seja contrário aos seus conceitos criados de modo pré-conceitual e a ouvir algo que seja diferente de sua visão de mundo.

Sobre o autor

Eduardo Rosa

Formado em licenciatura em filosofia, especialista em filosofia e sociologia, assim como em Libras.

Possui vasto conhecimento na área de humanas, história, psicologia e religião.

Efetuou trabalhos sociológicos em religiões como cristã (católica), Islã, judaísmo, budismo, entre outras, e também em segmentos religiosos, como espiritismo e religiões de origem africana.

Possui conhecimento em línguas estrangeiras, como alemão, italiano e inglês, assim como em línguas antigas, como latim, hebraico e grego.

Estudante de gestão industrial.

Contato:
Email duhcosta07@gmail.com