Saúde Mental

Danos da pandemia: cérebro pandêmico, você tem?

Mente enevoada, dificuldade para tomar decisões, esforço para lembrar de coisas simples… Se você percebeu sinais como esses durante o isolamento social, pode ter desenvolvido o que os cientistas vêm chamando de “cérebro pandêmico”.

Por causa da exposição a um longo período de estresse (afinal, lá se vão mais de dois anos de pandemia), algumas áreas do nosso cérebro começaram a ser afetadas pela liberação do cortisol. Esse hormônio impacta não apenas o funcionamento de algumas regiões cerebrais, como também o seu tamanho.

Essa é uma descoberta de Barbara Sahakian, professora de Neuropsicologia Clínica da Universidade de Cambridge, que tem trabalhado desde 2021 em parceria com outros pesquisadores da Universidade de Fudan para avaliar os efeitos cerebrais do isolamento social. Eles notaram que os exames de imagem das pessoas em isolamento indicavam aumento do volume das regiões temporal, frontal, occipital e subcortical, além do hipocampo e da amígdala.

O resultado pôde ser sentido na prática, com prejuízos à memória e à concentração, como veremos a seguir.

Pandemia: burnout, estresse e saúde mental

Ao contrário do que muitos imaginam, o estresse nem sempre é algo negativo. Aquela adrenalina que sentimos quando precisamos entregar uma tarefa do trabalho em um prazo apertado, além de estimulante, é passageira. O problema está quando esse sentimento permanece por muito tempo.

Se você trabalha em um ambiente desgastante, no qual as cobranças acontecem o tempo todo, a situação pode atingir um nível de estresse insustentável – é o chamado burnout. A síndrome acontece quando há um esgotamento a ponto de o próprio corpo exigir descanso.

Como consequência, você se sente improdutivo, irritado, extremamente exausto e com a sensação de que nada vai dar certo.

Um homem colocando suas duas mãos no seu rosto. Ao redor dele, uma mesa repleta de instrumentos de trabalho.
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Isso porque, no caso do burnout, o estresse crônico diminui o tamanho do córtex pré-frontal, que é a parte do cérebro que nos ajuda a tomar boas decisões, nos concentrarmos, reter a memória e aprender coisas novas.

É justamente isso que aconteceu durante a pandemia – só que em proporções muito maiores. As restrições sociais e a incerteza do que aconteceria nos próximos meses criaram um clima terrível de insegurança em todos nós. Tamanho estresse comprometeu áreas importantes do cérebro, como o hipocampo e a amígdala.

Não à toa é tão comum ouvir as pessoas reclamando de esquecerem de reuniões importantes ou palavras familiares, já que o hipocampo é o grande “arquivo” da memória. A amígdala, por sua vez, é a responsável pelas emoções, daí a predominância da ansiedade e da depressão no pós-pandemia.

Mas como diferenciar o cérebro pandêmico de um estresse comum ou de outros transtornos ligados à saúde mental? Veja abaixo.

Sinais de que você pode ter cérebro pandêmico

Existem alguns sinais comuns a todos aqueles que desenvolveram o que os cientistas vêm chamando de cérebro pandêmico. Vejamos, a seguir.

Você tem esquecido das coisas com muita frequência

Como vimos, o hipocampo é uma das áreas mais afetadas pelo estresse excessivo, comprometendo a memória. Como é uma região que vai perdendo sua eficácia ao longo do tempo, os idosos costumam ser os mais atingidos, mas as crianças também podem apresentar dificuldades.

Você não consegue absorver coisas novas com a mesma facilidade

Um homem tapando seu rosto com um livro aberto.
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O hipocampo também é o responsável pelos processos de aprendizagem. Por isso, a sua diminuição pode atrapalhar a concentração. Alerta especial com as crianças que estão em plena fase de desenvolvimento social e de linguagem.

Você muda de humor constantemente

Várias partes do cérebro são sensíveis ao cortisol, inclusive aquelas ligadas ao bem-estar emocional. Se perceber oscilações de humor com muita frequência, fique atento.

Você se sente meio “perdido”

Outro efeito do cortisol tem a ver com a habilidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo e tomar decisões assertivas. É comprovado que o estresse crônico afeta diretamente o nosso raciocínio, por isso a sensação de “névoa cerebral”.

Você se sente extremamente instável

A pandemia foi mais dura para uns do que para outros. Se você perdeu algum ente querido ou trabalhou na linha de frente do combate à Covid-19, é de se esperar o surgimento de um quadro de estresse pós-traumático. Isso pode acarretar um sofrimento ainda maior, associado a transtornos mentais, como depressão e ansiedade.

Você enfrenta dificuldades para dormir ou comer

Numa cama, uma mulher com insonia.
khuncho007 de Getty Images / Canva

Como consequência de todos os sinais citados acima, estão os problemas na hora de regular o sono ou o apetite. Esses sintomas são reflexo direto do que está acontecendo na sua mente.

É possível reverter esse quadro?

Assim como toda situação de perda ou catástrofe, é possível superar. Não será de um dia para o outro, até porque, apesar de a pandemia estar dando sinais de melhora, ela ainda existe. O processo será lento e gradativo, mas acontecerá.

Para tornar isso um pouco mais fácil, aqui vão algumas dicas:

  • Acordar sempre no mesmo horário
  • Balancear a dieta
  • Fazer exercícios físicos com frequência
  • Jogar jogos de memória ou de tabuleiro
  • Aprender um novo idioma
  • Tocar um instrumento musical
  • Fazer trabalhos manuais, como tricô e crochê
  • Adotar o hábito da leitura
  • Quebrar a rotina
  • Meditar
  • Aprender novas funções da tecnologia
  • Escrever sobre suas memórias

Além dessas, há ainda muitas outras opções. Então estimule a criatividade!

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O cérebro pandêmico é um fenômeno que atinge boa parte da população mundial, portanto não se desespere, você não está sozinho. Se o problema persistir ou atrapalhar a sua vida pessoal e profissional, não hesite em buscar ajuda psicológica.

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