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Equidade e Igualdade: Do que a gente precisa?

Nas discussões mais recentes sobre os problemas da sociedade, muito se fala sobre a busca por igualdade, inclusive muitos dizem que todas as pessoas são iguais e que deveriam ter os mesmos direitos por causa disso, independentemente de gênero, etnia ou orientação sexual, por exemplo.

Embora essa perspectiva sobre a realidade tenha uma intenção positiva, a crença de que somos todos iguais é utópica, ou seja, em um mundo ideal, todos nós seríamos iguais e teríamos os mesmos direitos e oportunidades. Mas nós não vivemos no mundo ideal, e existem diferenças entre nós.

Por esse motivo, a equidade seria uma solução melhor para os problemas de desigualdade social. Se você nunca ouviu falar sobre esse conceito antes, prepare-se para ter uma grande revelação com o conteúdo que preparamos. Desvende de que maneiras podemos tornar a sociedade mais justa e respeitosa para todas as pessoas!

Mas, afinal, o que é equidade?

A primeira definição sobre equidade que é disseminada foi elaborada pelo filósofo Aristóteles. Em um linguajar pouco usual atualmente, ele descreve que a equidade está relacionada ao conceito de proporcionalidade e de justiça. Para entender como esses três conceitos se relacionam, observe um exemplo:

A pessoa X tem cinco maçãs para comer durante a semana. A pessoa Y, por outro lado, tem apenas três maçãs para comer no mesmo período. Em uma caminhada, essas duas pessoas encontram duas maçãs. Se cada uma delas ficar com uma das maçãs, como seria justo, a pessoa X terá seis maçãs para comer durante a semana e a pessoa Y terá apenas quatro maçãs para os próximos dias.

É nesse ponto que entra a proporcionalidade. Isso porque a pessoa X já tinha uma quantidade maior de maçãs do que a pessoa Y, então, proporcionalmente, seria melhor que a pessoa Y ficasse com as duas maçãs encontradas. Dessa maneira, ambas teriam cinco maçãs para comer durante a semana. É assim que a equidade funciona.

Por meio desse conceito, a realidade da sociedade é analisada, antes de serem adotadas medidas para promover a igualdade. Em vez de simplesmente dividir as duas maçãs em duas pessoas, por exemplo, será investigado quantas maçãs cada uma já tem. É preciso, então, reconhecer as desigualdades já existentes, em primeiro lugar.

Mãos negra e branca com os dedos levantados.
Priscilla Du Preez / Unsplash

Em segundo lugar, é necessário adotar uma medida para alcançar o equilíbrio entre as pessoas. Essa medida pode soar como desigual, ainda que seja justa, porque as pessoas negativamente afetadas pela desigualdade recebem um privilégio que as outras não têm. Entenda como isso funciona na prática, com exemplos que você já conhece:

1) Cotas para entrada nas universidades

Alvo de muitas críticas, as cotas para entrada nas universidades são uma medida para a promoção da equidade, porque elas são oferecidas para as pessoas que tiveram menos oportunidades de acesso a uma educação de qualidade durante a vida escolar e que estão concorrendo com quem pôde estudar em boas instituições.

Imagine, então, duas pessoas: B e C. B sempre estudou em escolas particulares e se preparou para os vestibulares durante anos. C, por outro lado, precisava trabalhar enquanto estudava e só frequentou escolas públicas. Se B e C fizerem a mesma prova, B tem uma vantagem sobre C, certo? Com as cotas, existe uma chance de reduzir essa diferença.

2) Lei Maria da Penha

A Lei Maria da Penha é destinada a mulheres que são vítimas de violência doméstica. Essa medida é um exemplo de promoção de equidade porque, devido ao machismo e ao feminicídio, as mulheres têm mais chances de serem agredidas e assassinadas pelos familiares delas, em comparação com os homens. É por isso que não faria sentido a existência de uma Lei Maria da Penha para os homens.

Para acolher e auxiliar as vítimas de violência doméstica com mais eficiência, a Lei Maria da Penha foi desenvolvida. Mesmo que ela não resolva o problema da desigualdade de gênero, é uma estratégia para lidar com as consequências dela, de forma a garantir que as mulheres violentadas serão ouvidas.

3) Preferência para a contratação de pessoas LGBTQIA+

Bandeiras LGBTQIA+.
daniel james / Unsplash

Nas vagas de emprego disponibilizadas atualmente, é comum ver que elas apresentam preferência para a contratação de pessoas LGBTQIA+. Em resposta a isso, muitas pessoas cisgênero e heterossexuais podem acreditar que estão sendo vítimas de preconceito, afinal se a vaga desse preferência para elas, seria errado, não é?

Mas essa medida de equidade não é discriminatória. Na verdade, é uma maneira de incluir as pessoas LGBTQIA+ no mercado de trabalho, uma vez que elas são frequentemente demitidas ou sequer contratadas por serem quem elas são. Uma pessoa cis e hétero nunca deixou de ser contratada ou foi demitida por ser cis e hétero, então a preferência apontada é uma tentativa de correção da desigualdade.

Equidade e igualdade: qual é a diferença?

Depois de se aprofundar no conceito de equidade, talvez você esteja tentando entender por que ele é diferente do conceito de igualdade. O motivo disso é que a igualdade sempre foi apresentada como uma solução universal para os piores problemas do mundo, e dificilmente é vista como algo negativo, portanto como a equidade pode ser melhor do que ela?

Para entender essa questão, você deve compreender que a equidade é o caminho para a igualdade, isto é, a igualdade entre as pessoas só pode ser obtida se as diferenças existentes entre elas forem superadas, por meio da equidade. Você vai entender melhor com um exemplo:

Na cidade ABC, as pessoas brancas sempre tiveram casas próprias onde morar, e a chance de guardar um pouco do dinheiro que elas ganhavam, todos os meses, porém as pessoas pretas da cidade ABC sempre moraram nas casas das pessoas brancas, em um regime de escravidão, e não recebiam um pagamento pelo trabalho delas.

Quando a escravidão foi abolida, as pessoas pretas de ABC poderiam viver livremente, tendo uma casa própria e um trabalho assalariado, ou seja, elas se tornaram iguais às pessoas brancas, certo? Errado.

Mesmo que esse cenário pareça a conquista da igualdade, é preciso lembrar que as pessoas brancas sempre tiveram uma casa própria e dinheiro, além de serem livres. Como as pessoas pretas nunca tiveram acesso a esses dois itens, como elas podem ser iguais às pessoas brancas? Onde elas vão morar? Como vão se sustentar?

Nesse sentido, o ideal seria desenvolver um programa de moradia e um programa de emprego para as pessoas pretas, que vão começar a construir a própria vida agora. As pessoas brancas não vão ter acesso a esses mesmos programas, porque elas não precisam deles, então esses programas estão tentando corrigir a realidade por meio da equidade.

Mulher branca e homem negro.
Kelly Searle / Unsplash

No futuro, quando as pessoas brancas e as pessoas negras já tiverem as próprias casas e o próprio dinheiro há muito tempo, elas estarão em pé de igualdade. Mas isso só terá acontecido por causa da equidade, que desenvolveu um mecanismo para que as desigualdades entre elas pudessem ser superadas.

Dessa maneira, a diferença entre igualdade e equidade é que a igualdade desconsidera as diferenças preexistentes entre as pessoas, enquanto a equidade identifica e corrige essas diferenças.

Entendi tudo, mas e agora? O que a gente faz?

Agora que você já sabe sobre a importância da equidade para a resolução dos problemas sociais, está na hora de assumir o seu papel nesse processo. Saiba quais atitudes você pode tomar para contribuir com a busca por uma sociedade mais justa!

1) Reconheça seus privilégios

Reconhecer os seus privilégios é fundamental para compreender a equidade. Por meio dessa atitude, você vai entender que ações afirmativas, por exemplo, não são “preconceito reverso” ou uma injustiça. Pelo contrário, você vai compreender que outras pessoas nunca tiveram as mesmas condições e oportunidades que você e é preciso corrigir essa realidade.

2) Apoie quem está historicamente em desvantagem

As pessoas que estão historicamente em desvantagem em relação às outras são as vítimas de preconceito e de opressão. Se você tiver a oportunidade de oferecer uma vaga de emprego para elas ou se puder apoiar o trabalho que elas desenvolvem, faça isso. Também preste atenção ao que essas pessoas dizem sobre as realidades que elas vivem, para entender como você pode ajudá-las.

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3) Conscientize outras pessoas sobre o assunto

Quanto mais pessoas entenderem a importância da equidade e o motivo para ela existir, mais facilmente esse conceito será aplicado às nossas vidas, por isso converse com seus amigos e familiares sobre o tema, para que eles reconheçam que algo que parece injusto pode ser, na verdade, um caminho para a igualdade.

Considerando cada informação apresentada, entendemos que a equidade é um caminho para alcançar a igualdade social, que nós tanto buscamos. É preciso corrigir as desigualdades por meio de ações afirmativas, como cotas, e com atitudes diárias, apoiando quem está em desvantagem há muito tempo. Continue aprendendo sobre o assunto para melhorar a sociedade!

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