Convivendo

Como ser feliz no mundo V.U.C.A.?

As letras V,U,C e A posicionadas lado a lado em grama.
123rf/Thanee Hengpattanapong
Chirles de Oliveira
Escrito por Chirles de Oliveira

Você já deve ter lido alguma explicação sobre o mundo V.U.C.A. Se não, vamos navegar por esse acrônimo que visa a explicar as impermanências da nossa sociedade contemporânea ou, como diria Zygmunt Bauman, da modernidade líquida. O mundo da velocidade, do instante, da imagem, da complexidade, do ambíguo e do incerto.

O termo V.U.C.A. nasceu do acrônimo das palavras da língua inglesa “volatility”, “unncertainty”, “complexity” e “ambiguity” (em português: “volatilidade”, “incerteza”, “complexidade” e “ambiguidade”, respectivamente).

Volatilidade – Trata-se do volume e da agilidade com que as mudanças ocorrem no mundo. Isso torna muito mais difícil a capacidade de as organizações acompanharem o mercado, então é preciso agir rapidamente diante de tais circunstâncias.

Mulher escrevendo em tablet com caneta própria. Na tela do aparelho, vemos as letras VUCA e desenhos embaixo de cada letra na ordem: um gráfico instável, pontos de interrogação, um labirinto, e setas indicando vários lados.
123rf/wrightstudio

Incerteza – Já a incerteza se trata da incapacidade de prever resultados futuros, mesmo quando as análises são baseadas em dados presentes. A imprevisibilidade é o principal elemento que dificulta a aplicação de novas soluções. Profissões de hoje não existirão no futuro e novas surgirão. Quais serão? Alguém tem apostas? O futuro é incerto.

Complexidade – Aqui, conectividade e interdependência são fatores que dificultam a capacidade de agir. A natureza interconectada e interdependente dificulta prever o resultado das decisões de negócios em ambientes complexos.

Ambiguidade – Já a ambiguidade se resume à falta de clareza e concretude, o que dificulta a capacidade de encontrar a relação entre causa e efeito ao analisar determinado acontecimento. Ou seja: é a interpretação dúbia dos fatos que prejudica a capacidade de encontrar uma solução para determinado fenômeno. Se todos podem ter razão, como tomar decisões?

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Como profissional, já parou para pensar em quais habilidades emocionais são necessárias para não pirar diante dessa avalanche de mudanças tão aceleradas? É preciso desenvolver visão e clareza para não sucumbir a tais mudanças voláteis, para não enveredar por caminhos que nos levem ao sofrimento, como os transtornos de ansiedade a síndrome de burnout ou alguma falta de saúde mental que causa infelicidade na vida e no trabalho.

Como afirmou o futurologista Ian Pearson, no futuro dominado pela tecnologia, internet 5G, automação e inteligência artificial, é fundamental desenvolvermos a inteligência emocional – as soft skills e as happiness skills – para manter serenidade, sabedoria, lucidez e continuar trabalhando com motivação intrínseca numa vida com sentido.

A ciência da felicidade tem ganhado cada vez mais investimentos para pesquisa em universidades como Harvard, Yale e Pensilvânia; foi nessa última onde nasceu a psicologia positiva, em 1986, fundada pelos psicólogos e pesquisadores Marting Seligman e Mihaly Csikszentmihalyi.

Acrônimo de VUCA escrito em caderno, com as iniciais em vermelho e o resto das palavras em preto.
123rf/Vitaliy Vodolazskyy

Desde então, os estudos sobre o que gera felicidade no ser humano cresceram vertiginosamente, demonstrando que a ciência pode ser grande aliada na discussão do assunto. Dentro dessa perspectiva, a doutora Barbara Fredrickson, pesquisadora do Laboratório de Emoções Positivas e Psicologia da Universidade da Carolina do Norte, nos EUA, escreveu o livro chamado “Positivity”, em que aborda as 10 emoções positivas identificadas pelos participantes como as mais poderosas em suas vidas. Ela afirma que se cultivarmos essas emoções sentiremos mais positividade e, por consequência, maior bem-estar em nossas vidas.

Uma dessas emoções é a serenidade. Para desenvolvê-la em nosso cotidiano, é primordial lançarmos mãos das técnicas e de práticas da meditação. Uma delas, a mais conhecida no mundo corporativo, é o mindfulness, um programa que ensina a prática da atenção plena, para manter um estado mental focado no agora, na experiência do presente, não na ansiedade do futuro ou no paradigma do medo diante dessa VOLATILIDADE.

Para a INCERTEZA é preciso desenvolver uma das sete happiness skills defendidas pelo neurocientista Richard Davidson, em seu livro “Neurociência da felicidade”. A neurociência já atestou que o bem-estar humano pode ser elevado com o treinamento, portanto podemos treinar e desenvolver a resiliência, que é a capacidade de recuperação diante das adversidades. Com uma mente flexível, aprendemos que as lições não surgem para nos derrubar, mas para nos fazer mais fortes e mais corajosos, despertando nossa POTÊNCIA.

Acrônimo de VUCA com as iniciais em vermelho neon, e as outras letras em azul neon.
123rf/Evgeny Gromov

Ser resiliente é o esforço de ser você mesmo, com seus erros e acertos, com sua vulnerabilidade, tendo coragem para ir atrás dos seus sonhos e dos seus desafios. Seja autêntico, siga sua intuição e entregue ao mundo a sua melhor intenção. Numa sociedade que não aceita as falhas ou os erros, ser flexível e resiliente fará toda a diferença na sua tomada de decisão.

Agora chegou a vez de abordar o C de COMPLEXIDADE. Quando estudei ciências holísticas e economia para transição, num certificado de 8 meses na Escola Schumacher Brasil, tivemos um módulo sobre complexidade. Não é nada simples entender as conexões do vir a ser, do comportamento emergente de muitos sistemas, da complexidade das redes, da teoria do caos, da autorregulação do planeta etc. Lembro de ficar encantada com a expressão “vir a ser” e da observação da natureza para entender os movimentos dos pássaros no evento denominado murmuration* como símbolo da complexidade.

Pois bem, para compreender a complexidade é preciso desenvolver uma mentalidade holística e não linear, pois assim também são os princípios da natureza. A natureza é colaborativa, integrada, interdependente e conectada em ecossistemas vivos. O ambiente complexo exige perspectiva que vai além de identificar as ameaças e as oportunidades a serem avaliadas. Em outras palavras, liderar por meio da complexidade significa pensar de maneira não linear. Não é o controle que impera, mas o sentir que estimula a intuição, a criatividade e a solução de problemas por meio da inteligência colaborativa.

Para o C de complexidade, que tal desenvolver as habilidades da colaboração, da compaixão, da cocriação com a cabeça aberta, do coração aberto e da vontade aberta, que são os princípios da Teoria U, de Otto Scharmer, do MIT. A capacidade de julgar menos, de acolher mais e de desenvolver uma escuta e uma comunicação empática podem gerar ideias inovadoras e soluções para problemas que estão até hoje assolando nossa sociedade.

Quais habilidades são importantes em um contexto de AMBIGUIDADES? É preciso continuar falando de empatia, pois essa é a moeda do futuro. Não só de software nem de hardware viverá nossa humanidade, mas também de heartware, como um dia ouvi o Felipe Teobaldo argumentar em uma palestra na Universidade Anhembi. Meus alunos ficaram extasiados com o poder de argumentação do Teo sobre empatia.

Na Schumacher College, aprendemos a alinhar mãos, mente e coração. Isso traz inteireza, clareza, sentido e autenticidade ao ser. Revelar o propósito de vida e de carreira é fundamental para encontrar nosso encaixe e fazer a diferença no mundo. Mas tudo só tem sentido quando vivemos de forma empática, quando compartilhamos a felicidade e quando construímos a realidade com menos competição, comparação e julgamentos.

Nuvem de palavras de auto-ajuda em inglês com a sigla VUCA no centro.
123rf/dizanna

O engajamento nas organizações virá de um modelo de liderança capaz de trazer um novo olhar para os mesmos modelos ou até de criar novos modelos baseados no protagonismo, na autonomia, no sentido de pertencimento, do estímulo da competência e no desenvolvimento do propósito do colaborador alinhado com os valores e os propósitos da organização. Mas esse é o tema para o próximo texto.

E aí, como você está se preparando para o futuro do trabalho diante do contexto social-tecnológico-econômico tão V.U.C.A?

*Enquanto voam, os estorninhos, em um murmúrio, parecem estar conectados. Eles torcem, viram e mudam de direção a qualquer momento. Como centenas ou mesmo milhares de pássaros coordenam movimentos tão complicados durante o voo? Assista ao vídeo no link acima, na palavra murmuration (é sensacional!).

Sobre o autor

Chirles de Oliveira

Chirles de Oliveira

Sou jornalista de formação, mestre em Comunicação e Práticas de Consumo pela ESPM/SP, pós-graduada em Marketing e Propaganda e atuo como docente do ensino superior na graduação e pós-graduação.

Na minha busca pela sustentabilidade e felicidade experiencial, fiz a certificação em Ciências Holísticas e Economia para Transição pela Escola Schumacher Brasil, trabalhei como voluntária na comunidade Schumacher College, sou facilitadora em Felicidade Interna Bruta pelo FIB-Feliciência e tenho formação em Psicologia Positiva pelo IBC - Instituto Brasileiro de Coaching. Sou professora e praticante de Yoga.

Busco o autoconhecimento e penso que o grande desafio da vida é equilibrar o lado profissional, pessoal, social e espiritual. Eu, sinceramente, acredito no poder da transformação, da ressignificação das experiências da vida, da resiliência, da gratidão, da gentileza e compaixão. Eu acredito que podemos desenvolver um mindset da felicidade e desmistificar os preconceitos em relação ao tema.

E assim, por inspiração, surgiu o blog Felicidade Sustentável em março de 2015, cuja missão é informar, inspirar, compartilhar as boas práticas, agregar valor à vida e senti-la pulsando em alta potência! É vida que flui e promove sempre bons encontros!

Agora o blog transforma-se em um portal com conteúdos online e ofertas de cursos, workshops e palestras com embasamento na Ciência da Felicidade, na Psicologia Positiva, na Neurociência, no Sistema FIB e pela história de vida (Walk the Talk).

Não damos receitas de felicidade (só receitas saborosas e saudáveis! rsrs), mas esperamos que cada um encontre aqui algumas “pílulas” ou trilhas para viver a Felicidade Sustentável, no seu tempo, respeitando a sua individualidade e despertar… Porque, como canta Caetano Veloso, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

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