Convivendo Trabalhos Sociais e Voluntários

Extensão Universitária: o lugar de protagonistas para alunos com Necessidades Educacionais Especiais.

Homem se comunica com menina através da linguagem brasileira de sinais (libras).

Já faz algum tempo que não escrevo aqui neste espaço, mas pode ter certeza, eu queria escrever algo que fosse muito importante e que contribuísse para ampliar o conhecimento sobre algumas ações que acontecem nas universidades, e em especial algo que mostrasse como esse tipo de trabalho favorece uma formação mais humana para os alunos no ensino superior.

Em especial quero relatar a nossa experiência, sim, nossa, de alunos voluntários e de uma aluna bolsista de extensão na PUC-Campinas, onde sou docente há mais de cinco anos. Neste biênio 2018-2019, que está prestes a encerrar-se, posso dizer com grande entusiasmo que foi um trabalho muito enriquecedor, tanto para mim quanto para os envolvidos, inclusive para a escola parceira na cidade de Campinas, que nos acolheu com nosso projeto.

As ações extensionistas são tão importantes que a partir da Lei 13.005/2014, estratégia 12.7, da Meta 12, do Plano Nacional de Educação (PNE 2014-2024), os cursos de graduação passam a assegurar 10% de seus créditos curriculares em programas e projetos de extensão universitária.

Extensão universitária denota prática acadêmica, a ser desenvolvida, de forma indissociável com o ensino e com a pesquisa, com vistas à promoção e garantia dos valores democráticos, da equidade e do desenvolvimento da sociedade em suas dimensões humana, ética, econômica, cultural, social (C.F. 1988. Art. 207) (Universidade Federal de Pernambuco, 2017).

Três meninas se comunicam com libras com algúem atrás da câmera

Nosso projeto nasce a partir de algumas reflexões que levam em consideração o aluno surdo nos diferentes contextos:

1. Somente na cidade de Campinas o IBGE computou mais de 48 mil pessoas com problemas auditivos, esses números não apenas chamam a atenção da sociedade para a crescente demanda de pessoas bilíngues (português e Libras) como também mostram a urgência de ações afirmativas em prol dessa minoria linguística, hoje tão isolada dos produtos culturais da sociedade brasileira e oral.

2. É preciso incluir os professores e demais alunos no mundo daqueles que se valem de uma língua visual, colaborando para a minimização das barreiras linguísticas e dirimindo os preconceitos com relação à capacidade de o surdo aprender português, em especial em seu registro escrito.

3. Oferecer ao aluno bolsista de extensão e aos alunos voluntários de extensão, sendo o primeiro uma aluna surda do curso de biologia, a oportunidade de aprimorar o conhecimento linguístico em Libras dentro da realidade escolar enquanto agrega o uso dos recursos tecnológicos para utilização e difusão da mesma.

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Os projetos de extensão têm como objetivo levar a graduação para dentro da comunidade do entorno, a fim de colocar os alunos em situações reais. Atrelando teoria e prática, esses projetos conseguem desenvolver ações inovadoras e afirmativas com alunos de diferentes áreas do conhecimento, como saúde, direitos humanos e educação.

Nosso projeto âncora, que recebeu o nome LIBRAS EM AÇÃO: COMUNIC(AÇÃO) PARA ALÉM DA INCLUSÃO, pretendeu alcançar alunos e professores da escola, assim com o trabalho da aluna Clara Naomi Del Porto Nicolau, agora finalizando seu curso de biologia, auxiliada pelos alunos voluntários que passaram pelo projeto: Margarida Costa Phillips (artes visuais), Vinicius Silva Macedo (engenharia ambiental), Aline Cardoso Barbosa e Tatielli Sposito Mendes (fonoaudiologia), foram realizadas várias atividades, em especial no ano de 2019, quando foram ministradas aulas em Libras na escola aos alunos ouvintes e a pedido deles, uma vez que a escola tem vários alunos surdos em diferentes turnos.

As aulas foram aplicadas nos dois semestres, compondo um módulo básico 1 e outro básico 2, este último para propiciar aos alunos maior fluência, dada a especificidade da gramática da Língua de Sinais Brasileira.

Os professores e os intérpretes foram convidados a participar de uma oficina virtual de 20 horas no Ambiente Virtual de Aprendizagem da PUC-Campinas, com o tema “DIDÁTICA E MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA NO CONTEXTO DE EDUCAÇÃO DO SURDO, com o objetivo de levar os professores a refletirem sobre a necessidade de repensarem estratégias diferenciadas, especialmente visuais, para auxiliarem os alunos surdos no contexto de aula, ainda que estes tivessem o auxílio de intérpretes.

Finalmente, este texto tem interesse de chamar a atenção daqueles envolvidos com o contexto educacional nos diferentes níveis, ensino básico, médio e superior, mostrando que dar ao aluno surdo o lugar de protagonista em projetos e ações afirmativas é de fato pensar numa inclusão que respeita e que oportuniza seu crescimento humano e profissional. Enquanto modelo linguístico, a nossa aluna conformou-se em reforço positivo para os alunos surdos da escola, seu modo de conduzir as aulas e sua percepção foram fatores que favoreceram o sucesso das ações.

Outrossim, o trabalho dos voluntários foi muito importante; como mediadores e auxiliares em diferentes momentos, esses alunos puderam conhecer o contexto educacional e como a inclusão de alunos surdos tem acontecido em muitas escolas.

É com grande alegria que estamos encerrando este trabalho e como grupo gostaríamos que outros soubessem como é importante dar voz e lugar às pessoas com Necessidades Educacionais Especiais. Não importa qual seja sua limitação, todos podem contribuir com suas experiências nos projetos de extensão.

Estudantes aprendendo libras.

O aluno voluntário de extensão também é muito importante, porque além de dar o seu tempo e conhecimento, também produz qualidade de vida e muita alegria em espaços fora dos muros da universidade. Por isso, quando vemos os frutos desse trabalho, percebemos quão valioso ele é.

E se você, caro leitor, não está na universidade, também pode ser voluntário. Não importa a área ou o curso, existe espaço para todos colaborarem. Há tantas instituições que precisam do seu tempo e do seu amor.

Então que tal colocar nos seus planos para 2020 ser voluntário e ajudar uma instituição, sua comunidade, seu vizinho? São tantas as opções!

Se você não está no ensino superior, não se preocupe, alguma coisa você pode fazer por alguém! Como dizem os jovens: borá lá!

Referências:

BRASIL, Ministério da Educação e Cultura (MEC). Plano Nacional de Educação. PNE. 2014 a 2024. Lei 13.005/2014. Metas. Brasília: 2014.

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Superior. Extensão Universitária: Organização e Sistematização. Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras. Universidade Federal de Minas Gerais. PROEX. COOPMED Editora, 2007.

MARQUES, J.R. A importância do Trabalho Voluntário. Blog. 05/11/2016

Mário Sergio Cortela – A vida é curta para ser pequena – Benjamim Diraeli

Sobre o autor

Prof.ª Dra. Ruth Maria Rodrigues Gare

Prof.ª Dra. Ruth Maria Rodrigues Gare

Doutora em Educação com pesquisa na área de letramento de surdos e formação de professores. Formação em Publicidade/Propaganda; Letras e Pedagogia. Especialista em Libras, Educação Empreendedora, Gestão Escolar, Design Instrucional EaD e Aperfeiçoamento em Atendimento Educacional Especializado. Pós-doutora em Educação pela Universidade São Francisco com pesquisa na área de educação de surdos em aspectos linguísticos textuais. Atuou como docente de Libras na Universidade São Francisco por 7 anos e como docente em curso de pós-­graduação de Libras com disciplinas voltadas ao ensino de português ao surdo e produção de material pedagógico na Faculdade de Jaguariúna. Atualmente é docente com dedicação exclusiva na PUC­ Campinas onde atua desde 2014, quando do regresso de doutorado sanduíche na Universidade do Minho em Portugal.