Convivendo Educação

Língua de Sinais: mitos e verdades

Parece estranho começar assim esse texto, mas tal escolha se deve ao fato de que muita gente ainda não sabe bem o que vem a ser uma Língua de Sinais. Bem, vamos tentar de forma bem breve e sucinta dizer do que se trata.

As Línguas de Sinais são muitas, cada país tem a sua, isto porque cada uma delas tem base no sistema linguístico do país, ou seja, sua base está na língua oral. Aqui no Brasil a Língua de Sinais Brasileira, conhecida  como Libras, é oficialmente o 2º idioma do País, tendo sido reconhecida com status de Língua pela Lei 10.436/2002 e regulamentada pelo decreto 5.626/2005, este último sendo o documento norteador das ações para uso e difusão da Libras no País.

Para chegar a esse reconhecimento a comunidade surda vem travando uma árdua luta junto aos responsáveis pelas políticas públicas em Educação no Brasil, embora tenham sido muitos os avanços desde então, ainda há muito para ser feito em prol dos surdos, especialmente na educação básica. Embora hoje muitos alunos já tenham intérpretes em sala de aula, ainda são muitas as discussões em torno da formação destes profissionais, dos recursos pedagógicos e de outras barreiras comunicativas impostas pela sociedade de maioria ouvinte e falante de português.

Trazida da França por Hernest Huet, a pedido do então imperador D.Pedro II, o professor surdo em 1857, foi responsável pela primeira escola para surdos no Rio de Janeiro, hoje conhecida como FENEIS, entretanto, de lá para cá não foi tudo muito fácil para os surdos. Além disso, nem sempre a língua de sinais imperou tranquilamente, pois diferentes abordagens comunicativas foram sendo introduzidas e diferentes correntes teóricas impunham a oralização e negavam a oportunidade de os surdos usarem a língua de sinais, por diferentes argumentos, como por exemplo, muitos achavam que a língua de sinais era apenas um gestual sem muita elaboração e significado.

shutterstock_249702043-2Atualmente a Libras, como todas as outras línguas de sinais, são consideradas capazes de comunicar e expressar e, assim como as línguas orais acontecem de forma estruturada, possui níveis linguísticos, tem estrutura gramatical e precisa ser sinalizada corretamente, ou seja, a língua tem parâmetros como ponto de articulação, orientação, movimento, configuração de mão e expressões (faciais).

Então, é mito dizer que língua de sinais se constitui apenas de gestos, a Libras é uma língua que se realiza socialmente na comunidade surda sinalizante. Outro mito é achar que o surdo não aprende a ler e escrever, pois já está provado cientificamente que lemos com os olhos, mas é o nosso cérebro que faz o resto, assim, mesmo sem a audição, os surdos leem as mãos. Portanto, quando aprendemos a Libras para nos comunicar com pessoas surdas falantes de Libras, nossas mãos fazem o papel da boca e os olhos dos surdos se tornam seus ouvidos. Diante de condições pedagógicas apropriadas e profissionais qualificados o surdo aprende a ler e escrever, dito de outra forma, passa a ler o mundo, consequentemente vai para o mercado de trabalho, viaja, se diverte, enfim, na superação da barreira comunicativa pode viver em sociedade como todos nós.

Outro fator que precisa ser levado em conta é que mais do que aprender Libras é preciso conhecer um pouco do universo da pessoa surda, pois só na interação com essas pessoas é que muitos pré-conceitos podem deixar de existir. Assim, ao entendermos melhor suas necessidades e seus modos de percepção da vida através das imagens, poderemos pensar novas formas de diminuir a desigualdade social que ainda afeta esta comunidade.

Quando as pessoas tiverem mais informações sobre a Libras e das singularidades surdas, talvez não ouçamos mais chamarem os surdos de  surdo-mudo (erro social convencionado em documentos antigos), surdinho ou mudinho (não é nada carinhoso). Mesmo o termo deficiente auditivo é discutido, por isso alguns teóricos utilizam a terminologia adotada pelo MEC (Ministério da Educação e Cultura): deficiente auditivo está para aqueles que têm perda auditiva parcial ou total, mas não interagem com a comunidade surda e não utilizam a Libras e surdo para aqueles que frequentam ou não a comunidade surda, mas se comunicam por meio da Língua de Sinais Brasileira. Nestas escolhas estão implícitas as questões de identidade cultural, que ora podem ser de ouvintes ou surdas, mas isso fica para outro artigo.

Mais uma coisa para encerrar, Libras não é linguagem, é Língua visual-espacial.


 

¹ Carta Aberta dos 7 doutores surdos do Brasil disponível em: https://docs.google.com/file/d/0B8A54snAq1jAQnBYdVRPYmg1VUk/edit?pli=1

Sobre o autor

Prof.ª Dra. Ruth Maria Rodrigues Gare

Prof.ª Dra. Ruth Maria Rodrigues Gare

Doutora em Educação com pesquisa na área de letramento de surdos e formação de professores. Formação em Publicidade/Propaganda; Letras e Pedagogia. Especialista em Libras, Educação Empreendedora, Gestão Escolar, Design Instrucional EaD e Aperfeiçoamento em Atendimento Educacional Especializado. Pós-doutora em Educação pela Universidade São Francisco com pesquisa na área de educação de surdos em aspectos linguísticos textuais. Atuou como docente de Libras na Universidade São Francisco por 7 anos e como docente em curso de pós-­graduação de Libras com disciplinas voltadas ao ensino de português ao surdo e produção de material pedagógico na Faculdade de Jaguariúna. Atualmente é docente com dedicação exclusiva na PUC­ Campinas onde atua desde 2014, quando do regresso de doutorado sanduíche na Universidade do Minho em Portugal.