Autoconhecimento

Implicância em Relacionamentos

Mulher com cara de desconfiada ao lado de seu namorado.
Anand Nisargan
Escrito por Anand Nisargan

Olá, para quem não me conhece o meu nome é Nisargan. Eu focalizo retiros de meditação aqui, no espaço presença. Nosso assunto hoje: implicância em relacionamentos. O que isso tem a ver com meditação? Meditação é aflorar o observador neutro da realidade. É perceber a realidade externa e interna com o mínimo de contaminações de defensividade, de racionalizações, de projeções. É perceber aquilo que é como é.

Isso tem uma aplicação imensa com todas as dimensões da vida. Por que quando nós percebemos com contaminações de pensamentos perturbadores, de pensamentos que não correspondem à realidade, é como se nós acoplássemos uma realidade virtual sobre a realidade real. Aí o que acontece: eu já não vou saber distinguir as coisas.

Silhueta de casal sentado.
Foto: Mahkeo Ocxl/Unsplash

Meditação é saber distinguir o que é real e o que é só da minha cabeça. Essa é a grande proposta da meditação e então ela não se resume apenas às técnicas formais de meditação. O que eu aprendo, o que eu desenvolvo durante as técnicas de meditação, que é ter essa perceptividade a mais pura possível da realidade é passar isso para a vida e em um relacionamento o que isso eu posso aplicar, aonde? Colocando no ponto que eu quero abordar de implicância, eu posso me dar conta de um padrão de implicância que eu mesmo tenho. E o que eu chamo de implicância? Implicância é procurar defeito no outro. É querer ver defeitos no outro. É focar apenas nas qualidades negativas. É dar um peso muito maior as essas qualidades negativas do que outras dimensões da pessoa.

Normalmente, as pessoas têm muito mais virtudes e qualidades do que defeito, mas nós ficamos cegos a isso, porque a nossa atenção não está aí. No início de um relacionamento, obviamente a gente percebia, mas depois a gente vai entrando em consciência, vai entrando ego vai entrando a competição, vai entrando as insatisfações, então muda o foco, vai mudando o foco. A pessoa deixa de observar as qualidades e começa a observar defeitos e fica fixa nisso.

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O padrão é se manter fixo a isso e aí ela vai agir de acordo com o que ela está focando. Então o relacionamento passa a ser destrutivo, não prazeroso, o inferno vai ficando cada vez mais borbulhante, cada vez mais quente, então quando isso se instala e não for dissolvido, a tendência é haver separação, mesmo se na base há o amor. O amor fica encoberto. A maneira de descobrir o amor, de redescobrir o amor começa por pegando em flagrante os nossos padrões destrutivos, no caso aqui eu estou falando de implicância.

Então eu me dou conta, a pessoa se dá conta de que ela tem uma atração especial, de dar um peso maior nos defeitos do outro. Quando ela se dá conta desse padrão, dos pensamentos que ficam remoendo, ela remoendo as críticas, fica um “tchu tchu” dentro da cabeça ela precisa se dar conta dessa ruminação, ela precisa encontrar o botão de desliga. Ela precisa desligar esse ruminar.

Casal juntando as mãos.
Foto: Jon Asato/Unsplash

Enquanto continuar esse ruminar dentro da cabeça da pessoa, aí todo o metabolismo, não só fisiológico, energético, o envolvimento do casal é intoxicado, isso é intoxicação. Então ninguém quer isso, mas ela não sabe como desligar o botão.

A meditação é um treino de desligar as ruminações. Quando a pessoa ela está praticando uma técnica formal de meditação, vamos supor que ela esteja atenta a: pode ser respiração, pode ser qualquer outro coisa, o importante é que haja a percepção de qualquer aspecto da realidade. Aí vai haver pensamentos, isso é normal durante a meditação, o treino na meditação: que é focar no que está acontecendo, vai vir pensamentos que vai encobrir essa percepção, eu pego em flagrante a vinda desses pensamentos.

Ao pegar em flagrante, eu volto a prestar atenção ao que está acontecendo no momento e ao prestar atenção os pensamentos se dissolvem. O botão que desliga os pensamentos ruminantes é a percepção aguçada à realidade presente. Esse é o botão que a meditação ensina. Com a prática nós vamos ficando cada vez mais habilidosos em perceber a realidade de uma maneira penetrante e também nos dar conta da vinda dos pensamentos, reconhecê-los, não validá-los e interrompê-los com o aumento da perceptividade da realidade.

Isso tem uma aplicação direta nessa situação que eu estou falando. A pessoa se dá conta do padrão de implicância, uma vez que ela se dê conta, ela interrompe ao voltar à consciência para qualquer aspecto da realidade. Quando nós entramos no modo “percepção” é como se nós tivéssemos dois modos de ser: modo percepção e modo pensamento. Se eu vou treinando estar cada vez mais no modo percepção, eu vou me familiarizando o estado de presença. Modo percepção é presença. Quando existe a presença, diminui automaticamente, naturalmente os pensamentos perturbadores desnecessários.

Foto da cabeça para baixo de casal.

É uma relação inversa: meditação ensina isso para eu usar na vida. Então quando diminui os pensamentos por eu estar mais atentivo à realidade aí acontece um fluir, nós continuamos a agir, nós continuamos a ser, a atuar no mundo, só que agora nesse modo percepção, o fluir nosso não vem mais dos condicionamentos, do automatismo, ele vem de uma outra dimensão. A presença na verdade é o portal da sabedoria. Um relacionamento para ser agradável, para ser saudável, para ser construtivo, ele precisa de sabedoria e a sabedoria só é acessada em um estado de presença que é a percepção da realidade, tal qual ela é.

Esse é o treino que a meditação faz. Todo o enfoque de um meditador deveria ser de transferir o treino, as habilidades que eu desenvolvo no treino para o jogo, o jogo da vida, o jogo que vale pontos. Se a pessoa não transporta essa presença durante as meditações para a vida, ela está perdendo tempo. Vamos enfocar no jogo, o jogo é que vale pontos. Então para quem não é um meditador, eu acredito que seja mais difícil pegar em flagrante de uma maneira neutra, as próprias implicâncias que você faz ao outro, interrompê-las, permanecer como observador neutro, esperar um fluir que vem de uma outra dimensão. Para quem pratica meditação, há mais facilidade. Meditação é algo nebuloso para muita gente. O que eu estou passando aqui é que meditação não é apenas você ficar sentado, de olhos fechados, sem interagir.

Meditação presença ela precisa ser transportada para a vida para que nós cumpramos o nosso papel na vida que é encontrar o equilíbrio. É viver com sabedoria. A nossa proposta, a de todo mundo é encontrar a sabedoria, é ser sábio, e manifestar a sabedoria, é sair da burrice, da inconsciência, dos automatismos, dos padrões destrutivos. É ser um sábio, essa é a proposta. Sem dúvida alguma estar cada vez mais no modo percepção abre o canal da sabedoria em relacionamentos, na profissão em qualquer dimensão da vida.

Sobre o autor

Anand Nisargan

Anand Nisargan

Anand Nisargan é o criador do ESPAÇO PRESENÇA e focalizador de seus Retiros de Meditação.

Formado em Medicina na Unicamp, em 1994 abandonou seu trabalho como médico psiquiatra para tornar-se instrutor de meditação.

Bebeu da fonte do Mestre Osho em sua própria presença física e foi membro de suas comunas na Alemanha, Itália e Brasil, sendo tradutor de dezenas de seus livros e vídeos. Autor do livro “A Arte de Estar Presente”.

Site: espacopresenca.com.br
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