Maternidade Consciente

Mãe, porto seguro ou poço profundo?

Mulher grávida com a mão na barriga.
Silvia Jara
Escrito por Silvia Jara

Acho que os dois, tudo junto e misturado!

Ser mãe é, de fato, um papel extremamente recompensador, cheio de alegrias, de diversões e de muita realização. Ser mãe é estar a serviço de algo muito maior: a serviço da vida e da vontade de Deus.

Se existe alguma emoção que se assemelhe ao fato de ser mãe, eu desconheço, tamanha a grandeza que uma mulher sente quando se torna mãe. É um misto de poder e medo, de alegria e preocupação infindáveis. É um momento ímpar, em que a presença de uma Inteligência Maior, muito maior que a nossa, é inegável.

Quando um filho nasce, nasce um ser paralelo, que já existia, mas sem a mínima noção de como seria a vida dela depois de se tornar mãe.

É uma relação de simbiose profunda. E a psicanálise já explicou isso há muito tempo. Segundo Freud, mãe e filho são seres fundidos em um só, pelo menos por alguns meses, até que essa criança comece a perceber que ela está separada, que não é a mãe, que é um ser alheio àquela que a amamenta e cuida. E aí tudo começa!

Mães são seres que podem nos orientar e nos colocar num caminho maravilhoso, fazendo com que a gente se sinta empoderada, segura, forte e capaz de criar nossas próprias percepções sobre as coisas ao nosso redor. Uma relação em que a mãe é segura de si, tem autoestima bem trabalhada e tem maturidade, é uma relação sadia, na qual a mãe sabe como criar filhos sem projetar suas crenças neles.

Contudo isso é uma situação bem pouco comum. O mais comum é que as mães, que foram educadas por outras mães, nem sempre são tão seguras de si, às vezes são submissas e têm problemas de autoestima, então acabam por transmitir crenças e “verdades” inapropriadas para o desenvolvimento de uma criança, que vai guardando em seu HD memórias de limitações, de medo e de insegurança.

Mãe e filha abraçadas olhando para a câmera.
Por Jhon David no Unsplash

Assim é que os ciclos se repetem, porque estamos todos aqui neste mundo para aprendermos a ser melhores, mais conscientes física, mental, emocional e espiritualmente. E, num campo de aprendizado, cada um segue com seus próprios recursos, fazendo com eles o melhor que consegue.

Quando uma mãe se dá conta de suas lacunas emocionais, talvez, lá na frente, peça para alguém ajudá-la a enxergar aquilo que não via quando teve seus filhos. Isso acontece para aquelas que percebem os desequilíbrios de suas emoções, que acabam tendo problemas em seus relacionamentos ou com seus filhos, então reconhecem que algo não vai bem e admitem que a questão é dela própria, não dos filhos.

O ideal seria que todas nós, mães, pudéssemos colocar muita atenção em nós antes mesmo de nos tornarmos mães. Mas a vida não é assim. Vamos vivendo aos solavancos e, um dia por vez, fazemos o que é preciso e possível. Seguindo inconscientemente nossos dias, repetindo os mesmos padrões que aprendemos com nossos pais.

Como bem dizia Renato Russo: “Você culpa seus pais por tudo. Isso é um absurdo. São crianças como você o que você vai ser quando você crescer”. Essa compreensão nos abre uma porta enorme para começarmos a fazer diferente e para olharmos para nossos filhos como oportunidades de aprendizado. É uma chance única de acolhermos a nossa criança interior e de percebermos o que nos faltou e como podemos completá-lo dentro de nós para, daí, sim, oferecermos a plenitude a nós próprias e aos nossos filhos. Isso exige um nível de consciência que, na maioria dos casos, não possuímos quando decidimos engravidar.

Mulher fazendo coração em cima da sua barriga de grávida.
Foto por Suhyeon Choi no Unsplash

Sei, tudo está parecendo muito chato! Para que ser mãe então se dá tanto trabalho? Por que ser mãe? Não seria mais fácil ficar quietinha e não ser responsável por ser nenhum além de nós?

Sim e não! Mais fácil seria. Talvez mais cômodo. Mas essa é a experiência que viemos viver para aprender! Nem todas as mulheres serão mães, e isso não representa nenhum problema, porque isso não é obrigatório nem tampouco minimiza o valor de ser mulher. Há muitas mães que nunca tiveram um filho. A questão de ganhar consciência é humana, não apenas feminina. Para aquelas que decidem ser mães, é uma experiência para evoluir.

Para nós, as que decidiram ter filhos, quanto mais cedo entendermos a dinâmica oculta nas relações entre mães e filhos, nas crenças e nos padrões de comportamento que trazemos para a educação de nossos filhos, mais cedo daremos liberdade de ação para eles e mais cedo poderemos retomar o curso de nossa própria evolução, que, apesar de ter no ofício de mãe uma enorme oportunidade, independe do fato de ser mãe.

Agora vamos observar o olhar da Constelação Sistêmica sobre as mães. Segundo Bert Hellinger: “Aquele que não tem êxito com sua mãe também não tem êxito com a sua profissão”.

Parece muito estranho dizer isso, mas, segundo a visão sistêmica (que se refere ao sistema de uma família), todo aquele que tem problemas com a mãe – e olha que não são poucos nesta vida – tem muita dificuldade de caminhar de forma fluída pela vida e, principalmente, em sua profissão. Parece haver sempre algo que emperra, como uma madeira de enchente enroscando por arestas.

Mãe abraçando a filha.
Foto por Eye for Ebony no Unsplash

Mãe tem um papel fundamental em nossas vidas. É um ser de força e coragem que aceitou – consciente ou inconscientemente – arriscar sua própria vida para dar vida a outro ser e, por essa razão, já deve ser respeitada e amada incondicionalmente. Alguns dirão: “Tá, mas minha mãe é uma chata, controladora, chiliquenta! Só porque é minha mãe tenho que engolir?”.

A mãe é nossa primeira conexão com o mundo. Desde a concepção, já estávamos unidos a ela. E, goste a gente disso ou não, é inevitável nascer de uma, pelo menos nesta dimensão na qual vivemos. Tudo o que é vivenciado pela mãe é transmitido ao feto. Todas as informações do campo mórfico familiar (campo de informação em que todas as características genéticas e comportamentais são perpetuadas) já estão presentes desde a nossa concepção. E isso começa a ser passado para o bebê dentro do útero. Todas as experiências vivenciadas pela mãe durante a gravidez são impressas também no bebê, portanto já nascemos aprendendo coisas sobre nossa família.

Quando Bert Hellinger nos fala sobre aceitar e amar a mãe incondicionalmente, agradecendo a vida que veio dela, ele não está querendo dizer que seja necessário se resignar às crenças e às “verdades” que aquela mãe nos passou, mas, sim, aceitar que aquilo é o que ela pode nos passar.

Aceitar é compreender com amor que toda mãe é a mãe certa para aquele filho, para a experiência de que ele precisa para evoluir e para perpetuar o clã familiar. Ela passou tudo o que tinha. A vida é como é e a mãe que temos é a melhor mãe que poderíamos ter. As experiências que ela viveu a moldaram na pessoa que ela é e, como tal, ofereceu aquilo que era possível para ela.

Compreender e aceitar com amor que cada um faz dentro do seu nível de consciência nos possibilita encontrar a paz e, dessa forma, buscar uma nova consciência que modificará nosso painel cognitivo, nossas crenças e “verdades herdadas”, para fazermos diferente.

Mãe agachada com seu filho dormindo em suas costas. O bebê está preso por um pano.
Foto por Annie Spratt no Unsplash

Quando aceitamos que tudo foi como foi, como era possível ser, aceitamos a primazia da Sabedoria Divina em nossas vidas. Não julgamos Deus por seus “erros e acertos”. Isso é arrogância humana. É importante compreender e aceitar que cada experiência que vivemos nos moldou e nos trouxe até aqui. Negar a mãe é negar 50% da nossa composição genética e, em última análise, negar 50% de mim mesma.

A visão da Constelação é bastante polêmica até que entendamos que o amor é a base de tudo. Quando aceitamos nossas mães como elas são, podemos apaziguar nosso coração, compreendendo que não tinha como ser diferente, que só pela vida já merecem todo respeito e amor.

Quando aceitamos esse fato, sem culpar a ninguém pelos nossos erros e acertos, assumimos o controle de nossas vidas, de nossa responsabilidade e abraçamos a possibilidade de fazer diferente, mesmo que num primeiro momento tenhamos julgado nossas mães como poços profundos em nossas vidas.

Muitos de nós (inclusive nossos filhos, é isso mesmo!) mantêm emoções de raiva para com as mães, culpando-as e carregando um fardo imenso por isso. Enquanto não nos liberamos desse olhar infantil e exigente para com elas, achando que elas poderiam ter feito mais por nós, não deixamos o fluxo de nossa vida correr livremente, porque a estamos travando desde a fonte, da raiz, de onde ela nasceu: da mãe. Aceitar a mãe como é e saber que podemos fazer diferente é libertador, porque nos permite olhar para nossa vida de forma clara e límpida.

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Nossas mães, quando, segundo nossa visão, “falham” conosco, estão nos dando a oportunidade de buscar saídas, de fazer diferente e de nos provar. Tomar a mãe assim como ela é significa se libertar. É se lançar para a vida alcançando nossas potencialidades, trazendo para nosso sistema familiar uma nova leitura, um fazer diferente que terá impacto em todo nosso clã, especial e principalmente para nossos próprios filhos, porque isso será passado por intermédio do campo de informação do nosso sistema familiar.

Por isso é que ser mãe é uma tarefa trabalhosa, entre a luz e a sombra, mas também é divina. Ser uma mãe consciente, que conhece a si mesma, possibilita que seus filhos vivenciem suas próprias experiências. Mesmo que isso não aconteça, todos nós teremos a chance de modificar essa relação por meio do amor incondicional e da compreensão de que a vida não depende da mãe que tivemos, mas da forma como nós queremos enxergá-la. Essa é a ordem do amor. Tudo foi o que foi e é como é. Aceite sua mãe como é e entenda que há sempre a possibilidade de fazer diferente. É isso que importa!

Sobre o autor

Silvia Jara

Silvia Jara

Depois dos dois primeiros anos do Eu Sem Fronteiras, resolvemos atualizar nossas informações e isso foi um belo exercício de reflexão!
Nosso propósito sempre foi ajudar as pessoas na busca do autoconhecimento e eu, pessoalmente, não fiquei isenta disso.

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Em meu perfil anterior disse: “olhando para trás percebo que, em minha vida, as coisas sempre aconteceram de maneira fluida, sem muito planejamento, embora tenha verdadeira admiração pelo planejamento ‘das coisas'”. Hoje entendo que foi o foco no presente que me fez seguir o fluxo da vida em muitos momentos, sem me preocupar com o ontem ou com o amanhã. As coisas caminharam como deveriam ser.

Minha paixão pela publicidade se transformou na paixão por pessoas, comportamentos, sentimentos, atitudes e, principalmente, na capacidade e necessidade do ser humano de se comunicar, compartilhar e crescer. Minha formação acadêmica em Publicidade não mudou, mas minha formação humana tem sofrido diversas e importantes mudanças no sentido de compreender que sozinhos não chegaremos longe. Somos um sistema e como tal, precisamos uns dos outros.

Minha capacidade analítica e observadora, aplicada à Pesquisa Qualitativa de Mercado que, até então, me serviu para compreender o comportamento de consumo das pessoas e grupos, agora parece muito mais voltada a me compreender, a olhar para dentro de mim e buscar minha essência verdadeira. É praticamente impossível ficar ilesa, isolada e desconsiderar tantas informações e conteúdos com os quais lidamos no dia a dia de nossa redação.

Hoje entendo que o trabalho em áreas comerciais, marketing de empresas, agências de publicidade e a atuação em pesquisa de mercado estavam me preparando para esse mergulho no autoconhecimento. Nada é coincidência!

A curiosidade pelo mundo espiritual, pela meditação, pela metafísica, pela energia vital está se transformando em novos conhecimentos e práticas: Reiki, Apometria, Constelação Familiar, Thetahealing, PNL, EFT, Florais e tantas outras técnicas. Sigo acreditando que o questionamento, a busca de informação e a vivência me levarão a conhecer minha missão de vida, meus caminhos e minha plenitude.

Trabalhando no Eu Sem Fronteiras desde 2014, tenho aprendido muitas coisas, vivenciado outras tantas e não sei onde isso chegará! O que me importa é continuar nessa busca. É um caminho sem volta no qual o grande objetivo é aceitarmos que somos sujeitos de nossa própria vida, os únicos capazes de transformá-la.

Grande abraço e muita luz!